sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

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(RE)COMEÇAR


   Erramos o caminho no começo
   fomos em frente sem destino
                 qualquer trajeto nos serviria
   (mesmo) errado como vimos adiante

   sem passagem
   sem paisagem
   sem paragem
   e paradeiro

   água escassa
   animais famintos
   dores pelo corpo
   malditos insetos

   tentamos voltar por onde fomos
                    erramos o caminho
            não estávamos perdidos
        (apenas) não havia sentido
              retornar seria o destino.

   (Pedro Du Bois, inédito)
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

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HISTÓRICO


O histórico carrega
a nossa vida

organizada pasta
repleta de fatos
(ultra)passados

quem somos
desde o início
o que fomos
nos últimos tempos

traz espaços em branco
onde poderíamos colocar
quem nunca somos: talvez
a verdade da nossa vida.

(Pedro Du Bois, inédito)
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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

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Sonhos Desfeitos


Sonhos que se escoam
 Pelos vãos dos dedos,
 Tristezas que se eternizam
 Em um padecer sem fim,
 Deixam na alma a lacuna
 Que não se preenche
 e que fica eterna  no coração .

 São lágrimas que ecoam
 Dentro dos medos,
 E que na dor finalizam
 Dentro de mim,
 São como uma escuna
 Perdida num mar imenso
E que se perdem na emoção

Quando as lágrimas descem sem sentir.

sem nenhum esforço,

São aqueles momentos que só o abraço

O amor e o carinho

Me faz novamente sorrir

E me entrego em oração.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

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ERRO POR MEDO OU TENHO MEDO DO ERRO?


          Erro por medo ou tenho medo do erro? Na dubiedade reside o medo como palavra significativa, até que eu tenha o controle dos sentidos e do ato. Pedro Du Bois escreve que “O erro e o medo andam / juntos nos procuram / em ambientes escusos / erramos por medo / e temos medo do erro //... juntamos o medo ao erro no que repetimos / cada vez que procuramos consertar os erros / e não morrer de medo.”
          Saliento que o mundo, como o vejo, se apresenta em “loucuras” diárias e sensacionalistas, o que me assusta. As pessoas com passos rápidos passam de suas vidas diárias para a solidão, ao se distanciarem do caminho da chegada. Receio que o medo está instalado.
          Vejo provocações sem bloqueios, sobre vidas machucadas através de histórias erroneamente contadas como verdadeiras. O desatino pelo dinheiro. O que me remete ao medo, no momento em que escuto a música me tornar passado. Tento gritar para não me sentir presa em mim, escondida no rosto rasgado em vidas consentidas. Não tenho a verdade do mundo, mas, a angústia no silêncio que me amedronta.
          O medo simboliza, em mim, o fim do caminho na descontinuidade dos sentidos; a escolha escondida da verdade e o ciúme acabando com os minutos de lembranças, onde meu coração arteiro costumava brincar de viver.
Miguel de Cervantes escreveu, “O medo que tens – disse D. Quixote – faz, Sancho, que não vejas nem ouças direito, porque um dos efeitos do medo é embotar os sentidos e fazer com que as coisas não pareçam o que são...”
          Por ter medo do erro, desisto dos sentimentos e fico frente à visão do horizonte, em movimentos desordenados; choro quando o dia começa. Como expressa João Guimarães Rosa, “... um medo constante, acordado e dormindo, anoitecendo, amanhecendo.”
          Tem horas que meu erro me cala ao demonstrar o meu desassossego ao espiar, pela cortina da janela, a vida contida em que me aprisiono pelos ciúmes na vida revolvida.
          O medo atrapalha o meu sono e, ao mesmo tempo, me faz desperta diante da vida. Escuto murmúrios na minha cabeça e vejo folhas secas, fosse o medo no relacionamento escurecido pelos ciúmes. Nas palavras de Pedro Du Bois, “Teceria o pano / em que guardaria / suas vergonhas // fosse o linho cru / fosse o algodão cru / fosse o corpo nu // ... a vergonha restabeleceu a verdade / dos medos e das vontades / que nos acompanham.”
          Sou feita do medo opaco, no descompasso do que não entendo: erro por medo ou tenho medo de errar?

