quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

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A PASSAGEM 10 - JANDIRA ZANCHI


  

I  -  A  PASSAGEM

10.

-         Quando corre o sereno da lua cheia  sou ainda menina e a chave do vento. Enlouqueço e na estrada meus pés de barro espiam o homem. Atílio, por que nos veio tão profunda a alma, se em chão de terra batida nos fizeram a guarida e o envolvimento?
-         Na lama escorrerás o pó que te deu forma. Carne e sangue, ultrapasse-os, e consinta nos anos que te levam e espiam a esperada anunciação. Hoje estamos em vigor no canto do pássaro, nos sucederam os primatas, e neles, os anjos e demônios que aquietamos.
-         Mas, Atílio, conseguirão cem homens derrotar cem mil vezes mil almas que espionam o choro e o fardo? Vejo-as em suas mantas, enrolando as mentes perdidas nas noites frias de seus pés cansados.
-         Conseguirão. A terra se levantará e com grande avidez expulsará de seu ventre os que nela expeliram fel, fome e dor.
-         Essas noites que afugentam os meus sonhos. Não as quero tão brancas e escorridas, prolongadas...
-         Elas te antecedem o surdo pássaro que te levará as mágoas. Quando as beija, te fere o calor da aurora. Não se socorra. Os ventos que antecedem a aleluia passarão pesados e nervosos em sua coreografia.
-         Existe o bem e o mal?
-         O mal... seu espectro escuro é o esconderijo no ventre da montanha. Fardos fáceis de redondos olhos azuis, flácidas bochechas e nas entranhas, a vontade de textura. Quando o homem começar a julgar a si mesmo, caíra a máscara, e o canto se fará verdadeiro na generosidade.
-         Ela abrirá a estrada em direção ao parque.
-         Serão apenas seres. Bons e maus não se conhecerão pelas mãos e pelas vozes. Seres, vidas, desejos e medos, consciências, aberturas, rompimentos, rachaduras da crosta, entranhas abertas. No fogo da vida romperá o novo cobalto da estrela para cantar o mistério que não se explica. Não desejarão o belo, o gênio e o talento. Antes, em orações, oferecerão as cem mil faces para as várias aberturas da luz.
-         E as entranhas da terra?
-         Envergonhadas, cientes. Rebolarão para os seus elementos superiores, consciência ou água, para depurarem no fogo santo a vergonha.
-         O homem não pode tomar sua forma de maneira mais branda e harmônica?
-         Não, porque a emergência da consciência dói, e até que ela se instale e elimine o primata o processo se faz em convulsões de sangue e posse – diríamos ridículos, pois equivocados – mas aquele que não sabe é porque se trouxe sem o cálice. E entornará muitas verdades e ilusões antes de conformar-se consigo mesmo.
-         E para que algo mais do que a si mesmo?
-         Te pergunto eu? No fogo das conquistas, entretanto, a lua, em suas quatro patas, segreda segredos que não se permitem. Acredita-se, cada vez mais, que se possa ser o único, com as condições especiais que uma época ou situação podem criar. Antes da grande iluminação, ilusionistas e seus palhaços armarão o circo e os fantoches tentando, em torno dele, expropriar a grade da verdade – que quando se abre te deixa nu, nubente e virgem nas frações de tempo que couber.
-         Eu estarei...
-         Estarei contigo.
-         Não me falte nas noites em que maldizer a pobreza de meu canto.
-         Ele te fará mendiga antes de te tornar rainha.
-         E os falsos guias brincarão de pega e oferendas – espécimes e armadilhas.
-         E só crerás no deus da mente. Empobrecido, ele te abandonará para o retiro dos já vividos.
-         Vida fogo louco que só esclarece na tortura!
-         Fogo brando, deixe alta a chama, e quando teus cabelos escaldarem a cor da pele, o sono dos teus sonhos te trará de volta a fada branca que criou para si mesma !

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