terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

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O reverso do momento



        
               Reparo que os detalhes da vida são semelhantes aos gostos e cores. Não podemos buscar apenas a palavra e a cor sem valorizar o que gostamos como a leitura da obra literária, em única cor, que denomina as diferentes posições, com variações suficientes para nos entusiasmar em ideias; inspirando-nos para que tais palavras se multipliquem, dinamizando na arte literária os detalhes da vida.
               A palavra representa o significado do quanto gostamos, ou não, de uma obra literária, que ainda tem o poder de se manifestar na construção de poemas de rara beleza. É o caso de Luiz Otávio Oliani, em relação ao meu livro de crônicas, Comércio de Ilusões/2015, em que ele, em faísca de criação fez o reverso da leitura: COMÉRCIO de ILUSÕES, dedicado a mim, // não ter quem o leia / não frustra o poeta // na contramão do mundo / produz versos / à revelia do sistema / quem o calará? / quem o trará de volta a realidade?”
               O poema nasceu pelo gosto e cores na inspiração de Oliani que, por detrás das crônicas, em interpretação única, fez o reverso do momento na busca, no encontro singular para com a leitura e com ele mesmo; para melhor desfecho trouxe-me a possibilidade de ver a vida em detalhes que me permitem traçar caminhos para escrever novos textos com maior profusão de cores.

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

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CASSINO DA MAROCA



    

          Sou a primeira a aceitar convite para ler obras literárias, principalmente, se for antiga, pois, costuma ser “mais viva” quando contada através das histórias ouvidas no decorrer do tempo; posso ler no correto tom as necessidades, inquietudes, costumes e anseios dos personagens. Suas posições político-sociais versando sobre os dias de ontem são temas inegáveis que rondam o ambiente no abordar questões polêmicas de cada ser em relação íntima com o curso da vida; como encontro no livro-álbum, de 1993, escrito e ilustrado por Ruth Schneider: O Cassino da Maroca.
          Ruth expõe à luz do dia o que se passava à noite, entre portas fechadas, no Cassino. Resgata a época inusitada no espelhar, através da arte, a sociedade passo-fundense dos anos cinquenta. O gosto pela história do Cassino da Maroca a incentivou a contar sobre aquele ambiente, o mais procurado pelos homens para a realização dos seus desejos, no desafio de se realizarem sexualmente; pagando o preço de dizer “sim” à liberdade, libertinagem e liberalidade em relação ao sexo e ao prazer físico. Desvela assuntos que despertam curiosidade, ainda hoje, ao retratar o mistério dos prazeres dos homens enquanto frequentadores do Cassino, onde seus pensamentos e sentimentos se manifestavam – e iam além – no escolher a mulher mais bela e sensual do local; disputavam entre si a meretriz mais sensual e provocativa. Por tudo isso, O Cassino da Maroca era o ponto de encontro onde as “coisas” aconteciam, sob o olhar compenetrado da cafetina. Seus “clientes” consideravam o local alegre, voluptuoso, prazeroso e fonte de desejos.
          Contam as más línguas que, “Um frequentador assíduo do Cassino estava em sua casa, comemorando seu aniversário com a família e amigos quando, após muita festa e bebidas, refestelou-se no sofá da sala e gritou para a mulher que passava: “Vadia, fecha a rosca que quero ir para casa.” O problema foi que ele estava em sua casa e era a sua esposa a mulher que passou na sua frente.
          O Cassino da Maroca era “assunto” que despertava crescente atenção na elite da sociedade passo-fundense, por nele habitar figuras interessantes, como: Maria Bigode (de faca na bota); Maria Preta (figura berrante e mística de cor de jambo); Maria Zeca Navalha (responsável pelo controle das regras da casa e, quando necessário, puxava a navalha e cortava os desobedientes); Alice Miranda (dançarina e cantora); Heloísa dos Cachorros (deitava com os homens sem dispensar a presença dos cachorros). Além das tantas mulheres, havia o Trovador, no bar amoroso: “as mulheres escreviam o seu nome nas paredes e muros e, por cima, selavam o registro com batom.”
        A arte de Ruth Schneider está centrada na sua memória afetiva, na representação da diversão lá existente e nos preconceitos de uma cidade em momento de desigualdades e repressão. Para Armindo Trevisan, em comentário registrado na obra, “ela sabe ser ferina sem deixar de exibir, no âmago de seu festival burlesco, um tom de ternura...”
     Outra passagem interessante encontrado no livro é a da costureira Elvira, que confeccionava os mais lindos vestidos, sem fazer distinção entre as mulheres da “zona” e as da sociedade, ressaltando na obra de Ruth, mais a diferença superior do homem, na época, do que propriamente a “dor moral”; apenas o material e distintivo.
       Ler O Cassino da Maroca é lembrar além do que ouvimos sobre o passado, através de imagens - na farta ilustração da autora – e palavras, como estigmas arraigadas na cultura regional. Convite para descobrir a história da cafetina e suas meretrizes, bem como as reações ardentes que suas atividades despertavam e desencadeavam nos “clientes”.
      Conta a “lenda” que “Maroca viu o casal se esfregando no salão do Cassino, o que era contra as regras casa; então, gritou: parem com essa pouca vergonha! Isto aqui não é o Clube Comercial! É uma casa de respeito!!”

