sábado, 24 de junho de 2017

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PERALTA, POR ONDE ANDAS?




Faltam peraltas na praça. E nas ruas, nas favelas e alphavilles, nas escolas, nos shoppings, academias, quermesses, banheiros públicos, desfiles cívicos, confessionários de igreja e onde mais haja espaço e oportunidade para uma boa e bem arquitetada traquinagem.

O mundo é cinza e tedioso sem um peralta aprontando das suas. Mas tomou chá de sumiço, o danado. O que se vê é, de um lado, uma molecada predominantemente bem-intencionada, e de outro os delinquentes assumidos - tipo os hackers, os praticantes de bullying e os que dão almôndega com veneno pra cachorro. Fora isso, temos os nichos de nerds e outros esquisitos em suas órbitas particulares. Mas o peralta legítimo - aquele gurizinho astucioso, vivaldino, que comete sua maldade de salão de um jeito estudado e atrevido, esse não tem nem pra remédio.

Não é de hoje que o mundo anda escasso de levados. De levados e de levados da breca, seja lá qual for a diferença entre uns e outros. Aquele menino que pegava no telefone e passava trote perguntando se tinha um fusca gelo parado na frente da casa. Brincadeira de fim melancólico. O fusca, pobrezinho, saiu há décadas de linha, e o trote ficou na saudade depois do identificador de chamadas. Aliás, trote (além do literal sentido do andar dos equinos) está denotando unicamente o rito de iniciação nas Universidades - que, por sinal, também e felizmente anda caindo em desuso. Até mesmo o traquinas passador do trote já deve estar na terceira idade, se conseguiu sobreviver até agora. Não, peralta, esse mundo não é mais para você. Foi-se o seu tempo, garoto de kichute.

"Nossa, como esse menino é arteiro!". Isso é frase de tia Dirce, Matilde, Odete, Leonor. Tente lembrar da última vez em que você escutou isso, se é que já escutou. Sem chance, caso tenha nascido depois de 1980 e não é baby boomer ou geração X.

O peralta ficava de castigo, levava cintada e safanão, tinha mesada suspensa. Tomava bronca, pito, sermão e lambança. E estava sujeito a pescoções quando pego de surpresa escrevendo "lave-me" com o dedo em vidro de carro sujo. 

Um autêntico travesso com T maiúsculo prendia o botão da campainha com durex e saía correndo. Colava moeda com araldite no asfalto e ficava na moita rachando o bico, vendo os tontos unhando o chão. Pregava aviso de "sou bobo" nas costas do uniforme dos colegas. Prendia carta de baralho na roda traseira da bicicleta para imitar barulho de moto. Esse é o pá virada genuíno, tão em falta. 

Talvez os últimos exemplares da espécie tenham ido dessa pra melhor em 1999. Era uma rede de supermercados que, sabe-se lá o motivo, tinha o nome de Peralta. E que acabou sendo engolida pelo grupo Pão de Açúcar. 



© Direitos Reservados

Imagem: strangecosmos.com

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sábado, 17 de junho de 2017

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ALBERTO E AYRTON




- Santos Dumont! O senhor é o Santos Dumont, né?
- Em carne e osso. Quer dizer, sem carne e sem osso. Você quem é?
- Senna. O Ayrton, sabe?
- Sena? O rio da minha lindíssima Paris?
- Não, não. O rei de Mônaco. Béco, para os íntimos. O piloto, tricampeão da Fórmula 1. O namorado da Adriane Galisteu...
- Agora, puxando pela memória, acho que já ouvi falar de você, sim. Faz pouco tempo que desencarnou, não é?
- Vinte e três anos... o senhor chama isso pouco tempo?
- Ah, foi outro dia mesmo. Pra quem já está aqui desde 1932, você nem gelou a carcaça, meu rapaz. Lembro da minha hora como se fosse hoje. Estava no Guarujá, chateado com o que andavam fazendo com a minha invenção, e  resolvi que não queria mais ficar lá embaixo. Aliás, sempre me senti mais à vontade aqui em cima.


