Horas. Os minutos que passaram deitados na cama tendo que se aturarem acordados demoraram horas para avançar. Vistos de cima, eram como qualquer casal normal: ele deitado de lado, encarando a traiçoeira luz do abajur; ela de barriga para cima, lendo e sublinhando um artigo recente da Veja sobre pedagogia infantil. Ele, amargurado, gostaria de ter dito:
- Não basta ler?
Mas engoliu as palavras, eram um casal normal. Contentou-se com o silêncio próprio dos casais normais, enquanto o barulho do grafite em contato com a página soava-lhe como uma faca de churrasco roçando o mármore. Sua consciência encarregava-se de torturá-lo:
- Justo a mulher do Marcelo? Porra, a mulher do Marcelo não pode! De jeito nenhum.
Teresa - mulher do Marcelo e motivo da desgraça que estava sendo aquela noite - era, antes de qualquer coisa, inocente. Esclarecido que era inocente, também era a dona de um belo par de coxas morenas, cabelos castanhos dignos de comercial de shampoo, lábios grossos bem desenhados e olhos verdes. Verdinhos, duas azeitonas.
Marcelo talvez fosse o homem mais feliz do mundo. Sua sorte começou ainda no colegial. Todo homem de talento precisa ter dois amigos para o resto da vida: outro homem de talento para ser seu sócio e um homem perdedor para ser seu funcionário. No colegial, conheceu Agenor, um bom perdedor. A amizade dos dois durou os três últimos anos de colégio, os cinco de faculdade e mais alguns muitos até aquela noite.
Ainda que os cabelos louros sedosos de Marcelo não combinassem em nada com a barba mal feita de Agenor, estavam sempre juntos. Quando se formaram, quando Marcelo conheceu a tal Teresa, quando arrumou um estágio privilegiado, quando juntou dinheiro para comprar um Passat 1.7, quando foi efetivado e promovido, enfim, em todos os seus sucessos. Carne e unha.
Naquele mês, enquanto atribulado homem do setor alimentício, Marcelo precisou ausentar-se da cidade por duas semanas. Tratava-se de uma negociação a respeito de saches de catchup. Antes de partir, deu dois beijos na esposa e um amistoso tapinha no quadril:
- Volto logo. Se cuida.
Agenor mesmo o levou no aeroporto. Agora, dez anos depois, juntou dinheiro para um Passat 1.6. Despediram-se com um abraço. Marcelo foi quem tocou no assunto:
- Olha, me faz um favor, duas semanas pra Teresa dormir sozinha é muito tempo, mas eu não consegui convencê-la a dormir na casa da mãe. Fala com a Cátia, pede pra elas conversarem, de repente a Cátia consegue.
- Tá, pode deixar. Fica despreocupado.
Era mentira. Marcelo nem desconfiava de quanto Cátia, mulher de Agenor, odiava Teresa. Agenor escondia a implicância da mulher ao máximo, tinha certo constrangimento daquele ódio aparentemente sem motivos ou pretensões, que por vezes levava a discussões desagradáveis:
- Aquelazinha... Hum. Não me convence. Essas roupas indecentes, carinha de criança... Aposto que dá pro bairro todo.
- Que é isso, meu amor!
- É isso mesmo. Essas são as piores, Agenor. Homem é tudo bobo. Você, o Marcelo, tudo bobo. Mas a mim... Ah, a mim aquela pistoleira não engana!
- Meu bem, você cismou com isso!
- Ah, eu cismei? Eu cismei, então? O que você diria de mim se eu fosse com essas roupas dela fazer compras, hein?
Agenor era um perdedor, mas tinha como bem mais precioso o típico senso de humor decadente e charmoso que acomete os perdedores:
- Que elas são quatro manequins menores que você.
Antes lhe tivesse dado quatro tiros.
Naquelas duas semanas, ele bem que tentou convencer Cátia a falar com Teresa. Inútil. O que ouviu foram comentários sobre as atrocidades sexuais que a pequena - não tão pequena, mas quatro manequins menor que Cátia - cometeria na ausência do marido.
Sexta-feira, durante o horário do almoço, tocou o celular de Agenor.
- Só pode ser a Cátia.
Pensou. Como de costume, não errou.
- Alô?
