O CARRO DO SOL
2.
Todas
as reflexões que iniciara no deserto, para os tempos e as marchas, foram se
desfazendo para Mona. Esqueceu-se de verificar comportamentos, compartimentos,
sentimentos, esclarecer hipóteses ou enfurecer contradições. Por alguns dias
vagou por laboratórios, observatórios, cursos, seminários, longos corredores
que namoravam o deserto, arcadas quase medievais em sua oração. Não deixou de
deslumbrar-se com a dança das sombras coloridas no cair da tarde, com o líquido
ruído dos filetes de água nos pequenos jardins.
Fez alguns amigos, cordiais, distantes, prestativos, um pouco
observadores. Alado reunia-se com alguns
doutores para os informes científicos e técnicos e o tempo da bela era
colorido, rico, enfeitado de satisfação e bem estar.
Mona
preparava-se para o encontro com um belo
médico, Acássio, um especialista em plantas medicinais. Enquanto esperava percorria
o palácio, espiava cursos e estudos de seu interesse. Nem todas
as portas se abriam, mas, ela não se aproximava de todas elas. Encantada e
intrigada com a atmosfera lúcida e recolhida foi entregando-se ao lugar.
Ficou
mais à vontade quando conheceu um grupo de dança e começou a participar das
aulas e ensinar algumas coreografias. Nesse grupo estavam muitas pessoas,
homens e mulheres, que também eram estrangeiros e tinham um temperamento mais
espontâneo, sensual, parecido com os habitantes do vilarejo oriental. Reuniam-se no começo da noite para uma taça
de vinho em um espaço muito amplo, um salão e terraços, estrelas muito brancas,
um aroma suave do calor se desprendendo das areias do deserto. Muitas pessoas iam confraternizar ali, o
clima era muito ameno e podiam ver-se, inclusive, alguns mestres, nem sempre
acessíveis em outras situações. Era o que se comentava. De qualquer forma essas
reuniões de senhores e discípulos desmistificavam o lugar, deixavam os
aprendizes tranqüilos e abertos para os estudos.
A
atmosfera era sempre impessoal, espiritual, satisfeita. Mona sentia dificuldade
de defini-la. Mas, como constatou com seus novos amigos, no Palácio dos Arcos
um humano deixava do lado de fora qualquer tipo de agressividade ou ansiedade.
Suas carências afetivas tornavam-se mais leves, inexatas, quase vagas.
Nesses
primeiros dias divertiu-se muito junto aos companheiros e companheiras do
vilarejo. Como ali não se praticavam os intermináveis exercícios de espada e
controle de mente – vez ou outra e muitas delas para demonstração para os
senhores – sobrava muito tempo para o vinho, as festas e... o amor. Os
espantosos habitantes do vilarejo oriental mostraram-se grande companhia,
alegres e solidários. E Alado, bem Alado, sem muito preâmbulo começou a namorá-la,
como se fosse seqüência natural do relacionamento que mantinham. E Mona, que
ali chegava mais mulher e pragmática, não pode deixar de observar que não tinha
exclusividade nesse encantamento. Efetivada em outras fluências, a bela
deixou-se derivar nesse afeto, amigo e vibrante. E vestiu o manto laranja para
a entrada no Palácio dos Arcos.

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