sábado, 18 de novembro de 2017

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POR QUE NÃO O JALECO BRANCO NOS BONECÕES DE AR?




Sabe aqueles bonecões promocionais de ar comprimido, que ficam de chamariz na frente de alguns comércios de bairro? Estou pensando em colocar um na calçada do meu consultório. De jaleco branco e estetoscópio no pescoço, simpaticão como ele só. Não ria, por favor. Eu nunca falei tão sério.  

Com essa crise mais crônica do que todas as piores doenças juntas, precisamos sobreviver da mesma forma como sobrevivem quaisquer outros honestos e bem intencionados prestadores de serviços. A diferença entre um excelente médico e um ótimo mecânico, além do desnível social normalmente observado, é que a nossa "rebimboca da parafuseta" fica dentro de um organismo, e não em um motor. E quem é bom no trato de rebimbocas orgânicas tem mais é que se valorizar e buscar a merecida visibilidade. Sem dramas de consciência. Temos de disponibilizar nossos préstimos de maneira não apenas objetiva, mas também original. Cada vez mais original, se quisermos nos destacar em meio a um imenso e competente exército de bons profissionais labutando por um lugar ao sol.

Já comentei com meus colegas sobre esse projeto. Alguns deles falam em agressão à ética médica, consideram a ideia aberrativa e promocional demais para a natureza da nossa profissão. Mas argumento: o fato de ter um bonecão de ar comprimido em frente ao meu consultório me torna um profissional menos sério, menos qualificado ou menos comprometido com a idoneidade no exercício do ofício?

É muito bonitinho e elegante uma plaquinha discreta, em aço escovado ou vidro jateado, na recepção de uma clínica projetada por escritório de arquitetura. Concordo que é bem mais "clean" e condizente com a nossa nobre atividade. Só que é quase inútil, não cumpre a função de sinalizar e divulgar. Ninguém acha estranho um imenso muro pintado com "Funilaria do Tião - a 200 metros" e com uma seta vermelha apontando a direção do estabelecimento. Mas se eu coloco uma tabuletinha de nada escrito "Psiquiatra - logo ali", vão querer me internar. E a comunidade médica da cidade vai entrar com pedido de cassação do meu CRM.

Entendo que o mesmo se aplicaria a outros profissionais da saúde, como os dentistas. Uma clínica odontológica poderia muito bem ter um molarzão de ar comprimido bailando pra lá e pra cá na fachada, com raiz e tudo, bem branquinho para chamar bastante a atenção. Ou quem sabe um sorrisão gigantesco, tipo aquele bocão dos Rolling Stones, porque é isso mesmo que as pessoas buscam quando vão tratar dos dentes. 

Nos Estados Unidos, é corriqueiro ver médicos promovendo verdadeiras campanhas publicitárias sobre seus serviços. Normal. Só que aqui é feio, apelativo, dá a impressão de estar se matando cachorro a grito. Mas, afinal de contas, de onde vem essa equivocada noção de que o nosso sapato branco deve ter sempre salto alto?


Esta é uma obra de ficção, não refletindo necessariamente a opinião do autor.


© Direitos Reservados
Imagem: afinflaveis.com.br


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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

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Receita para a manhã distópica

    
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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

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Notas para a viagem (card version)


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terça-feira, 14 de novembro de 2017

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100 sinal


   
Telesp em forma ::
enquanto isso, aqui na Terra
de mo rã do
pra cair a ficha

          
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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

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Medicina for all


    
Ricola de Paula, meu irmão na poesia, está de livro novo. “Sobre Tudo: tarjas bulas caixas e outros poemas sobre mim”, seu sétimo livro de poesia, foi lançado neste ano de 2017 pela Tachion Editora, de São José dos Campos, ISBN 978-85-65111-78-2, com 140 páginas.
   
Ricola é desses raros poetas de verdade, seus versos saem da cartola (que ele não usa) nas mais variadas espécies, todas elas animais. Outrora derrete as palavras em cria divindade pura.
   
Para começo de conversa, o simples título dessa sua nova obra já dá ideia do tamanho da encrenca: Sobre Tudo, ou sobretudo? Tarjas, bulas e caixas, serão remédios? Poemas sobre mim. Mas para a cura de quem: do autor, do leitor? Responda se puder.
   
O sumário (ou sumério?) traz os poemas organizados em cinco capítulos: Outros Poemas. Sobre Mim. Caixas. Tarjas. Bulas. E gostei do que Oswaldo Almeida Jr, escreveu no prefácio: “É assim Ricola. O homem da cultura urbana fincado como uma estaca no ambiente rural. Como se vivesse, ele próprio, ‘o fim da linha imaginária que separa os sonhos’”.
   