- Oi. Pode falar?
- É... Agora eu ainda não desci pro almoço. Daqui dez minutos eu...
- Olha, domingo, minha tia me convidou pra comer salpicão.
- Ótimo, amor. Depois da corrida a gente vai.
- Não, foi a tia Margarida, irmã da mamãe.
- Ah, a tia Margarida?
- É. Você sabe que ela não suporta você, né? Até hoje ela me inferniza o juízo dizendo que eu devia era ter casado com o Robertinho, né?
- É, o diretor daquela empresa de...
- Não, o presidente. Mas então, ela só convidou a mim.
- Tudo bem, eu como na padaria mesmo, eu...
- E você nem gosta de salpicão, né? Eu deixo um macarrão pra você, tá?
- Tá, amor. Obrigado.
A empolgação era evidente.
- Tenho que desligar, tem aluno em sala.
Ela arrematou antes de desligar. Depois de afastar o telefone do ouvido, Agenor pôde ouvi-la gritar para um de seus alunos um sonoro: “cala a boca”. Sentiu-se grato por não ser um deles. Desceu as escadarias para almoçar feliz da vida, pois não gostava realmente da tia Margarida. De salpicão tampouco. Ela, por sua vez, era formada em pedagogia e trabalhava como auxiliar de creche. Feliz da vida, gostava da tia Margarida e de salpicão.
Sexta-feira, dez minutos depois, toca o celular novamente.
- Pombas, Cátia de novo.
Enganou-se, felizmente.
- Alô?
- Agenor?
- Teresa?
- É. Tudo bem? Tá podendo falar? Tá no trabalho?
- Tô. Não. Pode falar.
Uma sutil diferença na voz se fazia notar em menos de quatro frases.
- Sabe o que é? O Marcelo vem no domingo, né? Eu queria preparar um negócio pra ele.
- O que, Teresa?
- Sabe aquele rondelli que ele adora?
- Ah, sei sim, aquele rondelli de São Cristóvão?
- É, esse mesmo! Mas então, de Copacabana pra São Cristóvão é meio longe, eu não sei chegar lá direito. Você pode me dar uma carona?
- Domingo agora?
- É. Domingo de tarde, se não for muito incômodo.
- Imagina! Imagina, Teresa, que isso? Você acredita que a Cátia acabou de ligar dizendo que ia passar o Domingo com uma tia gorda e chata? Eu ia ficar sozinho em casa, sem fazer nada mesmo!
- Jura? Eu não quero incomodar, não mesmo!
Disse isso mordendo o lábio. Agenor podia ver a menina de camisola mordendo o lábio.
- Domingo, uma hora, na sua porta?
- Não, porque você não vem lá pra meio-dia? Ai na volta a gente come no Cervantes e fica tudo certo?
- Meio dia. Combinado.
Meio-dia. As coxas da menina estão ao sabor do vento, pois o vestido encarregado de protegê-las não chega nem perto. Dentro de minutos, essas coxas estariam no banco do carona do Passat 1.6, ao lado de Agenor. Conversaram muito sobre os velhos tempos, riram bastante, ela cruzou as pernas dezessete vezes, ele não deixou que ela pagasse pelo rondelli nem pelo sanduíche de mignon com queijo sem abacaxi... Foi divertido, como dificilmente teria sido ao lado de uma pedagoga frustrada, quatro manequins maior que aquela menina.
Ele a deixou em casa e depois tratou de correr para a sua própria, onde encontrou a mulher de cara fechada. Perguntou como foi o dia e a esposa limitou-se a responder:
- Bom.
Completou reclamando da demora do marido, da Teresa, dele ter pagado as coisas, dele não a ter buscado na tia, do ministro da cultura, e não parou de desfiar seu terço. Enquanto Marcelo rasgava as roupas da pequena ferozmente, Agenor e Cátia deitaram-se como um casal normal. Ele de lado encarando o abajour, ela de frente, lendo qualquer porcaria.
- Você não trepou com aquela vagabunda não, né?
- Amor, ela é mulher do Marcelo.
Ficaram em silêncio enquanto sua consciência o torturava:
- Justo a mulher do Marcelo? Porra, mulher do Marcelo não. De jeito nenhum.

