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domingo, 10 de fevereiro de 2019

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Pequenas histórias 316 a 322


O maníaco do bilhete

Em letras garrafais, caixa alta, leu no jornal da manhã:
O maníaco do bilhete volta a atacar.
A notícia, pequena nota quase ao rodapé da primeira folha, dizia que o maníaco tinha atacado uma moça na linha de ônibus Praça do Correio – São Miguel. A moça, loira, busto empinado, vestindo blusa que deixava a mostra sua barriga lustrosa de pequenos pelos loiros, calça jeans desbotada, deu queixa na delegacia de São Miguel. Como fora um ato inesperado, desprovido de qualquer premeditação, na opinião do delegado após ouvir a declaração da vítima, não pode guardar as feições do atacante que, assim que jogou o bilhete em seu colo, rapidamente desceu do ônibus.
Largou o jornal em cima da mesa da sala. Ah! Quer dizer que o maníaco atacou mais uma vez! Excelente...  Lançou no ar da cozinha cheirando café requentado, um pequeno e curto sorriso de satisfação. Sentou a mesa saboreando o café. A culpa não é dele, bem sabia. A culpa era daquele senhor com mania de escritor, de poeta. Tudo começou quando ele mostrou para o senhor o pequeno conto que escrevera.
- Lega, está muito bom.
- Obrigado.
- Agora para ficar excelente acho que você deveria entregar para a musa que te inspirou.
- O que? Entregar para ela?
- É! E porque não? Tem medo?
- Não é medo. Acho que não é direito, ela vai saber que estou interessado nela.
- E não está?
- Estou...
- Então, não tem nada de mais entregar para ela, ou será que você é covarde.
- Não sou covarde, disse num tom ríspido.
E dia após dia, perguntava se ele tinha entregado. Chamava-o de covarde, idiota, bundão e outras coisas mais. Já estava de saco cheio. Quando uma manhã ao vê-la subir no ônibus acompanhada da amiga, não resistiu. Lançou a folha no colo da moça e desceu rapidamente. Ao pisar na calçada, foi tomado por um excitamento do qual gostou. E a partir desse dia, aprimorou a técnica e passou a ser o maníaco do bilhete.
Voltou a ler a pequena nota no jornal:
“Uma senhora dizia que nos tempos dela isso acontecia com certa frequência, era comum receber bilhetes declarando paixão, amor, aventura, mas não desse jeito... onde o maníaco atirava o bilhete sumindo logo em seguida.”
A polícia pede para quem for atacado novamente, guarde o bilhete e apresente a delegacia mais próxima. Só assim pegaremos esse malandro.
Atirou novamente o jornal em cima da mesa. Estirou-se no sofá. Fechou os olhos imaginando o próximo ataque.


Depoimento de Jerome:
A noite estava amena. Mesmo com o verão chegando ao seu clímax, à temperatura estava meio úmida e fresca, nem quente e nem fria. Talvez o movimento hoje seja normal, pensei abotoando a jaqueta. Fechei a porta do vestiário e tomei meu lugar para cumprir o turno. Até parece que isso é uma prisão, o que, de certa maneira não deixa de ser, disse mentalmente. A minha função, além de atender, é claro, verificar as mesas se estão com os saleiros, paliteiros, vinagreiros, os vidros de óleo cheio, se tem guardanapos de papel, se as mesas e o chão estão limpos... Coisas corriqueiras como costumo dizer.
Quando iniciei o turno havia apenas dois casais de namorados sentados, um no meio e o outro no fundo da lanchonete. Portanto, tudo calmo. Engraçado como o paulistano gosta de comer, parece que não tem outro lugar, outro passeio além de restaurantes e lanchonetes. Bom ainda bem, não é? – pensei olhando para o cardápio que coloquei em cada mesa. De repente, sem atinar como, a lanchonete estava repleta. Lá fora começava a formar uma pequena fila de espera. Não sabia se isso era bom ou não, mas comecei a notar que a frequência estava aumentando, não era a mesma desde que comei a trabalhar aqui. Bom para o patrão, ruim para nós que temos o serviço dobrado. – resmunguei para mim mesmo.
Tenho o costume ao atender olhar nos olhos das pessoas. Não tenho memória fotográfica, mas costumo lembrar-me dos acontecimentos, de tudo que tenha passado durante o turno todo. No entanto aquela noite, mais propriamente de madrugada, pois achei que tivesse sido de madrugada, isto porque o movimento maior começou perto da meia-noite. Por mais que me esforce não consigo recordar se tinha alguém, homem ou mulher, sozinho. Acho que todos estavam acompanhados.
Assim, do bilhete lembro sim. Estava registrando um pedido quando senti tocarem meu ombro.
- Por favor.
- Sim.
- Poderia entregar esse bilhete para aquela loira acompanhada daquele rapaz?
- Pois não.
Preocupado em anotar o pedido com medo de errar, não prestei atenção ao rosto do rapaz. Peguei o bilhete e entreguei a moça. Esta, surpresa, olhou o pequeno papel dobrado, perguntou:
- O que é isso?
- Um bilhete para você.
- Para mim?
- Sim
- Quem mandou?
- Foi aquele rapaz... – respondi procurando onde estaria sentado o rapaz. Não achei. Fiquei sem saber o que responder.
- Tudo bem, obrigado.
Foi nesse instante que caiu a ficha: seria o maníaco do bilhete? Voltei aos meus afazeres. Não dei importância e não prestei mais a atenção à loira e seus amigos. Dali a instantes começaram a alterar as vozes, pouco dava para perceber o que diziam, pois servindo as mesas não tinha como prestar a atenção. Por fim, pediram a conta, pagaram e saíram, brigando não mais com palavras alteradas, mas com as vozes brandindo um ao outro a raiva e indignação. O carro saiu do estacionamento cantando pneu.
Depois a madrugada, pois já era mais de duas horas, transcorreu na maior calma.