Enfim, um livraço para despertar, sair do torpor quotidiano. Abaixo uma prescrição minha, em doses homeopáticas, para os não-iniciados. Uma seleção de trechos dos meus poemas prediletos. Over top. Se for ler, não dirija.
    
-- Polar --
Extirpo
o que é podre
Do abismo fujo
enquanto posso
Não hesito
trans
flor
mar
pasto
em jardim
    
-- Poeminha --
Hoje sei que sou pequeno
Viajei no tempo
Ferraduras
Não me acostumei
matadouros
homens bombas
seguro de vida
respostas prontas
site de compras
Mas lhe asseguro
Difícil é descer a ladeira
com pedregulhos
Desligo tudo
Destituído do cargo
de coisa nenhuma
Durmo
depois assalto
a geladeira
Calado
Eu penso em escadas
Nas penas
que se desprenderam
das suas asas
    
-- Olhei para dentro --
Olhei para dentro e achei soluções
que desabrocham com um simples ato.
Com o desenrolar da língua
ao falar a frase, sim eu te amo.
Olhei para fora com outra lente
vi o fim e o meio de voltar
ao início da palavra amor.
Não me incomodo
Se meu sangue, células, poemas
multiplicam-se pelos cômodos
tronco, cabeça, membros
desta residência frágil e humana
onde minha alma insiste em habitar.
    
-- Residência humana --
Sobre tudo
amor é alquimia
Transmuta
Aumenta nossa vibração.
    
-- En ciclope dia --
Ontem era unicórnio
Se bobear
Hoje mula sem cabeça
Conhece a ti mesmo e não se engane
O resto é dialética ou imagens distorcidas
    
-- Quando você transbordar --
Transbordaremos juntos
como o Rio Buquira
que vaza e se esparrama
por pastagens e várzeas.
As ingazeiras arqueadas
tantas garças boiadeiras
outros pássaros em fuga.
Mourões submersos
Vacas nos atoleiros.
    
-- Cartilha da psicodelia --
O outro vulgo marvel
Atalaia centauro
Mestre do imprevisível
O que azara as trutas
Dorme pelado na gruta
Tem ciência dos seus pe(s)cados
    
-- Metalquemia --
Leva consigo espectros da morte
(foice) o medo, o lince dos apegos
O choque com o morcego
Aceitar, redimir, retroceder, perdoar
Palavras chaves, transformadoras
chicoteiam amiúde o ego
    
-- Relax ou esculacho --
Tá na veia que explode a capela.
Amarra seu destroyer na fivela.
Olha bem o seu presente paramilitante.
Bem alto “paranoid” é Black Sabbath.
Se seu amor for canino, fácil você cotrair raiva.
Todos de pedalinho na riviera dos enganos.
Praias de oil, sanguinolentas
na orla do stablishment.
Suco de etanol, pomada de tracajá.
Garatéias na espera
dos gordos agronegócios.
    
-- Esculax ou relax --
Quem muito mentex
qualquer dia vira fritex
Tá durex se rende a marmitex
E assim vamos na mesma vibe
de Indra e Agne
As palavras vibram no tambor
vibrax e fica relax quando
rachar o concretex
    
-- O que eu sei --
Presto-me a fazer versos
muita gente boquiaberta
por que não?
Fiz o inverso
na margem ou fora da linha
circulei por retas e planos
estorvo ciclone torvelinho
extasiado
normal rebelde ou maldito
filosoficamente estúpido
não é no final do mês passagem de ano
mudança de século
aniversário bodas lobotomia
que você deixa de ser poeta
    
-- Sobre mim --
Nossa azul continência
a simetria dos cristais de água.
Os assédios da metafísica
as pesquisas espaciais.
As mensagens emanando cura
terra, astros, e fases da lua.
O banhado
envolto em brumas
se oculta
na espinha dorsal
da igreja matriz.
    
-- Sobre mim --
Decretar um fim pacífico
a tantas guerras
que você trava consigo mesmo.
Canalizar energia mater.
Reconhecer vórtices
formadores de holocaustos
salas self tortura
repletas de baixa estima.
    
-- Sobre mim --
A terra gira.
Vórtice magnético.
Tropeço no amanhã
deixo que o sol
ressurja
mesmo que de soslaio.
A vida e sua parte elétrica
ligo o dispositivo.
Disposto vou vivendo.
Não desisto
demoro
na filosofia.
    
