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domingo, 29 de janeiro de 2012

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A Samambaia do Amor

Jussara e Mauro são casados. Isso significa absolutamente nada, na maioria dos casos, mas não no caso de Jussara e Mauro. Fossem essas linhas escritas daqui cinqüenta anos, ainda assim iniciariam em: Jussara e Mauro são casados. Esse é o caso.

Ela fez o Normal, lecionava português no Méier. Ele não, por isso dirigia caminhões por aí, pelo interior de Minas e pelo Mato Grosso. Viajava até o sul por vezes e, eventualmente, passava pelo Rio de Janeiro antes de subir de novo até sabe-se lá onde. O Méier era um ponto fora de sua rota. Fora da rota de sua vida, inclusive. Até um dia em que se perdeu no caminho da vida e viu-se em sua boléia circulando pela região a procurar por uma saída.
Enquanto isso, Jussara regava as plantas. Retornara com vida do sacrifício no magistério, então foi tomar um banho e vestir uma roupa leve. Almoçou feijão com arroz, carne moída e banana e foi regar as plantas do quintal. Uma samambaia em especial, uma chorona de frondosas madeixas, exigia mais trabalho que as demais. Isso porque, para que a falta de altura não fosse um empecilho no desenvolvimento das madeixas, o irmão de Jussara, um homem grande, pendurava a Samambaia nas alturas. Como seu irmão não estava por perto (homens grandes nunca estão por perto, há que se ter cuidado com eles), Jussara se viu com a árdua tarefa de se virar com a samambaia.

Regador em punho, ela esticou a pontinha do pé em cima da pedra que tampava a cisterna e lançou-se à samambaia. Uma cena que realmente só se vê na exótica paisagem do Méier. Uma cena, aliás, que realmente só se viu por alguns segundos na exótica paisagem do Méier. A tampa da cisterna era dura como pedra, posto que era de pedra, mas fez exatamente o que faria o governo militar dali alguns anos, duro como pedra, posto que era de pedra: cedeu. Uma tampa de chumbo não cederia.

A gravidade, sempre ela, lançou Jussara e o regador ao encontro das profundas águas da cisterna. Por instinto, que é o mesmo no Méier ou no Maine, Jussara gritou por sua mãe. A senhora estava assistindo à reapresentação da novela no aconchego do sofá, mas, em um momento raro, escutou seu chamado. Chegou, inclusive, a responder:

- Hein?

Jussara gritou novamente, mas dessa vez não teve tanta sorte e a senhora sua mãe não ouviu. Apenas no comercial da novela, durante uma propaganda de Limpol, lembrou-se da filha. Venceu suas articulações e levantou-se, chamando de volta por ela, que agora se debatia com o regador dentro das outrora plácidas, mas ainda profundas, águas da cisterna. Começou, então, uma brincadeira que consistia em: a mãe chamar por Jussara e Jussara responder com:

- Estou aqui.

E nunca se encontravam, até o momento que se encontraram. Então a mãe, desesperada e espontânea como só as mães, perguntou:

- O que você está fazendo aí, minha filha?

Foi então que, por intermédio da senhora, entrou em ação a autoridade competente. Autoridade competente no subúrbio é outra coisa. Existem as Forças Armadas, que respondem pela ordem no governo do país. Existem as forças auxiliares, como Policias Militar e Civil e o Corpo de Bombeiros, que auxiliam na manutenção do governo do estado. Existe ainda a Guarda Municipal, que detém o poder da violência na esfera do município. E, no subúrbio, apenas no subúrbio, atua a Força da Vizinhança. Experimente você cair na cisterna do seu apartamento no Leblon e chamar os vizinhos. No Leblon os vizinhos estão ocupados enchendo os copos e a cara em Ipanema e escrevendo Bossa Nova, ou estão pintando quadros horrorosos e caríssimos, ou estão de férias na Europa ou na casa de Angra, ou estão em Brasília justo para dar entrada no pedido de férias. Você morreria afogado e esquecido no Leblon. Mas não no subúrbio.

Uma vez que a senhora deu o sinal, prontamente surgiu um vizinho com um guarda-chuva para evitar que Jussara apanhasse sol lá dentro da cisterna. Outro vizinho logo apareceu com um radinho de pilha já sintonizado na Rádio Tupi, Cacique do Ar, porque não sabia quanto tempo o resgate poderia demorar. Um terceiro vizinho trouxe um copo d'água e os demais logo caçoaram dele. Não caçoaram, no entanto, do vizinho seguinte, que trouxe bolo de laranja, enquanto sua esposa correu para fritar pastéis. Houve ainda um vizinho que cedeu as cadeiras de praia. Como estavam todos ali, não havia quem buscasse as crianças na escola, de maneira que outro vizinho teve de bater o telefone para lá e as aulas foram suspensas. Um outro ainda, depois que o telefone desocupou, lembrou-se de chamar o Corpo de Bombeiros.

A prosa em volta da cisterna estava tão boa que, quando foram ouvidas as sirenes na esquina, todos ficaram meio assim assim com o término do evento. Principalmente o grupo de crianças, que parou de correr no quintal para enfiar a cara na cisterna e pedir:

- Tia Jussara, cai na cisterna de novo quarta-feira? Tem prova.

Como os bombeiros precisaram remover cadeiras, jarras de água e suco, pastéis, crianças, radinho, bolo de laranja e outros inutensílios, o resgate foi um processo demorado e os dois caminhões vermelhos à porta causaram engarrafamento no Méier. Engarrafamento esse que prendeu, inclusive, um terceiro caminhão: o de Mauro. Notando que o trânsito não evoluía, Mauro desceu de sua fortaleza sobre rodas que abrigava seu coração para averiguar. Ao se deparar com a multidão à porta da casa de Jussara, assuntou. Vizinho adora assuntar e, com prazer, forneceu um relatório completo do acontecido, mais completo do que forneceria o Corpo de Bombeiros. Mauro entrou na casa bem a tempo de ver o caminhão dos bombeiros içando Jussara cisterna afora. A primeira vez que seus olhares se cruzaram foi assim, Jussara içada pelo caminhão olhando para baixo e reparando no caminhoneiro que reparava nela. Os vizinhos aplaudiam e as crianças gritavam. Era um belo final de tarde no verão e houve inclusive fogos. Ou talvez fosse a imaginação dos dois.

Quando desceram Jussara do guindaste, ela andou em direção ao desconhecido e lhe perguntou:

- Quem é você?

Não coube a Mauro responder. Mauro não é de falar muito, pouco responde até hoje. Pegou o regador das mãos de Jussara, que heroicamente ainda o mantinha. Sem muita dificuldade, regou a samambaia. Naquele momento, o amor entre eles foi batizado pela água de cisterna que escorria do regador. Foram morar na Água Santa, não podia ser diferente.

Jussara e Mauro são casados. Isso significa absolutamente nada, na maioria dos casos, mas não no caso de Jussara e Mauro. Fossem essas linhas escritas daqui cinqüenta anos, ainda assim terminariam em: Jussara e Mauro são casados. Esse é o caso.

2 comentários

Malu

E quantos casamentos de Jussaras e Mauros são contados assim e permanecem por toda a eternidade nas conhecidas e desconhecidas literaturas...

Eduardo Ferreira Moura

Muitos? Poucos?