Paul estava preso. Não sabia como. Precisava escrever sobre o assunto para não ficar angustiado como das outras vezes, se livrar daquela prisão. A única maneira de colocar para fora do íntimo à influência do que sentia. Ou talvez, a forma como vinha sentindo as coisas que lhe acontecia inesperadamente. Tentara de várias maneiras livrar-se da prisão e, a melhor que achou foi escrever, assim se sentiria livre daquele merda de poeta que o jogou nesse mundo de bilhetes frenéticos. Momentos havia que só o escrever não o ajudava em nada, se aboletava no banquinho do bar e enchia a cara projetando seu carma holográfico em várias esquinas usufruído nas sextas-feiras.
Observou os sentimentos variados sem a possibilidade de estar perdido procurando apoio num alicerce cerebral enfraquecido. Viu apenas um objetivo. Teria que escolher a próxima vitima. Pensou ter em mente a pessoa certa, porém concluiu que o melhor seria sair aleatoriamente, escolher um ambiente, lanchonete, restaurante ou mesmo bar, e caçar a vitima no seu próprio habitat.
Tomou banho solitário ao expelir o líquido da vida que, junto com a água cheia de espuma, desceu para o ralo. O tremor dos músculos tenso o dominou. Enojado do que fizera, desligou rapidamente o chuveiro, se enxugou e saiu. No quarto o silêncio da água pingando do corpo o deixou apaziguado.
Rodou o carro sem destino certo. Virou a esquerda, depois à direita, foi em frente, parou num bar tomou um café, e ao passar por uma grande avenida foi que notou a lanchonete. Permaneceu por instantes admirando-a. Bonita, com traços arquitetônicos simples e atraentes. Mas o que mais chamou sua atenção foi à pequena fila que se formava. Deixou o carro no estacionamento e aguardou. Assim que um grupo de pessoas entre moças e rapazes se postou no final da fila, se aproximou e, ficou ali, parecendo que estava com eles. Teve a sorte de o garçom ter colocado-os numa mesa próximas. O plano estava dando certo. Agora era só pesquisar a vítima.
Devagar conduziu os olhar em linha reta, de onde estava até a porta, depois virou para a direita, percorreu toda a extensão, em seguida, numa diagonal cheia de obstáculos, notou a loira acompanhada de uma morena. Talvez, amigas. Achou o que queria. Fez o pedido. Enquanto esperava, foi arquitetando como agiria a partir desse momento. Primeiro teria que forçá-la a olhar para ele, notar sua presença. O que não foi nada difícil. Pois na primeira cruzada de olhares, lançou a isca e, ao que tudo parecia, a presa fora fisgada. O que ele não contava foi com os dois rapazes que apareceram, talvez estivessem na toalete. Droga! Merda tenho que mudar os planos, não. Nada disso, vou seguir com o planejado, rugiu silencioso.
Saboreava o lanche se preparando para o momento certo. O lanche estava muito bom, preciso vir aqui outro dia com mais calma, sentir melhor o sabor, pensou sem se descuidar. Ainda bem que o rapaz estava de costas para ele. Quando seu olhar cruzou com o dela, Paul sentia a eletricidade correr pela espinha como à língua úmida lambendo a pele. Era como se seus lábios vagarosos, depositasse em seus olhos um beijo sedutor. Deslizou uma das mãos para baixo da mesa. Prendeu a respiração, e, soltou logo depois em golfadas pequenas. O momento era esse, sussurrou levantando-se.
Fechou a conta, passou pelo garçom pedindo para entregar o bilhete e saiu. Postou-se num lugar onde poderia ver o que aconteceria. Orgulhoso e excitado, prestou atenção quando o bilhete foi entregue para ela. Denotou seus olhos vasculhando o ambiente para saber quem poderia ser o remetente. O rapaz arrancou o papel da mão da loira, falando, gesticulando todo ciúme. Brigavam, vamos esperar para que termine como foi planejado, pensou Paul. Nisso, xingando um ao outro, saíram da lanchonete.
- Já te disse que não sei quem é?
- Ah! Não sabe quem é! Como é inocente! Nem demonstrou surpresa ao ler o bilhete.
Entraram no carro. O rapaz ligou, acelerou, mudou a marcha e os pneus cantaram em direção à saída do estacionamento. Paul correu para o seu, ligou, acelerou, mudou a marcha e sem que os pneus cantassem seguiu-os. Esse negócio de seguir, ver, presenciar a agitação, fazia a adrenalina subir num regozijo extremo. O carro a sua frente, guinando ora para a esquerda, ora para direita, indicava que os dois ainda discutiam. Sorriu contente, mais uma vez o show se completava, mais uma vez dormiria satisfeito.
Nisso o carro deu uma guinada, bateu com o pneu na guia da calçada, e capotou girando várias vezes. Paul brecou, desceu. Estático presenciou até que o veículo parou com as rodas para cima. O coração agitado, batendo compulsivamente, Paul se aproximou. O que viu o deixou alegremente satisfeito. O rapaz estava com a direção enterrada no peito. A loira gemia num tom seco, pouco audível. Paul foi para o outro lado e viu o rosto bonito todo desfigurado. Seus olhos ainda brilhavam. Abaixou-se até ficar com o rosto dele encostado ao chão. Aproximou-se mais que pode e beijou aqueles lábios machucados. Beijou sugando o prazer do sangue quente satisfazendo-o virilmente.
De repente ouviu o gritar da sirene. Levantou-se rapidamente. Não poderia deixar-se pegar. Foi quando viu nas mãos do rapaz o bilhete. Deu a volta e arrancou o papel da mão do rapaz. Correu para o carro, deu a ré, entrou na transversal ganhando a escuridão da madrugada.


