quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

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O ATRASO... (II)

“... O tempo? inclemente / pesando / na mente...” (Antônio C. Osório)

Escolher ser feliz nas pequenas coisas, no dia a dia, todos os dias, é encontrar a forma de não se atrasar, porque a vida é processo contínuo de trocas. Isso significa muitas coisas; se pudermos valorizar a importância em cultivar os interesses pessoais, em estar disponível, então o combinado é o acertado, sem atraso. Mas, às vezes, os desafios se avolumam à nossa frente que, por muitas vezes, nos atrasamos para os compromissos.
O atraso é falta e só depende da vontade que podemos encontrar em nós para que não aconteça, pois, como diz Paulo Leminski, “em cima / da hora / tudo piora”.
Se não cumprimos com os compromissos, nas horas marcadas, ficamos com a falsa impressão de melhorar o nosso tempo, como em Luiz Otávio Oliani, “O tempo não se rende / a nada que o prenda // embora não corra / abocanha os homens / silenciosamente”.
Que tal revermos em que prevalece o atraso, que se mantém em nossas vidas no dia a dia? Isso significa muitos atrasos, como o dos pais que chegam tarde para o jantar e, mesmo assim, as crianças ficam felizes ao vê-lo em casa.
As noivas organizam seus casamentos de acordo com seus estilos e gostos, marcam a hora mais apropriada para a realização e, quando chega o momento sagrado... se atrasam.
Médicos, profissionais que valorizam seu trabalho, telefonam aos pacientes confirmando dia e hora da consulta; de nada adianta, quando chegamos ao consultório, o atraso é confirmado – o que salva os pacientes é ler A Revista SC, enquanto espera pelo atendimento.
Vamos viajar! Compramos a passagem dia tal/tal hora; com entusiasmo fazemos o chek-in em casa. Ao chegarmos ao aeroporto, o desânimo sobressai porque o voo está atrasado.
A hora marcada no salão de beleza, mas, a cliente anterior se atrasou, o que atrasará os atendimentos nos demais horários. A beleza está em lermos para passar o tempo, prazerosamente, sem nos incomodar com a espera adicional. Encontro revista com chamadas para o espetáculo, com informações sobre ingressos, dia e hora; para variar, não honram o horário previsto para começar o show.
O atacante, no futebol, após a armação da jogada pelos companheiros, chega atrasado para a conclusão do lance e perde o gol. Os torcedores leem na chamada de capa d’A Revista SC: “GOL perdido”.
No amor, quando resolvemos nos declarar, muitas vezes, é tarde demais. A indecisão foi o obstáculo. Não assumirmos as fraquezas abertamente e corremos o risco da perda pelo atraso. Nas palavras de Luiz Otávio Oliani, “as horas voam / e me perco / entre os ponteiros do relógio...”
Erasmo Carlos, na música Coqueiro Verde, revela o atraso de Narinha, “Em frente coqueiro verde / Esperei uma eternidade / Já fumei um cigarro e meio / E Narinha não veio // Como diz / Leila Diniz / O homem tem que ser durão / Se ela não chegar agora / Não precisa chegar...”
Assim, a vida moderna é sinônimo de atraso. Agendas cheias, precisamos criar estratégias para minimizar o nosso tempo ao assumirmos horários e compromissos.
Um dia, escolheremos ser felizes enquanto abraçamos os filhos, visitamos os parentes e amigos, amamos o parceiro. Ou talvez possamos simplesmente honrar os horários, sem atraso.




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DIAS

Nos dias cansados
retira a criança
e se lança
       -  instante permitido -
em brincadeiras: esboça o corpo
em danças e gira a voz
no falsete original
da farsa
       - instante primitivo -
na recomposição
da imagem descansada
sorri o dia terminado.

(Pedro Du Bois, inédito)
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domingo, 15 de janeiro de 2017

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Pequenas histórias 271

Retiram-se


Retiram-se mais uma vez o calendário da parede. Novos números iguais ostentaram, daqui a alguns dias, os passos certeiros de sempre para os pés cansados de angústia faminta de desilusão. Muda-se o papel e as figuras que embelezam os números onde serão marcados as obrigações médicas e pagamentos de nossas vidas de consumista inveterado. Pagamentos que nos fará seguir adiante sem comiseração pelo próximo capenga seguindo também seu caminho dificultoso.
Mas não vamos deixar coisas mesquinhas atrapalhar nossos festejos comerciais de brilhos iluminando almas tranquilas embaladas por lacrimosas musica. Não, não vamos. E para que devemos nos preocupar se não é em nosso sapato que o calo doe. Sorrisos e apertos de mãos distribuem afetos que tocam apenas a pele. Beijos e abraços congratulam desejos não realizados.
Expandem-se células envenenadas de morte espalhando sobressaltos. Não há porque esmorecer é preciso juntar forças e vencer a batalha.
Todo o dia agradeço por mais um dia vivo.