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- Pois é. Se naquele dia fatídico já existisse um cockpit feito com material de caixa preta, talvez eu estivesse salvo. Difícil me acostumar com a ideia, vim pra cá cedo demais.
- Deixa de se lamentar, isso só piora as coisas. Mas me diz, como é que me reconheceu por essas bandas?
- O chapéu, o terno, o bigode... como não poderia deixar de ser, é claro que o senhor é nome de aeroporto no Brasil. Um dos maiores que temos por lá. 
- E você deve ser nome de rodovia.
- Sim. Mas o senhor é mais herói que eu, e é nome de estrada também. Duas, por sinal. Além de escolas, ruas, praças. Tem até uma cidade chamada Santos Dumont. 
- É, onde eu nasci. Chamava-se Palmyra, depois rebatizaram pra me homenagear. Fiquei sabendo por alguns irmãos espirituais. 
- Então. Cidade com o meu nome, por enquanto, não tem nenhuma. 
- Meu caro Ayrton, não é só você que guarda mágoa desse país ingrato. Outro dia mesmo estavam jogando truco por aqui o Duque de Caxias, o Dom Pedro I e o Tiradentes, amaldiçoando as últimas gatunagens de Brasília. Diziam que se soubessem que ia dar no que deu, não teriam movido uma palha.



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- Sabe de uma coisa, meu jovem? Me dá nos nervos ficar a eternidade toda vendo esses anjos, com essas caras gordas e barrocas, batendo asinha pra lá e pra cá, sem rota de voo definida. A coisa aqui ainda está nesse tempo, de asinha nas costas. Até mesmo o avião, se você for ver, já é algo bem ultrapassado. Inventei essa traquitana em 1906. Tudo bem que o 14-bis era feito de seda e bambu e que a tecnologia aeronáutica evoluiu muito daí pra frente, mas é arcaico demais como meio de locomoção. Não sei se sabia, mas eu, o Einstein e o Steve Jobs estamos concluindo um protótipo de transporte na velocidade da luz.


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- A Asa Norte e a Asa Sul. Tudo pelos ares, num ataque-surpresa. Que me diz, Ayrton?
- A sua raiva de asa é grande mesmo, Seu Alberto. 
- Temos que destruir tudo, pra não correr o risco de sobrar algum corrupto vivo. Sabemos que nessa operação-limpeza vamos matar um monte de pessoas inocentes, mas os bons viriam para o céu de qualquer jeito. E vão dar graças ao Pai por se livrarem daquele inferno.
- Isso, com certeza.
- Pra dar tudo certo, vamos precisar de um piloto experiente e habilidoso. É aí que você pode ajudar. Afinal, velocidade é o seu negócio. Ainda que a velocidade, no caso, seja a da luz. 
- Nossa, deve ser demais essa sensação. E eu achando, lá embaixo, que 350 por hora era o máximo da adrenalina.
- E então, podemos contar contigo?
- Deixa eu amadurecer a ideia, a gente vai se falando. Me dá seu chapéu de lembrança do nosso encontro?
- Só se você me der seu capacete. 




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terça-feira, 13 de junho de 2017

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CONVITE à REFLEXÃO



Gosto de ler poesia e, a de Márcio Almeida, “As Presenças Impuras”, é convite à reflexão. O poeta pergunta no poema, “Por que fica uma palavra / perdida, sem função, a mais, / a apodrecer a lavra / do poema com um mas?...” Ele escreve sobre os “excessos” de palavras nos poemas; com sabedoria, poetiza um assunto difícil e complicado: a representação da arte através da palavra. O argumento de Márcio, ao ser exposto através da poesia, facilita a compreensão do leitor. Também, Jorge Tufic disse que “quanto menos adorno, mais poesia”.
Observo que sua escrita reflete a preocupação em relação aos “enfeites” nos poemas. É como se, ao me olhar no espelho, não me visse como sou; face a face com o espelho, a imagem pode ficar aumentada e deformada. Tal como no engano ótico, acontece na construção da poesia, na expressão de apenas a visão pessoal, que não faz arte e, ao contrário, salienta os “enfeites” como excessos; velhos hábitos de escrita desmerecer a poesia. A criatividade do escritor, muitas vezes, esbarra nas convenções da escrita ou de meios não utilizados para fazer literatura. Márcio Almeida convida à reflexão quando expressa, “... Que pensar permite o ruim / na surpresa da emoção? / Por que, se rígido, o sim / condena à exceção? // É desse consentir o erro / que a poesia faz sua função: / ser o sujeito da falta, / semente do nada, paixão?...”
A poesia bem escrita se torna bem-sucedida obra de arte, porque gerada a partir dos ideais do autor. O poeta não só escreve o que vê, mas o que lhe é permitido ver. O poder estrutural possibilita a percepção, que o leva às inovações. Palavras se tornam modelos de renovação, como em Márcio Almeida, “... Mas o que fundar num tempo / alvo de pleno desígnio, / o universo a vão do vento, / a filosofia do signo?...” Contudo, a motivação provém do tema que se apresenta na realidade literária e cultural do autor. A diferença está nas transformações que a palavra sofre, quando mudanças são provocadas para serem convincentes, do ponto de vista da arte. Como demonstra Almeida, “... A contradição, a profecia / belomaldita da vida, / paródia, secular via / já do que antes era dúvida?...”
Ao desenhar palavras é preciso se conter diante dos “excessos” para que a perspectiva em poetizar com imagens seja a representação da criatividade do autor e demonstração da literatura em relação à visão que ele tem da vida; não como desfile do que é ou quer, mas um convite para que o leitor reflita, como retrata Márcio Almeida, “... Se não existisse, a poesia / faria alguma diferença, / ao fundar signos de pia / com seus ócios e ciência? ... //... A poesia serviu ou servil / à semelhança do criado / serviço de linguagem – fio / fundo a destino do dado?”