Jerome prestando atenção nos afazeres ouviu no noticiário local a reportagem do acidente. A princípio, tomado pela surpresa, não soube o que fazer. Desorientado foi até o telefone, fez menção de discar, desistiu, voltou para a sala, olhou para a televisão esbravejando notícias... Tinha noção de alguma coisa, não sabia o que era. O que impulsionou a ter essa noção? Talvez certa lembrança da época em que trabalhava as sextas-feiras. E, como toda a sexta-feira, o movimento era mais intenso, dia em que os solitários procuram preencher o vazio na companhia dos amigos ou, na companhia de desconhecidos na esperança de aventura ou sei lá o que. O rapaz do bilhete, como ele chamava, se acomodava no banquinho costumeiro, e até meia noite mais ou menos, bebia seu chope todas as sextas-feiras. Quando completava seis chopes, pagava a conta, escrevia o bilhete, pedia para Jerome entregar para a pessoa que ele escolhera. Jerome atendia ao pedido. Nunca tivera a curiosidade em saber o conteúdo dos bilhetes. Será que era a mesma pessoa? A morena de boca larga dissera que fora encontrado na mão do motorista pedaço de papel, o qual, o delegado imaginava fosse de um bilhete. Uma testemunha ocular informou que vira uma pessoa se aproximar do veículo tombado, e , ao ouvir a sirene da policia, fugira apressada. Deveria ligar para o delegado? Lembrava bem do casal, pois assim que entregara o bilhete começaram a discutir acaloradamente. Era impossível esquecê-los.  Já o cara que pediu para entregar o bilhete, não o reconheceria.
Os rostos, esquisitos, meios deformados na televisão, instigava para que telefonasse ao delegado. No entanto tinha a divida noção que, se o fizesse perderia o sossego. Seria obrigado a dar depoimento, além de sofrer a pressão por não se lembrar da fisionomia do maníaco do bilhete. O que deveria fazer?


