sexta-feira, 12 de junho de 2015

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O RETORNO TRIUNFAL DE MESTRE DUÑA, DEPOIS DE LONGO E TENEBROSO OUTONO



Mesmo optando voluntariamente pela reclusão, Duña, o magno profeta, deixou-se enfim fotografar em seus rústicos domínios, embalando paternalmente duas lindas pencas de banana da terra.

A aparição se deu em meio a insistentes rumores de que, nos últimos meses, Mestre Duña estaria se lançando de maneira febril ao trabalho de compilação de sua doutrina, revisando alguns aspectos e acrescentando tópicos inexistentes nas edições anteriores. Aos mais chegados, externa o oráculo dos oráculos o receio de que seu tempo nesse mundo já se esgota, e de que cada minuto é precioso para que o acesso à duñesca sapiência seja direito sagrado de todo ser humano, de Muzambinho a Machu Pichu, passando por Joahannesburg.

"Caixão não tem gaveta. Ainda que seja de madrepérola incrustada de esmeraldas, vai servir como jantar aos vermes do mesmo jeito que um caixote da Ceasa. Chega um momento na vida em que o dinheiro, o sucesso, o prestígio e o diamante negro não significam mais nada. Em que tanto faz ganhar mais dois ou mais 222 canais de televisão para difundir a doutrina em escondidos cafundós. É quando o tempo vale mais que o templo", afirmou o Divino, demonstrando estar cada vez mais imune às artimanhas da cobiça e desapegado das transitórias riquezas dessa vida. 

"Imagine um sujeito fazendo esteira numa academia", comparava o mestre em mais uma de suas sacrossantas analogias. "Os imbecis pensam que ele nunca chegará a lugar algum, em sua aparentemente estúpida imitação de hamster de laboratório. Mas a verdade é que, mesmo sem sair de onde está, irá mais longe que todos, graças às décadas adicionais que viverá. É como sempre dizia o ilustrado Juan de la Duña, fundamento medieval da doutrina e meu bisavô pelo lado materno: mais vale uma voltinha de velotrol todo dia no quarteirão do que uma escadaria da Penha a cada onze anos". Ao dizer isso, muitos dos presentes à porta da choupana duñesca afirmaram vislumbrar no firmamento um vendaval de pétalas lilases, que trazidas pelo vento iam envolvendo a fabulosa figura do Venerável.

Apoiado em seu inseparável cajado, prosseguia em tom inflamado: “É por isso que, quando muitos perguntam-me sobre onde está a verdade, reafirmo que ela está dentro de cada um. Todos os caminhos ali desembocam, todos os ribeirões ali desaguam, todas as aves de arribação ali pousam, ali fornicam, ali se reproduzem e ali fulguram radiantes com suas proles. A sua verdade é diferente da minha, que nada tem a ver com a dele, que por sua vez diverge da verdade de outrem, que não deixa de ser verdade pelo fato de não coincidir com a verdade de quem a supõe verdadeira. Nesse sentido, a amizade é, sim, a ponte para alcançá-la. Ainda que a Ponte da Amizade tenha se celebrizado por conduzir a caminhos falsos e sem garantia, ao invés de legítimos e cobertos pela mais ampla rede de assistência técnica.


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