terça-feira, 19 de setembro de 2017

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NO RITMO, EM TEMPO



“Há algo maior / que escrever / poesias // dançar” (Pedro Du Bois)


Desde tempos remotos, homens e mulheres são fascinados pela dança em salões iluminados. Usamos os sentimentos e respeitamos o nosso ritmo, que rodopia a alma e harmoniza a mente. Segundo Maria Helena Latini, roda constante / Redemoinho? Rodopio / Gente gestos rostos /... Fotos cores lembranças / caderno ternura canções /... Danças promessas encontros / Desencontros mágoas / ritmo riso rascunhos...”
Dançar é descobrir o próprio ritmo e ter a sensação que se confunde com provocação e diversão, na sequencia de ações que se completam e, ao mesmo tempo, inspiram, no dia a dia, ritmos com passos traçados em riscos, do envolvimento passado a se fazer presente. Como retrata Guillermo G. Infante, no livro Delitos por Dançar chá-chá-chá, contos que refletem o sentimento da lembrança, do amor e da nostalgia, com ritmos harmônicos. Para Pedro Du Bois, “O espaço reservado aos passos revolve o tempo e me confunde em movimentos; sou quem ouve a música no silêncio concentrado entre ouvir e ter a leveza do corpo ao me saber presente. Danço”.
Qual o sentido real no experimentar a inquietação da dança como encontro e o desencontro, da entrega e recusa, e qual a satisfação que traz ao ser executada?
Cultivamos a prática da dança e a interiorizamos com a finalidade de vislumbrar sentido maior para a vida: seduzir a imaginação musicando ritmos para definir o que queremos em relação ao outro, porque criamos a necessidade de buscar a dança como divertimento. Encontro em Armindo Trevisan os contos do livro A Dança do Fogo, retratando movimentos eróticos.
De outro lado, a música tem vida e, quando dançamos, estabelecemos relação entre ela e nós, como prazer e lazer, ao sinalizar o desejo de conviver com outras pessoas. Como em Igor Fagundes, onde “O poeta dança com as palavras / inventa passos / coreografias / ritmos // até // o primeiro tombo”.
Assim como letra, música e poesia combinam, surge de forma perfeita, o que nos faz acreditar que a força do poema é onda universal na música. A música ao se valer da poesia (tornam-se parceiras) nos atrai para o movimento dos corpos na dança. Ao sentirmos o corpo flutuar; pés e mãos a girar se tornam a expressão do encontro, onde a solidão se desfaz, como nos livros: A Recriação da Mágica ,de Pedro Du Bois e o Livro da Dança, de Gonçalo Tavares. Sempre, o corpo em movimento é a tradução do ritmo na música.
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sábado, 16 de setembro de 2017

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QUEBRA DE SERVIÇO





Com a riqueza e a fama, a gente se acostuma fácil. Duro mesmo é se readaptar ao inferno depois de uma bela temporada no paraíso. Mas agora é assim, e não há nada que se possa fazer a respeito. Material esportivo novo e à vontade? Foi-se o tempo. Enquanto um calção está em jogo, o outro - emprestado - ficou em casa de molho com sabão de ação concentrada para ver se sai uma mancha de saibro, causada por um escorregão feio na última partida. A queda, na quadra e no ranking, abriu um rasgo nos fundilhos, mas nada que uma tia velha que costura pra fora não possa resolver.

Troquei o treinador pelo paredão, e essa miserável alternativa consegue ser pior do que praticar com aquelas máquinas lançadoras de bolas (que, aliás, precisei permutar com 12 tubos de bolas Wilson, já que as três últimas que tinha estavam carecas e rachadas). Os bons tempos das nove raquetes novinhas e embaladas em plástico por partida, de 4 materiais diferentes, agora se resumem a uma filha única, de aro entortado e encordoamento frouxo. O pior é que não posso exigir muito dela nos treinos, caso contrário não sobra raquete para as partidas. 

O contrato com a Nike foi quebrado unilateralmente, e tive que assinar às pressas com a paraguaia Neki, que é quem custeia o sabão de ação concentrada para tirar as manchas dos calções - o meu e o emprestado. 

Na última partida ainda sob o contrato antigo, nem todos percebiam mas a inanição já minava a minha massa muscular, comprometendo a performance e distraindo minha atenção do jogo. Estávamos nas oitavas de final do US Open, e o juiz interrompeu a partida para dar uma raspança em um espectador que saiu do seu lugar para comprar um hambúrguer. O meu e todos os olhares do mundo voltaram-se para ele, já que ninguém pode se movimentar pela arquibancada com o jogo em andamento. A diferença é que, enquanto todos lamentavam a desconcentração causada pelo ocorrido, eu olhava salivando para aquele suculento sanduíche transbordante de recheio. Eu queria levar aquele Double Open Extra Burger para a cama e botar minha fome em luta corporal com ele. 