Quando Walker entrou na lanchonete, Jerome estava no fundo da loja arrumando as últimas mesas. De onde estava, viu a figura estranha pedindo informação para a moça do caixa. Maria ao ouvir a voz firme se sobressaltou Engoliu o susto junto com o pensamento, e apontou para o fundo da loja. Jerome sem parar de trabalhar, presenciou toda cena.
- Bom dia, Sr. Jerome?
- Bom dia, senhor...
- Walker
- Pois não, o que senhor deseja.
- Podemos conversar num lugar mais sossegado?
- Um momento.
Inclinando o corpo por cima do balcão, gritou um nome:
- Jean, por favor, pode vir até aqui.
- O que deseja, disse Jean com seus um metro e setenta, feições de fuinha, com um bigode que descia pelos lados dos lábios, formando um cavanhaque em baixo do queixo.
- Fique aqui um pouco. Tome conta enquanto converso com esse senhor.
- Está bem, não demore.
- Pode deixar.
Voltando a atenção para Walker disse:
- Vamos andando, Senhor...
- Walker.
- Ah, sim, desculpe, vamos andando então, Senhor Walker.
Entraram numa pequena sala onde se via uma estante ao fundo abarrotada de livro e no centro uma mesa e duas cadeiras e mais nada.
- Por favor, sente, disse Jerome.
- Obrigado, respondeu Walker relanceando os olhos pela sala.
- Creio que o senhor veio por causa do meu telefonema.
- Sim. E gostaria de saber por que telefonou?
- Bem, para ser preciso nem eu mesmo sei por que telefonei.
- Nesse caso não sei do por que estarmos falando, não é?
- Espere, deixe expor para o senhor. Depois me dirá o que acha.
- Então diga, estou ouvindo.
- Antes de trabalhar aqui, trabalhava no bar Corsário...
- Sei onde fica esse bar.
- Não existe mais, fechou.
- Não sabia.
- Trabalhava das seis as três ou quatro horas da madrugada, dependendo do dia, fechando sempre com o último freguês. E toda sexta-feira aparecia um cara quieto, não falava com ninguém. Chegava pedia um chope e ficava bebendo até meia noite. Não passava de seis chopes por noite.
- Sim, e daí?
- Espere. Ele tinha uma mania. Quando chegava perto da meia noite, escrevia um bilhete e pedia para que eu entregasse para determinada pessoa, claro, que toda sexta feira era uma pessoa diferente, nunca a mesma.
- Interessante. Quer dizer que ficava bebendo até meia noite, escrevia o bilhete e pedia para você entregar?
- Isso mesmo.
- E o que ele escrevia nesses bilhetes?
- Não sei, nunca tive curiosidade em ler.
- Não conversava com ele?
- Não, e ele não conversava com ninguém.
- Interessante. E o que esse cara tem haver com o maníaco do bilhete?
- Achei que pudesse ser a mesma pessoa. Pois esses dois que morreram, que a televisão não para de falar estavam aqui naquela noite, e um cara pediu para que eu entregasse um bilhete para a moça.
- Como? E como era esse cara?
- O de agora ou outro?
- Bom, os dois.
- Olha o outro era baixo, magro, quieto, loiro, não dava para ver seu rosto, suas feições, pois como sabe o bar não tinha muita iluminação, era um ambiente para encontros, sei é que me entende.
- Entendo.
- E depois, não dava para ficar parado, conversando, tinha sempre que atender um e outro ao mesmo tempo.
- Sei. E quando foi isso?
- Bem, um ano atrás.
- O senhor acha que pode ser a mesma pessoa?
- Tudo é possível.
- E o cara de agora que pediu para você entregar o bilhete para a moça?
- Olha, não sei, não prestei muita atenção. Não sei por que aquela sexta-feira estava uma noite muito agitada. Se aqueles dois não brigassem passariam despercebidos.
- Entendo. Ele estava sozinho?
- Não, acho que estavam com uma turma de rapazes e moças. Naquela noite não tinha ninguém desacompanhado.
Nisso abriram a porta abruptamente.
- Desculpe, não sabia que você estava aí.
- Já estamos saindo, disse Jerome.
Assim que a porta foi fechada, Jerome disse.
- Bem, senhor Walker espero que tenha ajudado em alguma coisa.
- Ajudar não ajudou muito, mas como você deve saber, pois vejo que tem uma coleção enorme da Rainha do crime, digo: tudo, até mesmo uma informação que nada tem com a investigação é válida.
- Esses livros não são meus, são do meu chefe, isto é, do gerente.
- Qual o nome dele?
- Nilson Davanço.
- Nilson Davanço? Que nome mais esdrúxulo, não acha?
- Não posso dizer nada, veja o meu: Jerome.
- É cada um tem o nome que merece.
- Falou e disse senhor Walker.
- Obrigado pela informação. Se precisar posso falar com você novamente?
- Claro, estarei sempre aqui depois das dezoito horas.
- Falou Jerome. Passar bem.
- Passar bem, senhor Walker.
Assim que o delegado saiu da lanchonete, Jerome chamou:
- Zeca, pode vir, vamos pendurar essa faixa antes que o chefe chegue.
E quando o chefe chegou e abriu a porta do seu pequeno escritório, emocionado leu a faixa pendurada na estante:
“Parabéns, senhor Nilson Davanço, felicidades é o que desejamos. Assinado: seus funcionários dedicados.”


Paul se jogou no sofá. Lançou no espaço um longo suspiro. Esticou o braço, pegou o controle, ligou o som e a música invadiu os meandros escuros.

Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim

A vida. A vida. O que é a vida? Para que serve a vida? O que ela me trouxe ou o que ela me deu? Nada. Nada. Nada tenho da vida a não ser esse longo e tenebroso respirar que queima os sentidos. A vida é um amontoado de sentimentos que serve apenas para retalhar a carne. A vida... Que merda!

Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim

Gostava desse trecho quando Milton com a voz potente, a melhor voz que já ouvira, em sua opinião, soltava a frase: doce ou atroz, manso ou feroz, eu, caçador de mim. Era como fagulhas incandescentes imprimindo na pele impotente e fraca. Na cozinha abriu a geladeira. Estava quase vazia, tinha que comprar muita coisa, principalmente cerveja. Pegou uma e voltou ao sofá.  

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Preso a vida se entregava com paixão aos movimentos dos passos manso ou feroz. Pressentia que nada há para temer, no entanto guardava o sentir na parede do quarto com o maior temor.
Entrou no quarto. Relanceou os olhos pela parede toda forrada de pequenos recortes de jornais, vários bilhetes ordenados por datas. O seu segredo. Segredo guardado por vários anos. Ali estava do primeiro ao último bilhete que escrevera. A princípio timidamente foi só para assustar, reconhecia, depois foi se aperfeiçoando até sentir o requinte do último entranhado na pele. Foi com satisfação que viu os corpos embaixo do carro. Sentiu-se pleno e satisfeito ao beijar aqueles lábios femininos ainda quentes de sangue. Ah! O prazer que sentiu!
Ao lamber carinhosamente cada bilhete e cada pedaço de jornal onde cada ataque era mencionado, quase que detalhadamente, enchia-o de prazer, era outra pessoa, não era mais o cara tímido, fraco, humilde como...
- Paul, Paul, chegou outro bilhete. Deve ser da tua mãe.
Nos seus dez ou doze anos de desgosto, correu todo feliz, achando que o bilhete lhe traria alguma alegria. E qual não foi sua decepção. Sua mãe mais uma vez o deixava para traz, o deixava nas mãos de estranhos. Nunca recebera dela atenção nenhuma, nem uma palavra, nem abraço. Eram bilhetes e mais bilhetes. E todo esse ano guardou os bilhetes, todos eles, sem exceção. Ali estavam eles alinhados na parede do quarto, recebendo a fria umidade da parede. Alguns estavam com manchas de bolor, outros ainda estavam intactos, dava para ler as palavras no garrancho meio que desleixado da mãe. Tinha um especial. Esse ele não desfazeria dele nunca.
Estava brincando na sala quando ouviu barulho de carro sendo estacionado.
- Minha mãe, gritou todo eufórico.
Correu ao encontro da mãe, mas não viu carro nenhum. Voltou triste e solitário aos seus brinquedos. Instantes depois, a empregada lhe entregava um bilhete. Da sua mãe se desculpando mais uma vez por não conseguir ser mãe. Enfiou o bilhete no bolso e continuou com seus únicos amigos: os brinquedos. Fazia já um tempo grande que brincava quando viu a empregada subindo as escadas com uma bandeja de café. Estranhou, como poderia se estava ele e a empregada somente em casa! Com o coração batendo esperou que ela descesse. Foi o que aconteceu. Ela desceu sem a bandeja. Isso fez supor que sua mãe estava lá em cima. E por que não o chamou? Subiu a escada de dois em dois degraus. Chegou à porta do quarto da mãe. Abriu. Seu coração parecia explodir. Seus olhos brilharam fora das orbitas. Suas mãos tremeram.
- Mãe..., gritou.
E não pode acreditar no que via. Havia um homem junto com a mãe deitados na enorme cama. Louco de raiva, pois sua imaginação concluiu: o culpado era aquele homem que lhe roubava a mãe. Correu, pegou a primeira coisa que sua mão conseguiu pegar e desferiu um golpe na cabeça daquele homem que não sabia quem era. O sangue jorrou encharcando tudo. Histérica a mãe gritava como louca, gritando que o filho era louco. Paul correu para a mãe implorando:
- Mãe sou eu. Eu te salvei. Eu te salvei.
Porém a mãe o empurrou, gritando como louca. Depois disso, Paul não se lembrava de nada. Por muito tempo ficou num local todo branco, onde só tinha gente vestido de branco e, todos os dias, era obrigado a tomar de hora em hora um remédio amargo. Quando saiu estava com mais de vinte anos.


Em letras garrafais todos os jornais estampavam a mesma notícia, apenas mudando um pouco o enfoque:

Preso o maníaco do bilhete, leia a notícia na página...

