quarta-feira, 19 de setembro de 2018

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De Mãos Dadas - capa


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terça-feira, 18 de setembro de 2018

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GAVETA



        
          Na gaveta posso encontrar referências históricas memorialísticas e as lembranças, como sentimento de nostalgia provocada por minha vontade de voltar no tempo. Para Pedro Du Bois, “Os objetos sintetizam o que somos...”
          Fico em suspense ao refletir sobre o fascínio do conteúdo da gaveta; logo, confronto as lembranças para estabelecer a ação do tempo e manuseio, por único motivo: busco conhecer a história e não me intimidar com o valor descoberto. Sinto como se estivesse abrindo um livro de poemas pela primeira vez.
          Na gaveta são guardados objetos pessoais. Nela contém um universo mágico e perco o fôlego ao pensar no cenário e nas palavras descerradas. Pedro Du Bois retrata, “Tudo o que precisa /guarda / em gavetas acima / das possibilidades”.
          Minha curiosidade ronda a fantasia enquanto não tenho permissão para abrir a “tal” gaveta. Peco, porque fico pensando sobre o segredo que está guardado. Quanto me influenciaria o descobrir? Seriam cartas de amor? Bilhetes de encontros? Amores e desilusões? Por que insisto em descobrir e vasculhar os objetos, se posso vir a me decepcionar com a surpresa? Não há jeito. Não consigo driblar a curiosidade. Preciso ver para crer! Almandrade resalva, “... afinal ver é um incômodo // tentação do saber”.
          Reconheço que espiar a gaveta é desafiar o tempo e sentir a emoção mesclada com as saudades. Momento em que se apresenta o passado no presente, revelando os diferentes talentos, como o poeta Benedito C. Silva na obra Gavetas Abertas em Cômodos Diferentes, que revela, “Gavetas // Limpar as gavetas  / É despir-se da roupa velha // a sua foto com carinho protegido / Guardada entre tantas outras coisas sem sentido...”
          Outro momento foi tirar da gaveta, o livro de Tânia Pelegrini, Gavetas Vazias – ficção que relembra a política dos anos 70; até hoje aquelas gavetas permanecem semifechadas pela barbárie e o sofrimento decorrente.
          Resta manter abertas as gavetas da paisagem e da poesia para eu poder expor a minha ligação com o mundo, como em Millôr Fernandes, “A gaveta aberta / Tem expressão / Liberta”.






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domingo, 16 de setembro de 2018

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Sob um equilíbrio instável


   
É praticamente consenso,
nesse nosso tempo,
que o comunismo é uma utopia.
E estamos próximos do dia
em que a democracia
será considerada, também,
um ideal inatingível,
nessa nossa Terra.
O verdadeiro comunismo,
e a verdadeira democracia,
só no fim:
Todos vamos morrer, um dia!
   
   

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MELHOR E ETERNO AMIGO



O primeiro cachorro a gente nunca esquece, ainda que o quadrúpede já tenha virado adubo há muito tempo. Tudo bem que existe uma natural transferência da estimação que se tinha ao bichinho para o outro que invariavelmente chega a fim de ocupar seu lugar. Mas o primeiro tende a ser mais especial que os demais, não há como negar isso.

O que pouca gente se dá conta é possibilidade de mantê-lo indefinidamente, mesmo que não seja a rigor o mesmo bicho.

A primeira alternativa é o processo natural, ou seja, a cruza do cãozinho que se deseja perpétuo com alguma fêmea da mesma raça ou muito parecida com o macho. As chances de reprodução e de geração de inúmeras ninhadas dependerá somente das oportunidades de acasalamento. Tendo em vista que cada ninhada produz em geral de quatro a sete filhotinhos, numericamente os descendentes se acumularão em progressão geométrica. Talvez ninguém nunca tenha pensado nisso, mas é perfeitamente possível que dezenas de gerações de uma família tenham como cães de guarda ou companhia dezenas de gerações que descendam do mesmo cachorro. O que daria margem a uma frondosa árvore genalógica canina, tão ramificada quanto a humana.

O congelamento do sêmen também é possibilidade a ser considerada. Um filhote (ou toda uma ninhada) do pet poderá ser gerado no mês que vem ou no século 26, sem maiores problemas. O número de filhotes resultantes da técnica é ilimitada, já que os espermatozoides são armazenados aos milhões. E não têm prazo de validade, se conservados em condições ideais.

A alternativa mais cara e tecnicamente mais complexa é a clonagem. A atriz e cantora Barbra Streisand, por exemplo, fez logo dois clones da sua cadela Samantha, morta no ano passado. Claro que 100 mil dólares, que é o custo do procedimento, não é para humanos vira-latas. Nele, células-tronco do pet são armazenadas quando do seu nascimento ou a qualquer momento de sua vida. Constatada a morte iminente, ou opcionalmente muito antes dela, o clone é gerado e o original conviverá com sua cópia até o desenlace - facilitando a transição para os donos e, porque não dizer, para si mesmo, ao constatar que está indo embora e ficando a um só tempo. O difícil é determinar na pele de quem estará sua consciência, se na matriz ou no dublê... Aí está uma pergunta definitivamente sem resposta.