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quinta-feira, 8 de junho de 2017

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PLURAL de LEITURAS




As histórias começam parecidas... Apesar do enredo, ideia e construção serem semelhantes, cada escritor tem o seu modo, estilo e tempo de escrever – o que chamo de plural de leituras, onde a arte de escrever se reflete na inspiração como expressão. Escrever é ato imprevisível que exige entrega e desprendimento, em que cada escritor leva o leitor a repetir o slogan de “quem lê viaja” e de “quem não lê não vê”. Isto é, aproveitamos o nosso interesse para ler uma obra de qualquer época e estilo de linguagem e, assim, construímos novos conceitos para ir além das diferenças culturais. Para Pedro Du Bois, “cinco minutos / tudo o que peço // só cinco minutos / separando minha necessidade / da vida normal que passa / entre todas as horas...”
Muitas vezes, em nossas vidas, o calendário corre na velocidade que não alcançamos. Então, questionamos os dias e as noites, onde os números representam o nosso tempo. Recontamos os anos que se repetem: a infância, juventude, meia idade e a melhor idade. Ousamos pensar ter alcançado a verdade ao nos permitir refletir sobre a vida literária em relação aos números, como no livro 150 Momentos mais importantes de Passo Fundo, obra que retrata o plural de leituras da Academia Passo-Fundense de Letras e os fatos marcantes da cidade.
Recontamos as experiências e nos permitimos abordar as suas múltiplas riquezas; assim, conseguimos, no plural de leituras, impor nossas próprias ideias. Nada é definitivo: fugas, comoções e novos horizontes. A certeza de seguir se faz através dos números, como W. J. Solha demonstra em seu livro “Sobre 50 Livros (Brasileiros e Contemporâneos) Que Eu Gostaria de Ter Assinado”.
Encontro o livro de Machado de Assis, Um Apólogo, onde ele conta a importância da função de cada um através de linhas e agulha, levando-nos a perceber quantas vezes servimos de agulha na vida...
As escritas são diversificadas em suas construções e nos impressionam pelas fantasias e ilusões, porque trazem à luz a hora mágica em que se misturam com a realidade. O ocaso do acaso não irradia a solução dos tempos, porque não há hora para a inspiração, começo e término de cada obra.
Há atos e fatos que resumem a vida. Quantos? Quantas vezes, com dúvida ou sem dúvida, compartilhamos ideias com alguém para suprir nossas vidas agitadas? Agendamos nossas vidas em compromissos e preços. Proclamamos virtudes aos quatro ventos, como fazem os escritores Rubem Braga, com 200 Crônicas Escolhidas; Apparício da Silva Rillo, com Doze Mil Rapaduras e outros Poemas; Dalton Trevisan, com 111 AIS (minicontos); Sérgio Capparelli, com 111 poemas para Crianças e Nilma G. Lacerda, com Dois Pássaros E o Voo Arcanjo.
Lembramos-nos dos números como plural de leituras, na marcação dos passos nas histórias. Os momentos de criação nos mantém vivos e podem estar perto ou longe da plenitude, mas, o mais importante é que contamos as estrelas e os dias de trabalho; acertamos o relógio e numeramos os milagres; relembramos o primeiro beijo, filho, livro, neto. A primeira carta, fotografia, música, pergunta e descoberta. Lorenzo G. Ferrarri demonstra, “Nosso amor tem um dia especial, / Ele anda lentamente, / E ao mesmo tempo segue rápido, / Nosso amor tem vinte e cinco horas...”
Assim, desfrutamos o encantamento do tempero da vida nos estilos de linguagem, formando o plural de leituras. Nas palavras de Pedro Du Bois, “Faço contas números / de agradecimentos e louvor / ao horror de contar até dez / sabendo que a vida termina noves fora //... confusos pares e ímpares / primos entre si / na improbabilidade de serem corretos...”.


