domingo, 21 de maio de 2017

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SOLIDÃO

Feitod de saudades
nos queixamos
e deixamos que o mal
vença nossas barreiras
e se alastre em sentimentos

perfeitos em nossa solidão
no decorrer da jornada
de forma servil

servos das passagens ruins
deixamos crescer a nossa dor
alimentada na inconsequência
de vagos gestos de retenção.

(Pedro Du Bois, inédito)
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sábado, 20 de maio de 2017

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LADRÃO PREVENIDO VALE POR DOIS



Se você pensa que quem arrisca a vida é bombeiro, PM da favela da Rocinha ou dublê do Chuck Norris é porque nunca foi ladrão na vida. Nossa categoria deveria ter direito a adicional de insalubridade, tamanhos os riscos a que nos expomos.

Em nossa estafante labuta, os verdadeiros roubados somos nós, profissionais da contravenção. Estamos o tempo todo a um passo do Instituto Médico Legal, e por ameaças muito mais letais do que a ação da polícia. 

Não estou nem aí se deixo ou apago minhas digitais no local do crime. Uso luvas (aliás, duas em cada mão, para a eventualidade de uma delas arrebentar) com a intenção de me precaver de verminoses, dermatites, eczemas, micoses, sarnas, gripes e até mesmo lepra, dependendo do naipe do assaltado que sou obrigado a encarar para ganhar o pão de cada dia. 

O mesmo vale para o capuz. Tudo quanto é meliante veste para não ser reconhecido pelas vítimas ou pelas câmeras de segurança, mas para mim isso é o que menos importa. Uso para evitar vírus, especialmente do início do outono até o fim do inverno. E, mesmo no verão, só visto capuz de lã. Vai que a temperatura muda de repente, né? Nunca se sabe, esse nosso clima é cada vez mais louco e a meteorologia não acerta uma. 

Quando o assalto é na rua e levo o otário até o caixa eletrônico para sacar o dinheiro da conta, me embrulha o estômago olhar para o visor do equipamento. Aquelas marcas de dedos no vidro, todo engordurado pelo manuseio de milhares de clientes... fico imaginando a orgia de microorganismos que é aquilo, uma explosiva arma química de efeito devastador. O sujeito que sem querer coloca a mão na boca após ter feito o saque leva, junto com o dinheiro, umas duzentas doenças pra casa. E se no visor é assim, quase vomito ao pensar no horror que deve ser o leitor de biometria. A camada de gordura ali justifica uma lipoaspiração ao final do expediente. Arghh!!!

Mas a pior parte vem quando o assaltado entrega a grana pra gente. Nada é mais sujo do que papel-moeda, mesmo não sendo de caixa 2 e nem tendo passado pela cueca de ninguém em Brasília. Eu diria que não há diferença entre manusear uma nota de real e dar um mergulho no Tietê. Sinceramente, não há dinheiro que pague o nojo das bactérias. Comigo o negócio é sem contato manual, por isso já obrigo a vítima a colocar o dim-dim dentro de um ziploc para afastar qualquer possibilidade de contaminação.

Se o assaltado reage e sou obrigado a mandar o dito cujo conhecer Nossa Senhora, eu não descuido: trago sempre na minha maleta de trabalho um traje completo de escafandrista, para evitar ser atingido por gotículas de sangue na hora de estourar os miolos do infeliz. Vai que eu morro infectado. Além do mais, mancha de sangue na roupa dá o que fazer pra tirar. 


© Direitos Reservados


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quinta-feira, 18 de maio de 2017

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O Livro Do Que

              
Foi lançado ontem, 17 de Maio de 2017, pela Amazon “O Livro Do Que”.
             
“O Livro Do Que” é o quinto livro de Jorge Xerxes. O primeiro publicado exclusivamente em versão digital. Sessenta e seis páginas do que há de melhor na imaginação e na fantasia em prosa, poesia e imagem deste autor inventivo.
              
               

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terça-feira, 16 de maio de 2017

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A ESQUINA


“Era dobrar a esquina para desdobrar o passado...”
(Carlos Pessoa Rosa)