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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

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Sem nome


   
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4 v1d4 h48174 05 m34ndr05
pul54, v18r4 1n73n54
n05 1n73r571c105
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d0nd3 8r074m 45 1d3145
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um d14 4 93n73 p3rc384!
   
   


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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

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Pequenas histórias 291

Cortou o pedaço


Cortou o pedaço de pizza de camarão com azeitonas verdes e brócolis e, evitando derrubar na toalha impecavelmente branca, com a espátula por baixo, deixou o suculento pedaço escorregar para o prato, onde o garfo e a faca esperavam para entrar em ação.
- Procure evitar muita bebida alcoólica. – dissera o médico.
Mesmo tendo no ouvido o tom da voz evasivamente mecânica do endócrino, encheu a taça de vinho até a borda. Do seu lugar favorito, a mulher o observava com aquele olhar de quem comeu minhoca mal cozida e não gostou. Entretido, não se incomodava em dirigir o olhar para ela, e para que?
- “Nossos olhares não deve se cruzar num olhar só, nossos olhares deve ser para cada olhar o seu próprio caminho.”
 Assim pensando, tomou um longo gole de vinho. Em seguida, se apropriando dos talhares, apreciou lentamente pedaço por pedaço da suculenta pizza. Uhmmm! Que delicia, dizia ao lamber os lábios. Espetou uma azeitona. Quando sentiu o gosto meio salgado, estalou a língua ruidosamente. Depois, cuspiu o caroço da azeitona que bateu na parede a sua frente e caiu na toalha impecavelmente branca. Riu num comprimir os músculos de um lado só da face.
O silêncio entre eles se fazia ouvir nos talheres que ao se tocarem, produziam barulho incomodo ou, da faca cortando a pizza como se cortasse metal resistente.
No segundo gole limpou a taça de vinho, onde no fundo ficou apenas a marca vermelha. Soltou um arroto que não esperava.
- Porco. – disse a mulher do seu lugar favorito.
Não se desculpou, pois achava que não deveria. Terminada a degustação, levantou-se e foi colocar o prato na pia quando a mulher falou:
- Não deixe o prato sujo na porra da pia, não sou empregada de ninguém.
Estando em pé, sem ter ainda colocado o prato na pia, olhou para ela rindo ironicamente.
- É mesmo? Está bem, vou deixar o prato no chão, o que acha?
E enquanto falava soltou o prato que se espatifou em mil pedaços no ladrilho branco da cozinha.
- Agora você não precisa lavar o meu prato. – disse ironicamente com o ar de pouca preocupação.
Dizem as más línguas que a sujeira ficou no chão da cozinha por mais de três semanas, até que ele contratou uma empregada.


pastorelli
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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

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SOB O CÉU DE POLIETILENO



Não fosse este meu olhar de plástico, neste momento estático sob o céu de polietileno, forrando o teto estampado de estrelas da sala dos fundos de minha garganta profunda, onde os sonhos gangrenam.
Talvez eu não pensasse no silêncio que a morte me causa.
Não fosse este feixe de luz, por onde o dia me escapa, fazendo com que as lágrimas chamuscadas vertam por minha face escarlate queimando como vela consumindo o pavio curto, que só tomba quando a vela acaba.
Talvez eu não pensasse no silêncio que a morte me causa.
Não fossem estas tardes frias de outono, deste zunido de vento, dentro deste cemitério-tempo onde pousam meus sentimentos, onde abro minhas feridas, descasco meus tumores e lambo minhas ínguas.
Talvez eu não pensasse no silêncio que a morte me causa.
 Não fosse este espaço-crúcis, nesta via de mão única, no qual mantenho meus braços e pernas abertos, estendidos, prontos ao ritual de amputação dos membros, preparando-os para a fervura em fogo brando, sem o tempero das flores ou de gemidos.
Talvez eu não pensasse no silêncio que a morte me causa.
Não fosse esta noite monstro, de rosto invisível a carcomer os glóbulos brancos dos meus olhos de vidro com a mesma gula em que as plantas carnívoras, silenciosa e vorazmente, devoraram os jardins da babilônia com tempero de azeite impuro.
Talvez eu não pensasse no silêncio que a morte me causa.
Quando penso na morte o mundo fica suspenso diante de mim. As pálpebras, as horas, as folhas, tudo fica imóvel.
A respiração para, o vazio expande, o grito é oco e pouco, o céu é branco, o chão cega e afunda numa queda que não se acaba. Fico ali diante dos pontos luminosos que acendem e se apagam lentamente
Quando penso em morrer fico estatelada no meio da sala, diante da porta fechada, não ouço nada, nem céu, nem mar, nem lama, sei que meus pés estão imersos, mas não sinto nem nojo, nem calafrios, nenhuma dor que me perfure o fígado.
Quando penso na morte me calo, frente ao silêncio que a morte me causa.
Tento me lembrar, por quanto tempo estive morta?
Diante da vela que me despe, revelando a transparência do meu corpo de pedra e PET, percebo esta luz pouca que me resta, uma fagulha em meu peito, um caminho estreito, nele pulsa uma chama acesa, inda que só uma réstia, inda que só um fio em brasa que me move para além da porta.
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Ligia Regina Lima
11/09/2018


Sétima postagem do projeto em que uma escritora dialoga com uma fotografia. Desta vez, Ligia Regina Lima, artista plástica, cantora e poeta, nos brinda com sua prosa poética.

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