segunda-feira, 24 de julho de 2017

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AUTÓGRAFOS


“... Preto / no branco / pretexto / as linhas meditam / Me ditam e assinam..” (Max Martins)

Estava lembrando como os escritores e leitores, na sessão de autógrafos, se reconhecem; há lealdade, liberdade e apoio entre eles. É um processo específico, porque ambos procuram e acreditam na cultura, na criatividade e na emoção ao pegarem o livro nas mãos. Como demonstra Pedro Du Bois, no conto Autógrafo, “Livros usados. Sebo. Carinhosa forma como entendemos ficarem os livros após o primeiro manuseio. Sebos. Lustrosos da gordura e do suor desprendidos das nossas mãos e dedos. O hábito de molhar o dedo na língua para virarmos as folhas. Hábitos salutares de leitura...”.
O autógrafo é maneira privilegiada de estabelecer conexão com o autor / obra / leitor. Com isso, o desejo voluntário de se adaptar a novas escritas, ideias e tempos. É através das novidades que se adotam novas atitudes onde há liberdade e possibilidades de existência, na representação do nosso conhecimento e sabedoria.
Acredito que nos encaminhamos para sermos “pessoas universais”, pois, ingressamos nas áreas tradicionais e históricas como conceito, ao percebemos o poder do enriquecimento cultural.
Pedro Correa do Lago é colecionador de autógrafos desde os 13 anos. Também é rato de sebo e leilões, também, autor do livro Documentos Autógrafos Brasileiros na Coleção Pedro Correa Lago. A obra apresenta pequena amostra da sua coleção, sendo tida como a maior do gênero no Brasil. Ele gosta de ter o autógrafo, como se nele estivesse um pedaço do autor; senti-lo ao passar a mão e pousar os olhos onde estão as palavras de alguém importante, ou de quem já morreu; valorizando o papel autografado, sente que invade outra vida e outro tempo.
Colecionadores são chamados de caçadores de autógrafos, pois perseguem o critério de raridade na obra colecionada. Quanto mais rara, mais valiosa. Outra característica do colecionador é que, para ele, o documento autografado é um manuscrito. Não precisa necessariamente ter assinatura, também podem ser correções e hesitações dos autores, como: riscos, flechas alterando o parágrafo; palavras escritas para modificar o texto; o mais importante é a obra como documento. A importância do colecionador é que ele está sempre atento para que não caia no esquecimento e no lixo o papel “velho”.
O autógrafo é forma de arte, que está na folha de rosto do livro, como principal nota do autor; é história fascinante e magicamente sedutora. Simbolicamente, leva o leitor a vivenciar o possível na vida do escritor e na sua obra; há troca temporária de identidade, onde o leitor pode construir um mundo imaginário, como grande desafio de sua vida. Segundo Max Martins, “O livro nos lê... torna a palavra visível...Só o leitor é real...O poeta dá à obra o seu nome. O leitor, a sua imagem.”
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sábado, 22 de julho de 2017

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ALONELAND




É pouco provável que consigamos deter o processo de desertificação de Aloneland. Não a geográfica, mas a desertificação humana mesmo. 

Devagarinho vamos tendo a nítida confirmação de que há, em nosso povo, uma espécie de predestinação ao não-acasalamento. O que não significa um comportamento assexuado, mas um conformismo em lidar com a libido sem a necessidade de outrem.

A estonteante oferta de pornografia na internet, para grande parte das pessoas, é um convite irrecusável à autossuficiência. Com tantas e cada vez mais realistas variações de bem-bom virtual, para quê complicações de relacionamento, DRs até tarde da noite, novas responsabilidades e contas a pagar, papel passado em cartório, sogras, cunhados e congêneres?

É nessa conveniência que está o maior perigo. Um casal precisa ter dois filhos para que a população permaneça basicamente a mesma. Isso é aritmético e incontestável. Se entretanto, esse suposto casal gere apenas uma criança, bastará uma única geração para que o número de habitantes do país caia pela metade. Caso o casal em questão opte por não deixar descendentes, onde haviam duas pessoas por domicílio passará a haver nenhuma, a partir do óbito dos cônjuges. 

A prosseguir, no ritmo em que se observa hoje, a opção pelo celibato e a indiferença à conjunção carnal, estima-se que em no máximo 60 anos não restará um único alonelandino sobre o nosso território. 

Ciente da ameaça, o governo já implementa ações preventivas para evitar o pior. 