Quando revejo a cidade da minha infância, a ternura me envolve e tenho a noção dos anos passados e dos encontros nas esquinas. É o passado que retorna em lembranças, como o livro, a cadeira, o poema não declamado, o quadro do pintor desconhecido, o disco de Chico Buarque e o vento que escancarava as portas.
Sinto que é importante valorizar a lembrança – a esquina – para cada vez mais entender que a vida é o recolher histórias e, por essa razão, sinto-me feliz. Segundo Álvaro de Souza Gomes Neto, “Em cada esquina desse Porto / As vezes triste e muitas vezes tão alegre / Descubro em passos um compasso de viver / Que sempre sonho que jamais vou esquecer / De procurar uma razão pro meu andar...”
Quando parti da pequena cidade, levei comigo a lembrança da esquina em que havia um jardim, que ladeava a casa onde floresciam jasmins perfumados, que tomavam conta de mim. Nas palavras de Cora Laus Simas, “E hoje, aqui, eu, só, gozando esta fragrância, / vi-me galgando, distante da infância, /os degraus da vida inteira”.
Na incerteza do que vivi postada à janela, tenho a consciência de existir. Com as lembranças caminho a passos lentos, enquanto há a possibilidade de retorno, das quais não tenho vontade de me afastar, porque as tenho como os bons tempos. Fui feliz, por isso não choro. Carmen Presotto revela, “...Até um dobrar de esquina / sentir um parar perdido e / esquecer o caminho...”
Nas lembranças da minha cidade, se destaca o combinar com a turma nos encontrarmos na esquina. E lá deixamos nossas marcas, sejam inspiradas nas posturas de liderança ou com as histórias contadas. De uma forma ou de outra, foi a prova inequívoca do poder transformador da juventude, com a garra de estabelecer conexões afetivas por nossas raízes. A satisfação se encontrava na raiz de qualquer mudança que almejávamos. E isso era a nossa verdade, porque as vantagens de nossas novas atitudes tiveram significado especial: emoções, pensamentos ou apenas as palavras soltas; razões e sentimentos que nos impulsionavam a praticar o velho hábito: encontrar-nos na esquina para conversar. Isto nos obrigava a ter atenção e reflexão para com os amigos, algo que não dependia da opinião alheia. Ou seja, seguíamos nossas intuições e comportamentos como se fosse a realização do novo. Nas palavras de João Carlos Meirelles Filho, “...Todo ruído desviava / meus olhos da angústia / procurando você nas esquinas...”
Retiro da realidade o tempo e contemplo naquela esquina nossas descobertas em inundadas sombras. Reconheço o barulho e as sombras; regresso aos dias para escutar a vida que repousa na memória, como em Pedro Du Bois, “Rarefeito em esperas / apresso o fato: pelas esquinas / ...avanço o instante / e me deparo em retorno”.
O tempo se encarrega de demonstrar os limites da flexibilização dos encontros nas esquinas, trocados pelos encontros em shoppings. Espanto-me, hoje, com as pessoas que falam mal e tem preconceito em relação as esquinas. As opiniões vão além do que sou capaz de imaginar; Carmen Presotto retrata essa realidade no poema Sombras da Esquina, “...Homem da esquina / Ligeira sombra / Sem tua presença / Dobrei meus sonhos / Assombro-me / E não lapido qualquer / falso cristal.”
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sábado, 13 de maio de 2017

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SAUDADE DOS MILHÕES*



Se há uma coisa que não falta para este humilde fardado da Guarda Municipal é experiência. Sou macaco velho, dos idos da radiopatrulha de fusquinha. Já sonhava em trabalhar na polícia desde o tempo em que a minha única munição era bala Chita. Isso lá no Belenzinho, meados dos anos 50. Minha coleção de revólveres de espoleta era famosa em todo o quarteirão. Me desfiz dela aos prantos, ao receber uma proposta irrecusável de um governador do Acre para equipar os coldres daqueles guardas-manequins-fakes vestidos com uniforme policial, que ficavam nas vias expressas e próximos aos camelódromos de Rio Branco. 

Lembro como se fosse hoje da Operação Propi-Corn, uma das primeiras de que participei. Os milhões eram escondidos disfarçados de inocentes piruás no fundo de saquinhos de pipoca, servidos sem mãos a medir nas festas juninas da Granja do Torto. Gatunagem da grossa. Chegamos com os cães farejadores e os meliantes engravatados, alguns deles com ridículos bigodes de carvão e remendos nos ternos Armani, foram pegos de surpresa com a propina ainda quentinha, saindo da panela. Dois ou três ainda tentaram, sem sucesso, se evadir subindo pelo pau de sebo. Mas recuperamos os milhões. Não digo tudo, mas a maior parte, já que um terço das espigas acabou virando curau e pamonha naquele malfadado São João brasiliense.

Depois foi a vez de desmantelarmos uma organização criminosa que fabricava e distribuía bafômetros com selos falsos do Inmetro. A ideia dos bandidos era fornecer bafômetros descalibrados para menos, no intuito de aprovar no teste tudo quanto era bêbado, mesmo aqueles beirando o coma alcoólico. A engrenagem da quadrilha era toda financiada por grandes marcas de bebidas destiladas e fermentadas. Com todo mundo passando no teste, a confiança dos cachaceiros nos bafômetros complacentes aumentava – junto com o consumo, naturalmente. 