Conforme a declaração do delegado Walker, o maníaco do bilhete foi pego em flagrante. Depois de vários estudos, tanto psicológico como intelectual, sobressaindo o estado paranoico esquizofrênico do criminoso, o delegado montou um esquema bem elaborado e, com a participação de seus comandados, foi possível prender o meliante. Segue abaixo uma declaração do próprio delegado Walker.
- Só conseguimos pegar Paul Walinder depois de um estudo elaborado pela psicóloga Rosangela Norbete, e, com os dados minuciosos desse estudo é que montamos o esquema de prisão. Assim fomos andando com as investigações onde descobrimos fatos esclarecedores surpreendentes. Como todo criminoso tem seus passos preso ao passado, na raiz familiar, Paul Walinder tinha o seu. Descoberto a raiz e o porquê de suas ações foi fácil prendê-lo. Desde o segundo, vamos dizer ataque, fomos seguindo seus passos, claro que meio que sem regras, mas depois do terceiro ataque, é que conseguimos analisar sua conduta e seu modo de agir. Para melhor esclarecimento passo à palavra a psicóloga Rosangela Norbete.
- Como disse bem o delegado Walker, fomos andando com as investigações e, por que não dizer, com algumas experiências. Somando as investigações e as experiências, destacamos vários elementos perigosos e elucidativos até a prisão de Paul Walinder. Descobrimos ser ele filho da grande atriz falecida há cinco anos, Julia Walinder e do grande arquiteto Oscar Walinder. A mídia em geral sempre fomentou a existência desse filho, mas nunca podia comprovar. Investigando aqui e ali, soubemos da existência de um diário de Julia. Com certos movimentos de persuasão conseguimos ter acesso a esse diário. Lendo com o maior cuidado, descobrimos que Paul Walinder nunca soube da existência do pai. Nunca procurou saber se ele existia ou não. Nunca teve contato com a mãe, pois não o reconhecia como filho. Sempre detestou crianças, conforme suas entrevistas. Assim, Paul Walker foi criado pela governanta que volta e meia lhe mandava bilhetes como se fosse da mãe. E, naquele dia fatídico, Paul Walinder pensando que a mãe corria perigo, ao ver os dois na cama, sem saber, com o taco de golfe, matou o próprio pai na tentativa de salvar a mãe, como as testemunhas disseram no julgamento. Tresloucada a mãe que, já não reconhecia o filho, passou a odiá-lo internando o pobre coitado. Logo a morte de Julia Walinder, o sanatório não tinha mais como manter Paul em suas dependências, com um laudo fajuto, deu alta a um doente que nunca deveria ter alta. Dessa maneira, Paul carregando sem saber a fama de parricida, desprezado pela mãe, providenciou para que todos os namorados e, principalmente as namoradas que fossem parecidas com a mãe deviam morrer. Como sempre a vida toda recebeu bilhetes achou que os jovens namorados deveriam receber um bilhete antes de morrer. Completamos todas as suas características assassina ao vermos em sua casa, a parede toda forrada de bilhetes que escrevera e bilhetes que recebera da mãe. O resto vocês conhecem e não preciso mencionar os fatos.
Menos de um mês depois ninguém mais lembrava quem fora o Maníaco do bilhete.

Pastorelli / Jean Alzair

[ler na íntegra]

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A VERDADE DA HISTÓRIA

“ Quanto vale a história no mercado da poesia?”.


Eu sou o passado - leitoso - a derramar-se.
Não a farsa dos intérpretes, estudiosos do agreste,
que dizem ser um enigma o sangue do crepúsculo.
Eu sou uma mão espalmada, cobrindo tudo,
as mínimas expectativas e as pegadas dos sem juízo;
raiz que faz brotar a memória sem pudor.
Eu sou o rompante, o atropelo do que aguarda
e o tropeço do que dispara.
Eu sou rede de arrasto, sou bateia,
sou a peneira a colher os peixes para lança-los no desconforto da irrespirável realidade.
Eu sou a tragédia desperdiçada.
Eu sou o medo que espreita, a seiva do desassossego.
Eu sou a caridade soterrada na imundície dos aterros sanitários,
o cemitério das almas virgens.
Eu sou a testemunha do apocalipse, do flagelo dos excomungados,
do cio das bruxas e suas vassouras a crepitar nas praças.
Eu sou a calma da paisagem deserta, a precisão da gravidade
atraindo os corpos inertes à fuligem do esquecimento.
Eu sou o tormento da palmeira do príncipe no jardim das armas.
Eu sou a dissolução do consenso,
a filigrana que povoa as guerras, a trapaça.
Eu sou o manto da corrupção lançado sobre a verdade,
a dissimulação ao sugerir enganos.
Eu sou a pedra sobre a pedra sobre a pedra
sobre a pedra sobre as presas do Mamute.
Eu sou a paz das naus submersas, a boçalidade das ideologias,
símbolos da miséria e da peste.
Eu sou o elo cravado na carne,
a marca da besta nos braços dos inocentes.
Eu sou o sem paradeiro das andanças e da ambição.
Eu sou a justa trégua em nome da arte.
Eu sou o olhar dos santos.
Eu sou cálculos, aritmética e o alvo.
Eu sou o ressalto antes da queda, a pausa antes do erro, o atropelo.
Eu sou o tempo: duração do perecível papiro nos anais do Universo.
Eu sou cria do homem
e chegarei viva ao amanhecer do último dia.
Poema do futuro livro "XXI" - Jorge Elias Neto
Vitória, 14 de janeiro de 2019
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