Primeira medida: toda as formas de acesso à internet em Aloneland serão interrompidas às 19 horas, nos sete dias da semana. 

Segunda: a iluminação pública será cortada e o policiamento afastado em lugares ermos e propícios à intimidade.

Os clubes e demais locais licenciados para a prática de nudismo receberão incentivos fiscais dos municípios, além de autorização especial para que possam funcionar 24 horas durante todo o ano - inclusive no inverno, recebendo empréstimos estatais subsidiados para a compra de aquecedores. 

Outros expedientes emergenciais já estão em curso, sem o conhecimento da população e com o aval dos mais altos escalões governamentais. São procedimentos eticamente reprováveis, mas de alta eficácia para combater a míngua obstétrica que vivenciamos. Dentre eles, o que vem apresentando resultados mais significativos é a sabotagem nas fábricas de preservativos, com a incisão proposital de microfuros nos produtos. Já as pílulas anticoncepcionais de farinha e açúcar, fabricadas até recentemente com o conluio e o apoio logístico da nossa indústria farmacêutica, teve sua produção descontinuada devido ao vazamento da prática para a imprensa local e internacional. 

Uma alternativa em estudo consiste na abertura de fronteiras para imigrantes de países com o problema oposto ao nosso, ou seja, de alta densidade demográfica e crescimento populacional em progressão geométrica. A ideia é que esse contigente, trazendo consigo um histórico de maior assiduidade sexual, procrie com os nativos e colabore para minorar o déficit de nascimentos. 




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quinta-feira, 20 de julho de 2017

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Quatro trechos de ‘Admirável Mundo Novo’, de Aldous Huxley. A novela, publicada originalmente em 1932, denuncia os aspectos desumanizadores do “progresso” científico e material. (E ainda não aprendemos, não é?)
   
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‘Uma nova teoria biológica’ era o título do trabalho que Mustafá Mond acabava de ler. Ficou sentado por algum tempo, as sobrancelhas franzidas meditativamente; depois tomou a pena e escreveu sobre a página de rosto: “A maneira pela qual o autor trata matematicamente a concepção de finalidade é nova e extremamente engenhosa, mas herética e, no que diz respeito à ordem social presente, perigosa e potencialmente subversiva. ‘Não publicar’.” Sublinhou essas palavras. “O autor será mantido sob vigilância especial. Sua transferência para o Posto de Vigilância Marinha de Santa Helena poderá tornar-se necessária.” Uma lástima, pensou, enquanto assinava. Era um trabalho magistral. Mas se se começasse a admitir explicações de ordem finalística... bem, não se sabia qual poderia ser o resultado. Era o tipo de ideia que poderia facilmente descondicionar os espíritos menos estáveis das castas superiores – que poderia fazê-lo perder a fé na felicidade como Soberano Bem e levá-los a crer, ao invés disso, que o objetivo estava em alguma parte além e fora da esfera humana presente; que a finalidade da vida não era a manutenção do bem estar, e sim uma certa intensificação, um certo refinamento da consciência, uma ampliação do saber... O que, refletiu o Administrador, bem podia ser verdade. Mas inadmissível nas circunstâncias presentes. Retornou a pena e, sob as palavras ‘Não publicar’, riscou um segundo traço, mais espesso, mais grosso que o primeiro; depois suspirou. “Como seria divertido”, pensou, “se não tivesse de pensar na felicidade!”
   
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Uma das principais funções de um amigo é suportar (sob forma atenuada e simbólica) os castigos que nós gostaríamos, mas não temos possibilidade, de infligir aos nossos inimigos.
   