A repercussão foi enorme no dia em que fizemos o flagrante. Deu até Jornal Nacional. Todos do nosso grupo foram entrevistados, e dias depois fomos condecorados com medalhas de bravura. Fechamos uma churrascaria na Marginal pra comemorar, bebemos além da conta e, ironia dos ironias, fomos pegos numa blitz de bafômetro. Em fila indiana e trançando as pernas para passar pelo aparelho, nenhum de nós estava em condições de explicar ao pessoal da Patrulha Rodoviária que éramos guardas também, o que poderia nos dar a prerrogativa de escapar do exame. A sorte é que os bafômetros eram do lote falsificado e fomos embora felizes e ziguezagueando, tirando fina de pedestres, ônibus, postes e muretas de concreto. 

É, meu querido. Bons e bucólicos tempos, em que perseguíamos quadrilhas que mexiam com milhões. Pobres e minguados milhõezinhos. Dinheiro de pinga, se comparado aos bilhões de hoje. E pinga tão fraquinha que bafômetro nenhum pegava.



*Esta é uma obra de ficção.


© Direitos Reservados


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terça-feira, 9 de maio de 2017

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MAL de AMOR



“... O amor desperta sentidos / inimagináveis e o transforma
em dias de recordações...” (Pedro Du Bois)

Desde daquela manhã, quando revi seus retratos, fiquei inerte, alheia como se o amanhã estivesse distante. Não quero vê-lo. Não vou esperá-lo. Não me despeço, porque ficaria sem coragem e sem a sorte que precisaria para dizer adeus. Nas palavras de Fábio Albuquerque, “... o amor / se revelou um pouco tarde / e ainda fere-me / com o silêncio da fotografia”.
Ele entrou em minha casa, correu sua vista sobre o meu corpo e me fez feliz. Hoje, ainda penso aqui dentro, sem ruídos; sei a dor profunda que sinto. O silêncio não me acalma; há dor no peito sem palavras; então, me surpreendo atrás da porta para não mostrar o sofrimento. Segundo Paulo Monteiro, “há quantos anos não vejo / quem foi meu primeiro amor / hoje só vejo meus sonhos / pelas janelas da dor...”
Minha vida tem se misturado à nossa história. À noite as lembranças chegam e persistem, clareando o amor perdido e sem retorno. Machado de Assis escreveu “Lágrimas não são argumentos.”
De manhã, enquanto caminho, entrego-me à idade e lamento o amor não vivido nas passarelas da luz. Fantasio o meu amor e me desafio nas tardes, com o por de sol ao som do Bolero de Ravel. Então, lembro as cenas, os beijos rasteando o horizonte que se esgota na memória fotográfica. Mário Benedetti expressa, “...com esta solidão /desnecessária / vazia // se pode algumas vezes / entender /o amor”.
É hora de solidão e inverdade sobre a felicidade e de retirar da parede o retrato, como demonstra Mariana Ianelli, “Logo voltas as tuas saudades antigas, / ...Porque és o teu regresso, /nas tuas buscas iludidas / e no teu desamor”. Sozinha, sinto que o amor oferece resposta ao ondular sobre os sentimentos: o mal de amor. É na vista azul que luto contra os sentidos, converso com a poesia e encontro manhãs sem luz. Conformo-me e mal revivo as emoções. Eduardo Martins pergunta, “Quem um dia já não foi / em visita ao seu passado?”
Hoje, tenho vida sem paixão nos minutos de lembranças e nos desencantados dias que passam escuros e falecidos. Gasto o tempo no mal de amor e não tenho mais forças para sentir saudades. Vivo a condição entre a vida e a poeira, como encontro em Américo Conte, “... O que faço sem você? / Os meus dias são de melancolia / e as minhas noites de martírios //... carrego uma angústia no peito / e um vazio no olhar / a procura da tua imagem / que vejo em tudo que é lugar. / E assim me arrasto pelo mundo / magoado com esta vida / que me alijou do teu aconchego / e me fez perder o gosto de viver”.
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sábado, 6 de maio de 2017

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BREVE BIOGRAFIA DE UMA ATRIZ PORNÔ