Até outro dia, eu só assinava autógrafos e meus assessores cuidavam do resto. Agora, vivo assinando promissórias e empréstimos bancários. O último autógrafo que dei como astro das quadras foi para o irmão de um agiota para quem penhorei todos os troféus de Grand Slam, e que ainda se lembrava vagamente da minha glória antes da decadência. 

Bem, depois prossigo este relato. O porteiro do prédio acabou de interfonar, dizendo que o representante da Laboste está subindo aqui para a minha kitnet. Veio falar sobre uma proposta de abandonar o patrocínio da Neki e assinar com a marca deles para a temporada 2018. 



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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

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Tá olhando o que?


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RISCAR O VIDRO DA JANELA


pela memória de Carmen Sílvia Presotto

A chuva risca o vidro da janela enquanto o interior do quarto está em silêncio. Escuto meus pensamentos despertados pelo trovão, como grito da minha solidão. Nas palavras de Pedro Du Bois “não tendo você comigo nas horas tardias, / nada terei quando o amanhã chegar...”.
Estou fragilizada em recordações quando o barulho da chuva riscando o vidro traz a realidade: a morte de Carmen Sílvia Presotto, minha amiga de sempre: Tita. Por algum tempo, roda a minha mente e a dor aperta entre lembranças nas imagens de gestos e horas que não passam.
Em outros tempos era você, minha amiga, que estava por perto com novidades, colocando a literatura poética no centro da cultura pelos quatro cantos da vida. Conversávamos neste quarto, agora vazio. Sem a sua presença, sinto-me sem luz. Lembro ouvirmos os discos de Chico Buarque e Elis Regina, a última revelação era Maria Betânia, no pequeno e monofônico toca-discos do Pedro. Saudades! Bons tempos em que as novidades trazidas pelo seu irmão, que estudava na capital, alegravam nossas vidas. Dividimos sentidos e sentimentos que, para Pedro Du Bois, “falam das emoções / inesgotáveis dos amores/ e das sensações individuais/ da vitória”.
Hoje, o riscar da chuva no vidro da janela revela a saudade nos símbolos da nossa amizade. Outra angústia pela sua partida. Angústia de não mais rever o seu sorriso largo, fosse meu sol brilhante. Neste mundo, a chuva na janela são lágrimas que contornam o tempo ameaçador e condutor da tristeza e desânimo para iniciar a riscar a página em branco.
Momento de dor e angústia em que escuto Leonardo Cohen, com sua voz rouca e grave, cantando Aleluia, Aleluia. Em homenagem, repito e repito a música na certeza de estar lhe dando forte abraço de despedida, na esperança de que nossos sonhos façam eco em outras vidas. Como escreveu Pedro Du Bois, “temos que ser a memória infinita / compensando tempos eternos”.
Saio da penumbra do quarto, diante da janela choro a sua ausência; risco no vidro o seu nome. Ao meu redor tudo está triste. Carmen, seus livros: Dobras do Tempo, Encaixes e Postigos estão e estarão ao meu lado, fazendo-me companhia e conVersando comigo. Como em Milton Hatoun, “Hoje ressurge na minha memória como uma câmara de luz”.

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sábado, 9 de setembro de 2017

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ARTEFATOS - JANDIRA ZANCHI

Ilustração: Paul Delvaux


 participo do grande vento das noites frescas de almíscar
e agonia e alegria e magia -  o desejo levitado por
arcanjos ou asnos ou arcanos ou artefatos -  seduzindo
milagres e ventarolas e flores magras e vermelhas
atônitas da relva e da noite ardida
de uma meia lua de acetona das madonas decaídas
em coro vazio, mas livre na ascensão, enquanto
se move o mundo na nau fragata das arquidioceses

suspensa dos suspensórios sagrados
lua arqueada de espanto
no aéreo vapor das águas.


Jandira Zanchi (A Janela dos Ventos, singularidade)


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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

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A BEM DA VERDADE

                            Retrato do Arquiduque de Chorumelas


Ninguém há de negar que entre a história oficial e a real há sempre um abismo enorme. Nos fatos a que me atenho, alguns historiadores avaliam seu tamanho em 28 metros de altura por 12 de largura. Outros estudiosos afirmam serem superestimadas as dimensões do referido fosso, que não devem ultrapassar, segundo eles, 26,5 metros por 11,4.
Controvérsias métricas à parte, o que vem ao caso no momento são alguns episódios que urge serem publicamente reparados, especialmente aqueles relativos aos mais de 120 anos de desavenças bélicas entre o Reino de Patavina e o Condado de Lhufas.

Para que não se perpetuem injustiças, seguem alguns pontos finalmente elucidados, que desmistificam um sem número de embustes e falácias perpetrados mundo afora, o mais das vezes por gente que não tem o que fazer.

Está definitivamente comprovado que Olavinho Vai-Não-Vai, assim chamado por seu temperamento titubeante na função executiva de maneira geral e no trato com os amotinados do Levante de Aragão de modo particular, teve como conselheiro o Arquiduque de Chorumelas, e não Zolostro, o Precipitado.