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ESTÁTUAS


Mostravam o caminho na ponta dos dedos
apontavam a estrada e diziam por ali
chegarão ao deserto de pessoas arenitos
e encontrarão a cidade de concretas pessoas

não havia alegria no que mostravam
olhavam para trás como a dizer voltem
retornem seus caminhos de vinda
não se curvem ao desconhecido
- mesmo que novo - fiquem
com o que tiveram em vida

avançamos desprezando os sinais
focamos os dedos assinalados
em lugares descobertos ao acaso
teríamos o encontro e desmoronaríamos
estátuas de areia sob a água

eram estátuas os homens arenitos
eram concretos homens as estátuas.

(Pedro Du Bois, inédito)
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domingo, 19 de janeiro de 2020

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COMPROVANTES INCOMPROVÁVEIS




Simples. Mais simples, impossível. Forjamos uma pane no sistema de armazenamento de dados do banco e botamos a culpa num hacker que invadiu o nosso Data Center e apagou tudo. Chamamos a imprensa e fazemos um belo barulho em torno da coisa. Depois solicitamos aos clientes os comprovantes de depósito das aplicações - para que possamos reconhecer e autenticar os investimentos feitos. Usaremos como argumento a necessidade de comprovação da parte do investidor, já que a nossa documentação terá "se perdido".

Quem tiver salvo os comprovantes em PDF no computador, estará também a salvo. Agora, quem confiou no comprovante físico, em papel termossensível (também conhecido como papel térmico, aquele que o caixa entrega grampeado no documento) se verá em péssimos lençóis. Como quase todos os pequenos aplicadores enfiam tudo em uma gaveta ou pasta, sem se preocupar em escanear e guardar uma cópia que se mantenha legível ao longo do tempo, o prejuízo afetará milhões de indivíduos. Especialmente os mais incautos, que desconhecem o risco que correm e costumam fazer a transação na boca do caixa.

Toda a Diretoria sabe muito bem que, dependendo das condições de luz e calor em que forem armazenados, estes comprovantes são legíveis por um prazo que varia de alguns dias a no máximo poucos meses. Jamais aos cinco anos exigidos geralmente pelo fisco.

O inventor desse negócio devia estar a serviço de algum banqueiro, não há outra explicação possível. O papel térmico parece ter sido  concebido para que aconteça exatamente isso. Não dá para entender como a legislação que rege o setor bancário substituiu a boa e velha autenticação mecânica por esta tecnologia tão frágil e sujeita a fraudes. Ganharemos milhões, juridicamente amparados. 

É claro que, no fim das contas, passaremos por bonzinhos - pois devolveremos o dinheiro. Vamos deixar por uns dez anos o processo se arrastando na justiça (as ações judiciais dos investidores contra nós, do banco). Aí então proporemos um acordo, assumindo o "desastre" da pane do sistema como responsabilidade nossa e sugerindo o pagamento do montante investido com juros de poupança. Os investidores, que a essa altura já estarão dando a demanda por perdida, aceitarão aliviados. Só que até a homologação do acordo nós já teremos multiplicado esse dinheiro por vinte, oferecendo empréstimos ao mercado a juros escorchantes.

Simples. Mais simples, impossível. 


Esta é uma obra de ficção.
© Direitos Reservados
Imagem: https://tabscanner.com


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sábado, 18 de janeiro de 2020

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FASCINAÇÃO


Não me convidam para a viagem
nem faço companhia a quem fica

sou sozinho entre sair e ficar
sou aquele que sai sem ficar
                         e fica ao sair

nem lá nem cá
sou fechado em mim
nos sons externos
e murmúrios internos

de tudo dou ciência
de todos sou constante

a viagem não me fascina
quem fica não me fascina

o interior é fascinante
e me pertence.

(Pedro Du Bois, inédito)
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