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– Por que não lhes faz ver ‘Otelo’?
– Já lhe disse: é antigo. Além disso, não o compreenderiam.
Sim, era verdade. Ele lembrou-se como Helmoltz rira de ‘Romeu e Julieta’.
– Pois, então – disse, após um silêncio –, algo novo que seja como ‘Otelo’ e que eles possam compreender.
– É o que todos nós temos desejado escrever – declarou Helmholtz, rompendo seu prolongado silêncio.
– E o que o senhor nunca há de escrever – respondeu o Administrador. – Porque, se se parecesse realmente com ‘Otelo’, ninguém poderia compreendê-lo, por mais novo que fosse. E, se fosse novo, não poderia de maneira alguma ser parecido com ‘Otelo’.
– Por que não?
– Sim, por que não? – repetiu Helmholtz. Ele também esquecera as realidades desagradáveis da situação. Verde de ansiedade e temor. Bernard era o único que se lembrava; os outros não lhe deram atenção. – Por que não?
– Porque o nosso mundo não é o mesmo mundo de ‘Otelo’. Não se pode fazer um calhambeque sem aço, e não se pode fazer uma tragédia sem instabilidade social. O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E, se por acaso, alguma coisa andar mal, tem o ‘soma’. Que o senhor atira pela janela em nome da liberdade, Sr. Selvagem. Da liberdade! – Riu. – Espera que os Deltas saibam o que é a liberdade! E agora quer que eles compreendam ‘Otelo’! Meu caro jovem!
O Selvagem calou-se um momento.
– Apesar de tudo – insistiu obstinadamente –, ‘Otelo’ é bom. ‘Otelo’ é melhor do que estes filmes sensíveis.
– Sem dúvida – aquiesceu o Administrador – mas esse é o preço que temos de pagar pela estabilidade. É preciso escolher entre a felicidade e aquilo que antigamente se chamava a grande arte. Nós sacrificamos a grande arte. Temos, em seu lugar, os filmes sensíveis e o órgão de perfumes.
– Mas eles não significam nada.
– Significam o que são; representam para os expectadores uma porção de sensações agradáveis.
– É que eles são... são narrados por um idiota.
O Administrador pôs-se a rir.
– O senhor não está sendo muito cortês com seu amigo, o Sr. Watson. Um dos nossos mais notáveis engenheiros em Emoção...
   
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– Mas como são úteis! Estou vendo que o senhor não gosta dos nossos Grupos Bokanovsky; mas, asseguro-lhe, eles são o alicerce sobre o qual está edificado tudo o mais. São o giroscópio que estabiliza o avião-foguete do Estado na sua rota imutável. – A voz profunda vibrava, emocionante; a mão, gesticulando, representava todo o espaço e o impulso da máquina irresistível. A oratória de Mustafá Mond achava-se quase à altura dos modelos sintéticos.
   
   
   
    

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quarta-feira, 19 de julho de 2017

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PALAVRAS em MOVIMENTO


Carlos Pessoa Rosa pergunta, “para quem o autor escreve? -... aquela imediasidade entre o poema e o leitor é um prazer dos poucos”.
Acredito no movimento das palavras para mudar o mundo e as pessoas. Segundo Adélia Prado, “a literatura é uma expressão pura: ela não serve para nada, no sentido de que não posso nem devo usá-la como instrumento para ideologias políticas, filosóficas ou religiosas. Um bom texto é como uma rosa no pé, um gato, uma cachoeira, um corpo; é expressão pura. Pode decorrer de sua contemplação, uma descoberta... Afinal, a arte é um espelho. Podemos levar um susto com o que vemos”.
Tudo é uma questão de dosagem. É com a literatura que adquiro cultura, que aprendo sobre minhas capacidades e dificuldades. Mas, não posso deixar a mercê do que todos esperam de mim. Preocupo-me em corresponder à expectativa, como leitora, de maneira saudável e prazerosa de viver. É de grande valia imaginar, enquanto leio. Orgulho-me dos talentos escolhidos, por acreditar piamente no movimento das palavras e sentir o gosto pela vida e, muitas vezes, a saudade como conforto. Pedro Du Bois, com olhar diferenciado, no livro O Movimento das Palavras, revela que “A diferença reside / Entre os que praticam / Jogos // E os guerreiros // Não há guerra / Há disputa // Vence o melhor / Não o mais feroz”.
Palavras em movimento criam novos horizontes; facilitam qualquer trabalho e mais, cristalizam-me a nunca deixar de ler, porque transparecem meus limites e a minha satisfação. É uma performance inquestionável que combina com a minha vida e que se diferencia na resposta. Segundo Ohran Pamuk, “... quando eu falo de escrita, a primeira coisa que me vem à cabeça não é uma novela, um poema ou tradição literária, é uma pessoa que fechou a si própria num quarto, sentou-se a uma mesa, e, sozinha, volta-se para dentro; por entre as suas sombras, ela constrói um novo mundo com palavras”.
De acordo com os escritores, palavras em movimento geram ação, como um rio sendo levado pela correnteza das águas – para mudar a direção do barco preciso do impulso e de um plano de ação – para avaliar o que realmente importa e em qual medida de dosagem. É o meu compromisso pessoal.
Sei que posso espalhar palavras e tornar o meu viver prazeroso. O que significa conquistar o coração do leitor. Jorge Forbes demonstra que “a poética não visa ser compreendida, visa ser sentida. Ela toca o corpo além do conhecimento”. E, Amós Oz questiona, “... Por que você escreve exatamente desta maneira? Se você quer influenciar seus leitores. E se quer – em que sentido tenta influenciá-lo. Que função exerce suas histórias...”
O fato é que essa é uma das formas de mudar o mundo e, assim, sinto-me estimulada a seguir o caminho literário e cultural, como em Jorge Luis Borges, “Um grande escritor cria seus precursores. Cria-os e de algum modo os justifica”.
Ler me torna capaz e me faz fugir da banalidade, já que me importo com a qualidade de vida; a pressão arterial diminui e o grau de felicidade cresce; aumenta a autoconfiança e a esperança de, assim, responder a pergunta inicial de Carlos Pessoa Rosa.
É possível com as palavras alcançar o objetivo desejado, depende do quanto quero olhar sobre os talentos da literatura e do quanto sinto o vento da mudança: vontade de descobrir e desvendar a cultura. Um bom livro continua ocupando lugar de honra nas prateleiras da minha casa. Em tempo: 29 de outubro foi escolhido para comemorar o Dia Nacional do Livro, porque nesse dia, no ano 1810, a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para o Brasil, fundando a Biblioteca Nacional.