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terça-feira, 6 de junho de 2017

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Para Bruno Borges


           
O nascimento de um bebê é a morte da vida intra-uterina. A morte da barriga e daí, muita vez, a depressão pós-parto. E o que dizer da morte de um ente querido, ou da dor de uma mãe que se perde de seu filho? Não será esta ainda maior? Porque, enquanto humanos, não sabemos se existe vida após a morte. Mesmo a melhor das filosofias nos leva tão somente a ideia de que talvez não exista Deus. Mas, para nós, humanos, acumulam-se provas em contrário desde as relações entre as grandezas físicas cuja precisão, tão improvável, deveriam nos conduzir a evidente existência de um propósito. Acontece que o Sol ofusca nossas vistas, e a moderna ciência do século XXI se fragmentou a tal ponto que sua trajetória há muito descarrilou da direção do conhecimento. E nesse mundo louco – verdadeira Torre de Babel – não enxergamos além, senão aos nossos próprios umbigos. Toda a Atlântida sendo inundada pelo derretimento das calotas polares. Não é de se estranhar tantas leis absurdas que mais parecem subverter o senso comum. Será que precisaríamos mesmo destas leis se a filosofia fosse ensinada nas escolas? Quanto aos ETs, eles devem achar que não passamos de uma civilização muito primitiva. E se o ser humano fosse mesmo inteligente, deixaria outras culturas de mesma espécie desenvolver por si mesmas. Certamente não fariam os ETs o que fizemos aos nossos índios. Talvez eles nos estudem à distância. Nessa hipótese, devem estar pasmados, com tanto derramamento de sangue, com tantas civilizações destruídas por desvios dos fins por interesses espúrios, e ainda assim aclamados pelas massas inflamadas pela história escrita dos vencedores. Senão é assim, explica-me, filósofo, porque a moeda é um fim, e não um meio, para a paz?
          

           
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sábado, 3 de junho de 2017

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OLIVEIRA BLUES, DE AKIRA YAMASAKI

A poesia de Akira é múltipla, se recusa a ficar presa em seu corpo, depois de extraída do seu ser, busca o outro, seja juntando-se a música dos Cabras de Baquirivu, banda responsável por musicar os poemas contidos em Oliveira blues, contando com a participação de outros amigos do universo da música para a gravação do cd ao vivo, quanto o teatro, por meio da encenação de Clóvis e Dedo mole, poemas híbridos de narrativa e verso interpretado pelo coletivo Casa Amarela Encena.