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Pequenas histórias 315


Lena sorriu
 

Lena sorriu. Achava engraçada a persistência de Mané. Tinha ele como um cara legal, atraente, se vestia bem, bom de lábia, mas era como bater em ferro frio. Não conseguiria nada com ela.
Por nove anos desfilava na escola de samba. E todo o ano, aos sábados, Mané grudava nela o ensaio todo, não arredava pé nem um minuto. Constrangia-se com a persistência dele. Pressentia os olhares invejosos das mulheres em geral, olhares que se pudesse, fulminaria ela do mundo deles.
Lena sorriu. E quando Lena sorria o mundo tornava-se mais brilhante, as coisas tinha mais sentido, seu peito se inflava de força extraordinária, mas Lena não era do mundo deles. Mané sabia disso, e como sabia. Crioulo, crescido na favela, nunca tivera oportunidade de sair do seu círculo de pobre... Às vezes conseguia algo extra e desfrutava dos prazeres da noite, o que era raro.
Quando Lena começou a comparecer anualmente aos ensaios da escola, Mané esqueceu os limites que a vida impunha. No primeiro instante se apaixonou por Lena. Eliminou barreiras, preconceitos, falatórios e tudo o mais. O que importava era estar perto de Lena. E, todo ano estava lá presenciando o ensaio de Lena.
Lena sorriu, aliás, estava sempre sorrindo. Não havia tempo ruim para ela. Enfrentava os percalços sorrindo. Tinha gente que se incomodava com o sorriso dela, achava que era impossível uma pessoa sorrir constantemente. No entanto Lena era assim, não sabia ser de outra maneira. Não havia contratempo ruim, e, se houvesse, claro que há, é impossível uma pessoa viver sem contratempo ruim, portanto, os momentos negativos, como ela dizia, chutava para escanteio, sorria, arregaçava as mangas e partia a enfrentar novos obstáculos.
Como naquele ano. Lena chegou à escola e foi informada que seu lugar não seria mais na ala das passistas. Fora colocada em outro lugar. Ficou intrigada, apreensiva. Esperou minutos longos, quando em fim, a informaram que ela seria a madrinha da bateria. Como? Por quê? Quis saber. A madrinha oficial estava com o pé quebrado e, como não havia tempo para chamar à substituta, resolveram colocar ela. Aceitou se não aceitasse talvez, seria convidada a sair da escolha e nunca mais poderia desfilar.
Lena sorriu ao ouvir atrás de si a bateria batendo no compasso do seu coração. Postou-se, e começou seus primeiros passos, gingando os quadris ao ritmo da música. Nisso seus olhos pretos defrontou-se com uns olhos escuros que a fitava. Não era possível! Estava bem na frente do Mané que a lambia com os olhos úmidos de prazer. Ele sorriu para ela. Não se importou se postou no seu lugar, e durante o desfile todo, ela brilhou intensamente. Mané com o coração explodindo mais que a bateria, se esmerou levando a escola ao primeiro lugar.


Pastorelli

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

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Creo recordar


Creo recordar
La torre de una iglesia de pueblo
La siesta calurosa
El carruaje que llevaba su muerto
Gente que hablaba en voz baja

Otra, que miraba el cortejo

El chico que fui se distrajo
Mirando el arco veloz
de una fuga de palomas
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

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INTERPRETAÇÕES



        
          Será que as esperanças se cruzam anonimadamente na hora da interpretação? Há sentido na hora do recomeço? Interpretar seria o andamento desacelerado em declarações e restrições contidas nos sentidos? Nas palavras de Umberto Eco, “A leitura de obras literárias nos obriga a um exercício de fidelidade e de respeito na liberdade da interpretação”.
          Na repetição das noites ouço passos e sons, ainda não marcados pela mão da cigana que talvez interprete a vida em sustos diários; ou contem as horas com diferente olhar sobre a cena.
          Na interpretação é permitida a imersão dos fatos e a dispersão das sequências das vidas expostas e colocadas de outras formas e cores, fossem dois pesos e duas medidas: a vida e a interpretação de cada um.
          A interpretação em movimento recupera o olhar perdido, a imaginação e o talento de cada um, como em Pedro Du Bois, “... Revejo as fotos que compõem o livro, / procuro a ideia principal naquele texto enxuto, / retiro o lacre / abro páginas ainda úmidas, / entrevejo, na história, as desditas do mundo...”
          Ao elevar o pensamento interpreto os atos e os fatos com meu olhar crítico, consideradas as situações pessoais e profissionais; assim, interpreto as mudanças, descubro palavras novas, sinto a poesia e conto histórias; torno-me ponte entre o meu viver e as ideias.
          Momento de saber que tipo de interpretação faz diferença neste mundo que ele revela mais competitivo do que humanista.  Ao refinar a escolha de acordo com a razão, descubro o caminho da sobrevivência cotidiana. Penso que o que faz sentido é a reflexão que pode romper com o padrão de comportamento ao se transformar em novo paradigma para a interpretação, de modo que me engrandeça. Segundo Agostinho Both, “Ninguém pode fugir à exigência de buscar o agrado. E quem não busca a vantagem de exibir-se?”
          Palavra certa no momento certo, no mundo competitivo, traz soluções e atitudes que me capacitam a projetar a vida; Mia Couto reflete, “Quem proíbe o mel é a própria abelha”.

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