As lágrimas transportam o inominável que sentimos em nosso interior para o mundo aqui fora. Poesia barata! Lembro que todos discutiam se o choro da Sinead O`Connor era verdadeiro ou mera simulação, no final do videoclipe de Nothing compares 2 U, mas as minhas lágrimas, na primeira cena que fiz, devem ter levado os homens que a assistiram ao êxtase oco da masturbação. Um carinha me disse que por meio da dor, sabia que eu não estava simulando, estava sentindo algo, mal sabe ele o quê...
Beleza, talvez seja o primeiro objetivo de toda mulher, ninguém que ser só aquela que é vista como amiga, imagina se a Cinderela fosse feia, estaria condenada a exploração da madrasta e das filhas dela. Mas quando se é bonita e pobre, isso pode lhe trazer alguns problemas. Com 12 anos, eu tinha o corpo bem desenvolvido, os caras de 16, 17 me olhavam, mexiam comigo, eu menina, não sabia da maldade contida no querer, me sentia importante, pois os meninos da minha escola eram bobos com aquelas brincadeiras de abaixar as calças uns dos outros, jogar bolinhas de papel, entre outras pérolas. Um cara com cigarro na boca, em cima de uma moto, no portão da escola, todas as meninas me invejavam, quando nos viam conversando.
Um mês depois de conversas, beijos e chocolates, no momento da entrada, ao invés de degraus que me levariam para a aula de Português, eu subi na garupa do Tuta (Até hoje não sei qual é o seu nome verdadeiro), nós fomos para a casa dele, já tínhamos nos beijado, antes eu já tinha beijado três meninos da escola, mas com ele era diferente, fiquei tonta, flutuando, ele me conduziu, deitamos na cama, depois de um tempo, ele tirou a camiseta dele e suspendeu a minha, bateu uma vergonha da nudez, mas prosseguimos até o inevitável, uma mescla entre prazer e receio que os toques dele despertavam no meu corpo, dor, dor, seguida de uma sensação que não sabia descrever.
 Depois de uma semana sem aparecer, me derreti quando o avistei de longe, caminhava com meu caderno, ele estava lá com sua motocicleta, cigarro na boca, mas foi frio, só me deu um beijo no rosto, eu esperava que ele pedisse para eu não entrar mais uma vez. Quando cheguei em frente ao portão, ele estava falando com outra menina, eu segui em frente com lágrimas nos olhos. Depois falei que estava passando mal, ligaram para minha mãe que veio com raiva me buscar.
Meu pai morreu quando eu tinha oito anos, mesmo jovem, minha mãe só encontrou um novo companheiro, depois de seis anos de luto. Ele trazia doces para mim, minha mãe voltou a sorrir, depois de seis meses de namoro, ele veio morar conosco. Num sábado, minha mãe foi fazer hora extra, acordei com ele na minha cama, com uma mão no meu sexo e o dedo indicador da outra em frente a sua boca, como uma fotografia de enfermeira no hospital.
Depois de quase um ano, resolvi contar para Dona Marisa o que seu marido fazia quando estávamos sozinhos, depois de ouvir meu relato, ela disse que eu queria roubar o homem dela. Fui embora, ou melhor, fui expulsa de casa, estava com 15 anos. Passei alguns dias vagando pelas ruas, num deles, uma mulher me viu andando pelo centro antigo de São Paulo, me pagou uma refeição, pediu para eu parar de chorar, me olhou nos olhos e disse que iria me ajudar.
Ela só não me contou o que eu teria que fazer para retribuir sua gentileza, como me passou um tutorial de como me portar com os homens de gravata e pasta, em carros bacanas que paravam naquela casa que parecia uma residência comum, lá eu e outras três moças pagávamos nossa dívida com Madame.
Era preciso encontrar uma cura para a dor, Emília e aquelas histórias que a professora contava com o pó de pirim-pim-pim, viraram fileiras de cocaína, eu mastigava com força o Visconde, Pedrinho, Narizinho e Tia Nastácia.
Recebi um convite de um dos clientes para fazer um filme pornô, ele me disse que eu poderia ganhar numa cena o que ganhava num mês inteiro. O sexo não tinha mistério, no estúdio havia três caras, perguntei com qual eu contracenaria, o diretor me disse que com todos, de uma só vez.
Eu tinha chorado a madrugada inteira, um vazio imenso que não ia embora, me sentia só no mundo, tinha que me virar, a grana estava lá, era só acionar o módulo dormente e depois pegar o dinheiro, eu nunca tinha feito com aquela quantidade de participantes, mesmo com lubrificante, estava sentindo muito dor, vinha sentindo incômodo nos programas daquele mês. Comecei com um deles, depois veio outro, eu disse que não estava aguentando, mas o diretor não pediu para que parassem, pediu apenas que eu suportasse mais um pouco, o terceiro rapaz ficou incomodado, também era novato no meio, não conseguiu ereção, de longe olhava passivamente, meus gritos que culminaram nas lágrimas menos importantes do que as da cantora irlandesa.


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