Num possível diálogo com a famosa quadra de Sá-Carneiro (Perdi-me dentro de mim/ Porque era labirinto...), dentro de si pode não haver conforto, no poema Oliveira Blues 3, o fundador da estirpe dos baitas, perambulando na geografia íntima escreve: não sou mais o mesmo/ agora moro mais longe/ na periferia de mim.
Ao longo do livro, como nos chama a atenção o escritor João Caetano na apresentação, há a presença da figura pássaro e seu voo, desde o primeiro verso encontrado: voar aberto, contudo, outro espaço percorrido com as sensações transformadas em palavras, é o da infância: - quem assobia, akira/ não come semente, alquimia que transforma a dura lição paterna em verso.  
 No caminhar cronológico interno da obra, encontramos em 1960, uma lição biográfica na feitura do poema, tendo o plantio da melancia e sua colheita, como metáfora: todos os dias eu perguntava a ele (pai) se a minha melancia já estava no ponto e todos os dias ele respondia que ainda não, que estava verde ainda, que tenha paciência, akira, mas um dia não aguentei mais a curiosidade e a gula e com um canivete afiado talhei a bitela de cima a baixo...
Na poesia de Akira, o corpo é folha e as datas, fatos e sensações gravam na pele, como marca divisória de uma fratura no braço, que aponta a mudança no humor do menino que perdeu a capacidade de sorrir. Num salto dentro do tempo, o menino torna-se pai zeloso: filha, eu não quero/ que você caia e se machuque. Para o filho há: em alguma manhã/ dentro do seu sonho/ você corria sem dor/ e o seu sorriso dormia/ nos meus braços.
Parece que em alguns momentos, a poesia do homem que mescla um sorriso fácil com olhar de menino, desconhece a palavra como signo que possibilita a comunicação direta entre a sensibilidade do criador com o sentir do leitor: - era eu chorando alto/ em algum lugar bem fundo/ do silêncio de mim.
O poeta está dentro do cotidiano, os cenários de suas criações não são frutos do imaginário ou de uma observação distante, como o joalheiro esculpindo pedra preciosa, este senhor de ascendência japonesa, esculpe poesia do simples que há em nossos dias, flanando por cenários como botecos, padarias, ambientes de comunhão na periferia, locais onde se conversa sobre temas como o jogo de baralho, a partida de futebol, assuntos ressignificados, cumprindo um dos ideais de Manuel Bandeira: restabelecer a beleza do cotidiano.
Há artistas que têm sua obra ligada ao território onde residem, críticos dizem que os cineastas Ingmar Bergman e Win Wenders, quando produziram filmes em países estrangeiros, não conseguiram atingir os níveis de expressividade das obras criadas em seus países de origem, Akira é o homem que conecta a sua interioridade com o bairro onde vive, visceral, simples e direto como um acorde do velho ritmo norte americano.  

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DINHEIRO EM ESPÉCIE



Espécie em extinção (Montantis sumidus)
Por incrível que possa parecer, a espécie em extinção é a mais facilmente encontrada na natureza. Em suas inúmeras variantes, tudo leva a crer que seja originária do Brasil - já que aqui encontra as condições ideais para se reproduzir. Sua ocorrência, entretanto, é comum nos cinco continentes, em ecossistemas capitalistas, socialistas, democráticos, anárquicos ou ditatoriais.

Espécie ululante (octópode da família Moluscus corruptum)
Tem seu habitat natural em sítios de Atibaia, onde alterna sua presença entre os lagos de pedalinhos, antenas de celular da Oi e adegas bem fornidas. Como todos os anfíbios de sua ordem, mostra-se perfeitamente à vontade quando está com as mãos molhadas mas também adapta-se com facilidade a solos arenosos da indústria da seca, desde que não lhe falte o necessário suprimento alcoólico. 

Espécie aécica (Nevis imundícius)
Defende-se dos inimigos naturais atacando vorazmente as reservas públicas, embora afirme que jamais tenha feito fortuna na política. Suas características camaleônicas, que pemitem que se camufle para confundir seus predadores, fazem dele um autêntico exemplar do gênero tucanus peéssedebensis, praga que assola o planalto central.  

Espécie anta (Dilmatis butijaniensis)
Tipo de jiboia que hiberna anos enquanto digere lentamente o erário. Animal de estranhos hábitos, tem a peculiar característica de assinar sem ler. Ainda que tenha desenvolvido uma forma rudimentar de fala ao longo de milênios, quando abre a boca de incisivos avantajados só balbucia frases sem nexo.

Espécie morcego (Foratêmeris dráculum)
Dá o bote (ou o golpe, como insistem alguns) sempre à noite e entre os jaburus. É conhecido o seu caráter misógino, por não admitir em seu bando nenhuma fêmea. A criação de mesóclises de grande efeito retórico, para posterior revoada na mídia, é o passatempo predileto desse sorrateiro e anacrônico exemplar do gênero Vices nocomandus.

Espécie mula (Asnus laranjínicus)
Leva e traz no lombo calejado malas e mais malas de dinheiro vivo. Sua reduzida massa encefálica talvez explique o fato de jamais conhecer o teor daquilo que transporta. Faz parte do baixo e médio escalão da cadeia alimentar e acabou por se adaptar à reprodução em cativeiro, uma vez que sempre acaba cumprindo pena no lugar daqueles que encomendaram seus serviços de delivery. 




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Imagem: dailymail.co.uk



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