A greve dos monges copistas pelo direito à meia passagem nas carroças foi na verdade julgada abusiva pelo Tribunal da Inquisição, sob o argumento de que eram desnecessários aos reivindicantes quaisquer meios de locomoção, por viverem na clausura.

Tomaso Vietri, o Flambado, recebeu essa alcunha por ter sido imolado na fogueira entre outubro de 1502 e março de 1503 (não que o supra-citado tivesse permanecido todo esse período ardendo em chamas; o intervalo de tempo refere-se à imprecisão da data de execução do mesmo).

Aqui se faça também a necessária errata e o desagravo a Isabel, a Dadivosa, durante a conhecidíssima porém nunca suficientemente estudada Batalha dos Aleijões. Célebre por introduzir no cardápio luso o mingau de seriguela, sabe-se agora que tinha por hábito tocaiar ambidestros e alocá-los nos serviços da Corte, como descascadores de beterraba, pajens dos infantes ou auxiliares dos alquimistas na produção de cicuta. Os demais – destros ou canhotos - eram mantidos nos calabouços de cabeça para baixo até que viessem a óbito por congestão cerebral ou inanição – o que ocorresse primeiro, conforme item 5, parágrafo 3 do regulamento encontrado no sítio arqueológico de Quatá.

Não obstante a veemente reprovação do Barão de Almofadinhas, coube ao cônsul Onderóques instituir em Barbapácia a lei que regulamentou a obrigatoriedade dos crachás nas armaduras, para que não se dizimasse por engano os guerreiros aliados ao invés dos inimigos. O expediente, prático e eficaz, poupou milhares de combatentes das fileiras dos Habsburgos em terras catalãs.

Lulalah, o Oneroso, cuja sangria imposta ao erário público em muito superou o volume de sangue derramado em todas as cruzadas, foi o principal responsável pela disseminação da peste marrom-clara, mais amena que a negra, sua sucessora imediata.
A afirmação, tida como fidedigna pela comunidade acadêmica, consta no diário de Catarina, a Enxerida, amante do monarca.


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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

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Tantas PERGUNTAS para meia RESPOSTA

Encontro perguntas que no meu coração refletem a nossa trajetória:
O que nos faz feliz?
Ó beleza, onde está a nossa verdade?
Somos o reflexo da nossa infância?
Que criança resiste a um belo livro?
Quantas sombras tem o homem?
Por que o silêncio não silencia?
Quantos editores escutam a voz do leitor?
Todos os homens tem alma feminina?
Encontramos arte nos retratos pintados?
Sabemos os limites da vida na face oculta?
Em que palavras materializamos a espera?
O mundo é desenhado só para os homens?
Por que os homens não escutam as mulheres?
Que significados existem além do bem e do mal?
Por que passamos a vida sem ser notados?
Temos tempo para amar a quem nos ama?
Como podemos esquecer se não deixamos de lembrar?
Desejamos segredo maior que o contido nas expressões poéticas?
Quem nunca sentiu a saudade cortar o peito como aço de navalha?
Onde e quando os poemas começam a fazer parte da nossa vida?
O tempo é fronteira entre o que lemos e o que poderemos ler?
O que se revela ao decidirmos caminhar para sentir o vento?
Precisamos desejar ou sonhar ao dar tempo ao tempo e hora ao instante?
Acostumamo-nos a passar poucas horas por noite sobre os travesseiros?
O amor, as lembranças, os vícios e os amigos tem prazo de validade?
Que país é este que chora quando a seleção de futebol é desclassificada e a perda dos intelectuais é chorada apenas pelos amantes da cultura?
Provocar a felicidade é o que precisamos para não atrapalhar o dia a dia?
Nossas palavras são ponto de partida para o texto, como a liberdade é pretexto para viver?
A vida sem carinho nos faz pessoas vazias como páginas em branco?
A natureza posa para nós, fala conosco e ainda captura nossos sentimentos?
Mudanças inflexionam a história ao indagar se somos ricos ou endinheirados?
No mundo de relações virtuais vivemos na impessoalidade, pois, a atitude é que faz a diferença. Nosso poder reside nos pequenos gestos do cotidiano, como resposta ao confronto com a vida, que pode transformar os fatos a qualquer instante. Segundo Getúlio Zauza, “Me pergunto: será a vida sonho acordado? / E se a humanidade em verdade viver sonhando? Haverá tempo suficiente para despertar?...”. A resposta é algo que desperta interesses, tal a liberdade e a paz; tudo começa quando respondemos as perguntas ou, pelo menos, nos perguntamos sobre as dúvidas. Para Pedro Du Bois, “Na resposta observo / a pergunta pronunciada / ágil lâmina / trespassada / ao passado / não pode a resposta resolver / comandos negados na pergunta”.
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