Pastorelli
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sábado, 14 de janeiro de 2017

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TATTOO À DIREITA



Já vou avisando, a quem se interessar, que aqui é tudo de extrema direita. Dos desenhos tatuados até o tatuador, que é membro da Ordem Rosacruz com orgulho e mantém em dia suas contribuições mensais à Opus Dei e à Legião da Boa Vontade.

Levando minhas convicções da ideologia à anatomia, confesso que sinto-me mais à vontade tatuando do lado direito do corpo. Não que eu seja radical. Pelo contrário, sou até bastante complacente: comigo, os esquerdistas regenerados têm a chance de eliminar as bobagens que um dia resolveram estampar na carcaça. Desenvolvi uma tecnologia revolucionária, que permite a reconstituição da pele em sua pigmentação original. A tinta da tatuagem é expelida no máximo em uma semana, deixando todo o corpo livre para tattoos moralmente edificantes, como o Brasão do Exército ou a imortal efígie do General Emílio Garrastazu Médici. Há quem duvide, dizendo que é tudo conversa, que não há nada que remova uma tatuagem bem aplicada. Pois que apareçam por aqui para a prova definitiva - trazendo, de preferência, uma estrela do PT. Adoro exterminar essas estrelinhas, bem como Che Guevaras, Fidéis, foices, martelos e demais ícones inúteis. Aliás, tinta vermelha eu só removo, nunca aplico. Nem adianta insistir, que procure outro profissional. Um leviano e irresponsável profissional, no caso, sem compromisso com o desenvolvimento cívico das novas gerações. 

Caveiras, folhas de maconha, dragões cuspidores de fogo, serpentes, símbolos cabalísticos e de magia negra também estão fora do meu mostruário. Mediante aprovação prévia de cada desenho, admito aplicação de flores, ondas do mar, pássaros, símbolos yin/yang, corações, mandalas e frases em geral, dependendo do que o sujeito intenciona colocar como mensagem. 

Tattoos nas partes íntimas, nem pensar. São intocáveis. Há que se ter compostura e pudor, ainda que cada um tenha livre arbítrio sobre o que fazer com o próprio corpo. Particularmente, não me presto a esse tipo de serviço. 

Chegou a hora de tirar a tattoo dos guetos. Por que não um padre ou um maçom tatuados? Desde que o desenho dissemine valores éticos e cristãos, que mal há nisso? Outro dia mesmo, fiz uma bela de uma Santa Ceia tomando, de fora a fora, as costas do indivíduo. Também tatuei um Rosário em um monge beneditino, começando no pescoço e terminando nos tornozelos. Desviando, logicamente, de quaisquer partes pudendas no percurso. 

Pela glória da Pátria e em defesa da manutenção da ordem política e institucional, coloco-me à disposição dos clientes maiores de 21 anos, que apresentem atestado de bons antecedentes e não tenham passagem pela polícia. 



© Direitos Reservados
Imagem: www.goodfreephotos.com
Esta é uma obra de ficção, e não reflete necessariamente o pensamento do autor. 


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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

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MÁGICA do CORAÇÃO


“um escritor é alguém que pacientemente,
tenta descobrir o segundo ser dentro dele...”.
(Ohran Pamuk)


Aquela tarde de verão foi especial porque Júlia e Luísa Du Bois Araújo Silva descobriram o seu segundo ser dentro das expressões e juntas fizeram a letra de uma música e, assim, mediram suas capacidades culturais e literárias. Sem medo de serem felizes, ousaram alcançar seus interesses quando da construção da poesia rimada: Vou Te Dar Meu Coração // Vou te dar meu coração / Vou te dar meu coração, / dentro dele há uma canção. / Posso qualquer coisa falar / para te impressionar. // Um poema pode recitar, / para me impressionar./ Venha vamos cantar e dançar! // Vou te dar meu coração, / dentro dele há uma canção. / Posso qualquer coisa falar / para te impressionar.// O amor irá te fazer cantar comigo. / E a amizade irá nos fazer encontrar um amigo. / E a felicidade te fazer dançar. // Vou te dar meu coração, / dentro dele há uma canção. / Posso qualquer coisa falar / para te impressionar”. Segundo Alberto Martins, “Penso que o ponto de partida fundamental para um bom poema é o ritmo”.
O escritor é tomado por um sentimento, o que faz com que ele, de forma inexplicável, desvele o mistério no jogo de sedução das palavras. A questão é que, na hora da criação e da conquista, ele é o representante do coração. É isso mesmo, ele é sensível e está predisposto a notar tudo o que acontece ao seu redor, porque “enxerga” com o coração. E isso inclui os detalhes, como no livro infanto-juvenil, Coração de Vidro, de José Mauro de Vasconcelos, com histórias passadas na fazenda, onde o autor incita o leitor ao amor à natureza e as suas criações.
O que nem sempre corresponde à expectativa do coração, pode parecer uma incógnita para alguns e explicações para outros, é o enigma. De um lado o coração está ligado ao afeto e, de outro, ao instinto de sobrevivência e, isso aumenta as chances para escritor se inspirar. Maria Dinorah retrata no livro de poesias, Coração de Papel, para o pequeno leitor, “... E o coração da gente / é realejo / que ficou de banda / onde as crianças / brincam de ciranda...”. E o livro Corações de Pedra, de Ganymédes José, também de literatura infanto-juvenil, trata dos conflitos existenciais na vida de todos nós.
Sabe-se que o escritor, no jogo para desenhar palavras, usa a motivação como sinal de entendimento como o do envolvimento afetivo, para expressar o que considera relevante, como demonstra Érico Max Müller, “o que eu proponho é se erga de vós / a mágica do coração...”.
Impressionante como o pensamento pode decifrar o enigma: coração. Essa simples mágica marca o caminho percorrido como trajeto que dá a resposta desejada na busca pela essência das palavras, como em Hugo Mund Junior, no livro Véspera do Coração: ”Pleno, o coração te acolhe. / Festivo, / faz-se lírio o dia. Agrado, atenções, coisas miúdas...”