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sábado, 15 de julho de 2017

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SEM PIZZA? SEM CHANCE!




Existe pouquíssima coisa melhor que pizza, embora ninguém possa garantir que essas pouquíssimas coisas sejam, de fato, melhores que ela. Mas, se existirem mesmo, seriam tão poucas que caberiam no espaço de meia pizza brotinho. Com folga.

Não havendo pizza, no mínimo três quartos dos motoqueiros também não existiriam ou estariam fazendo outra coisa na vida, pois não teriam o que entregar. 

Esse nosso mundinho, que já não é lá o melhor lugar da via láctea pra se viver, ficaria insuportável. Até o universo corporativo seria afetado. Os gráficos-pizza do powepoint precisariam se chamar gráficos-queijo, gráficos-torta ou coisa parecida. As esticadas de expediente, madrugada adentro, nas agências de propaganda e redações de jornal, resultariam compreensivelmente improdutivas sem a consoladora perspectiva da uma redonda crocante, de preferência com borda de catupiry ou cheddar, para tirar o estômago das costas e saudar o sol nascente. 

A vida noturna de Sampa seria no mínimo um terço menor, ou três fatias, supondo como analogia uma pizza de dez pedaços. Estatísticas do ano de 2013 dão conta de um total de 15.000 restaurantes e 4.500 pizzarias na capital paulista. Vai gostar de pizza assim lá na Itália, ô meu...

Pizzas coroam as grandes conquistas, arrematam com perfeição os momentos mais esperados, são o ápice da satisfação humana. Exagero? De jeito nenhum. O camarada se mata de estudar para ser um bom aluno e entrar numa faculdade bacana. Faz a faculdade bacana para buscar um bom emprego. Consegue, com o bom emprego, a realização na forma de um carro moderninho, de uma parceira interessante, de uma casa com projeto de arquiteto. Dentro da casa, o quarto. No quarto, a cama. E depois daquela coisa boa que se faz na cama, o que vem na sequência? Pizza. Para repor as energias e cogitar uma segunda rodada. Não necessariamente de pizza. 

Mas, se tivesse mesmo que inexistir a partir de amanhã, que eu tenha a chance de guardar hoje uma última fatia na geladeira para degustá-la fria e com a mussarela plastificada, regada a um generoso fio de azeite. Ô, tentação deliciosa. Até abaixo de zero a redonda não tem rival.  

É preciso reconhecer que nem tudo, entretanto, estaria perdido num mundo desgraçadamente desprovido dessa maravilha. As maracutaias de Brasília, por exemplo, não mais acabariam nela. O que seria espetacular. 





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Imagem: ebpembalagens.com.br

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terça-feira, 4 de julho de 2017

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PÓS CÂNTICO - JANDIRA ZANCHI


Ilustração: Andrew Pearce




luminescências  derrubadas no pós cântico
são meras e esmeradas folhas
de algodão e cetim manuseadas

cálida corrente crucificada
ainda, menina benevolente, a terra em lua lubrificada
essa manhã... de pouco vento, breve instante
sussurros quase audíveis do silêncio

permanecimento das hastes violetas/violáceas/varridas
de cânforas  e carmesim, em torno auréolas de santos
mugidos dos entes
esculpido de ouro e barro esse além

medida metrificada mentolada de anis e amianto

lago diversificado ... é solene no esperanto espetáculo
de augustos templos
templários tenazes esculpidos de ideia e ar
ventilam, sem massa, astúcia e alforjes
o tempo de seda e semáforos que me prosseguem

na rua ainda o espanto de passantes por avenidas que se alongam e debatem
atravessadores sinalizadores circunspectos e graves facínoras
famintos, nesse céu de chumbo e vigor, da prece pedinte de algum deus

que já não hesita castiga ou perdoa
entoa entoadas almadas
sem trevas e trafego

condizente momento ao porvir da eternidade.

Jandira Zanchi
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sábado, 1 de julho de 2017

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A HORA E A VEZ DO PAMONHEIRO




Olha aí, olha aí freguesia
São as deliciosas pamonhas de Piracicaba
Pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras
É o puro creme do milho verde
Vamos chegando, vamos levando
Temos curau e pamonhas
Venha provar essa delícia
Pamonhas, pamonhas, pamonhas

Mais de 50 anos aguentando essa maldita fala em looping, com esse insuportável locutor, das sete da manhã às oito da noite. Na safra do milho e na entressafra. No começo, eu dirigia o carro - um Gordini já bem velho - e não tinha locutor nem gravação. Eu mesmo anunciava a pamonha. Ia com o vidro aberto e berrando feito louco no megafone. Voltava pra casa com a mão direita cheia de bolhas, de tanto ficar manobrando a direção com um braço só. Já o braço esquerdo retornava da labuta todo seco e descascado, porque o sol só batia nele.

Pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras
Vamos chegando, vamos levando
Venha provar essa delícia

Depois veio a fita-cassete. Play direto no tape TKR com amplificador Tojo, virando a fita a cada meia hora. Em cima do Corcel 2, uma caixa acústica gigantesca com a madeira infestada de cupins. Como nunca tive comissão nas pamonhas vendidas, rezava pra passar reto em frente às casas e ninguém fizesse sinal pra parar o carro e comprar a maldição. 

São as deliciosas pamonhas de Piracicaba
É o puro creme do milho verde
Temos curau e pamonhas 
Pamonhas, pamonhas, pamonhas

Foram bem uns 20 anos desse jeito. Custou pra chegar o CD e depois o pen-drive, que é o que uso até hoje. Completo 84 mês que vem e firme no volante, já que a aposentadoria não compra nem meio tacho de curau. 

Olha aí, olha aí freguesia
Pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras
Vamos chegando, vamos levando
Venha provar essa delícia

Antes, era só eu e mais um concorrente rodando na cidade. Agora tem uns quinze. A venda diminuiu muito e meu patrão já avisou que, se continuar assim, vai ter que me dispensar. Com essa história de computador e internet, qualquer um baixa a insuportável gravação, enche o porta-mala de pamonha e começa a vender por aí. A pamonha mesmo é feita sabe-se lá em que lugar e de que jeito. Vem de tudo quanto é canto, menos de Piracicaba. 

São as deliciosas pamonhas de Piracicaba
É o puro creme do milho verde
Temos curau e pamonhas 
Pamonhas, pamonhas, pamonhas

Chega! Pra mim deu, joguei a vida fora ralando de sol a sol, pra ganhar o quê com isso? Cadê o outro pen-drive... ih, será que esqueci em casa? Ah, não, tá aqui. Dane-se, agora vou pro tudo ou nada. Toma essa, patrão desgraçado! Dessa vez vou rodar bem devagarinho, pra cidade inteira escutar...

OLHA AÍ, OLHA AÍ FREGUESIA
SÃO AS HORROROSAS PAMONHAS DE PIRACICABA
PAMONHAS ENVENENADAS, PAMONHAS MORTÍFERAS
É O PURO CREME DO MILHO AZEDO
VAMOS COMENDO, VAMOS MORRENDO
TEMOS CURAU E PAMONHAS
VENHA PROVAR ESSA IMUNDÍCIA
PAMONHAS, PAMONHAS, PAMONHAS



© Direitos Reservados
Imagem: pt.petitchef.com
Esta é uma obra de ficção. As LEGÍTIMAS pamonhas de Piracicaba são ótimas!



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