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sábado, 7 de janeiro de 2017

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EX-TILINGUE



O estilingue sumiu do mapa. Bem como o bodoque, a chiloida, a baladeira, a funda, a atiradeira e demais sinônimos. Justifica-se o desaparecimento. Que chance teria o coitado numa queda de braço com o Xbox, o PS4, os jogos de realidade virtual e sua turma? É claro que não falo das atiradeiras de competição, que parecem uns bólidos, ultramodernas e produzidas com materiais sintéticos. É aquele rustiquinho, da roça mesmo, ou quando muito dos quintais das casas de vila, quase tão extintos quanto o próprio estilingue.

Por definição, o estilingue é uma traquitana contraditória. Para um militar em guerra, uma brincadeira de criança. Para um militante da paz, uma arma mortal travestida de brinquedo. Para mim e para você, talvez pairem controvérsias. Mas certamente concordaremos ao admitir que não existe uso politicamente correto ou ambientalmente justificável para um estilingue. Tanto na intenção com que é usado quanto no material necessário para fazer um.

Começando da estrutura básica: a forquilha. É preciso serrar um galho de goiabeira, jabuticabeira ou outra eira do pomar para se ter uma bem bacana em mãos, com um "V" simétrico e reforçado. Daí você precisa de pedregulhos, também chamados seixos, como munição. E seixos ou pedregulhos demoram centenas, milhares, quem sabe milhões de anos para ganharem da natureza aqueles contornos arredondados. Porque se a pedrinha não for redonda, já era. O tiro não será certeiro. Depois tem aquele courinho que prende o pedregulho para o disparo. Só se for couro legítimo, subproduto de gado abatido. Caso contrário, durabilidade zero. O menos antiecológico dos insumos seria o conjunto das duas tiras de borracha, que esticadas darão o impulso para a pedrinha zarpar. Ainda assim elas vêm da seringueira, cujo látex poderia muito bem ser destinado a fins mais edificantes.

Pronto o estilingue, ele vai servir para quê? De duas uma: arrebentar vidraças ou matar passarinhos. A primeira opção caracteriza vandalismo; a segunda, crueldade animalesca e estúpida interferência na cadeia alimentar. No entanto, sua imagem permanece como algo bucólico, associado à inocência infantil e aos inesquecíveis momentos vividos na fazenda da vovô. Algo que lembra cartilha de alfabetização, calendário de quitanda ou capa de alguma edição antiga de "Caçadas de Pedrinho", do Monteiro Lobato. 

Por isso, se alguém, contradizendo minha tese, disser que viu por aí um menino com um estilingue nas mãos ou no bolso, não caia nessa. Com certeza é uma arapuca. Também em extinção, por sinal. 



© Direitos Reservados
Imagem: folhadofazendeiro.com.br


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

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Pequenas histórias 270

Desliza nas listas

Desliza nas listas das cores passos incrédulos
O sol irisa os átomos insignificantes do olhar
No sabor do alimento reside o gosto da vida
Quem não vive é zumbi em tempo integral

O que existe na liderança dos passos certos?
Nada. Nada que possa interessar a olhos alheios
A mim interessa como me interessa quem me ama
Palavras soltas no ar impregnado de insalubridade

Corro o risco do ridículo expressando meus gestos
Meus atos puros e impuros encobertados pela noite
Falo sem gritar numa voz suavemente alcoólica

Não escondo o corpo entre pilares do acanhamento
Sou o que sou, sou um ser simplesmente querendo
A vida de poeta desvairado que vive só para ter amar


pastorelli

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