-- Tarjas mutantes --
Quando as luzes desaparecerem do céu...
Você pode desligar os impulsos
andar sobre os cacos das explosões,
conferir os danos nos estilhaços.
Corte a sílaba “bá" da palavra bomba
se ficar bom, olhe o mapa do céu.
Seu quadrado na parede,
moldura o tempo circular
Tempo perdido na curva
onde eclipsa os enganos.
    
-- Tarjas sulphurosas --
Quilômetros de sedimentos são depositados
nos tubos de ensaio das redes sociais.
Sei que emburreço neste carnaval de ofertas.
Esgotado saio antes do recuo da bateria.
Sicário não deixo rastro na cripta
do seu desleixo.
São tiras de papel de embrulho
papiro intrigo. Suavemente acredito
que torpes pombas sacio.
Um bom exorcismo abrirá
novos caminhos, água benta sanitária
dissolvendo ladainhas.
Segura na mão uma granada
Sentinelaaaaaaaaaaaaaaaa
A explosão dos significados
O refil da bagaça neném
A cuca já vem pegar.
    
-- Bulas sem lactose --
As tetas daquela jumenta
já não dão leite
Um dia foram úberes
Poesia fervente láctea
O arco e a rabeca
o sol ainda castiga
A mesma nota dó
ronda a caatinga
Repetida no pífaro
inicia a cantiga
No final do arco-íris
um saco de confeitos
cactos amanteigados
    
-- Bulas com inspeções no controle de qualidade --
Rezo pela bondade
que emana dos seus atos
por palavras sinceras
que sempre hão de brotar
como relâmpago no silêncio
da sua boca
Rezo por quem jogou
seu manto azul-estrelado
sobre nós
Equilíbrio
e perdão sincero
permitam
que a consciência
iluminada
possa reinar
    
-- Bulas para ninar monstros --
O melhor de cada um
(mesmo que você não veja)
repousa
no ventre da bondade
onde começa
o fraterno ser
Acho que o conteúdo seria
 – Impróprio às 18 horas –
às 19 horas chove
e poderemos
felizmente gritar
palavras de amor na chuva
Incitar o amoroso
premia a todos
salva a todos
lava a alma
    
-- Bulas encabuladas --
Ao entregar minha inteira pessoa
pude assim conseguir bons feitos.
Benefícios, religare, bons escritos.
Apesar dos calos e digitais gastas
me parece que nessa vida as coisas
sempre carecem de um bom polimento.
Os riscos e o embaço desaparecem.
Com um toque hábil
delicado
surgem novos cristais.
Novo brilho, novas facetas
o processo aplicado
beneficia
a todos
os seres vivos.
Vamos lentamente
morrendo aos poucos.
    
-- Bulas de coisa nenhuma --
espreguiçar
o gozo o êxtase
o santo gostinho
cruz invertida nas argolas
os escolhidos
que cessem a dança das cabeças
que cessem o acesso a falsa salvação
os peixes não estavam na arca
   

   
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domingo, 12 de novembro de 2017

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MOMENTO - JANDIRA ZANCHI

Ilustração: Rachel Baez


sequei os cadernos e o tempo
quase verdes nesse sonambulismo agridoce
- verde rosa é uma cor de esquecimento –
um resumo das palavras e das anáguas
perdidas rememoradas no fastio de um aprendizado
mensurado  de fatos e sentimentos
- pressentimentos de madrugadas inconscientes -

é no vôo rasante das imagens e divergências
que construo esse aeroplano de saltimbancos
 – um pouco mancos –
pomar de delírios e fastios
 ........horizonte de planos e rasantes

mas, presumam, esqueço – benção – as retas e curvas
de conceitos preconceitos desejos percevejos
e retomo - costuro configuro arremesso -
no alvo calvo redondo esplendido do rococó de aconchegos
fadas e sapos e lagos e mármores – aves – interiores protetores

e , forma-se, nesses relentos, a alma figurada e desejada

é branda e cheia de arabescos
fluindo em uma aldeia e na paciência


ciência de si e do momento – esse brando vento.


JANDIRA ZANCHI (Luas de Maçã, inédito)
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sábado, 11 de novembro de 2017

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HOMENAGEM À VÓ TINHOCA




A Vó Tinhoca era uma velha muito da xexelenta e da maledicente. Do tipo ranzinza que ronca e fuça, que estorva e bisbilhota onde não é chamada, onde não é desejada e muito menos útil. Seria em seu tempo o que hoje designamos “mala”. Uma mala gasta, feia e abarrotada de tudo o que possa existir de odioso na face da terra.

Nascida Antônia Leocádia di Piero Vantruz, nossa homenageada viveu 97 longos anos a serviço único da fofocaiada rasteira, incumbência a que se entregava com prazer e sofreguidão. O boato era sua vida e sua cachaça, e a esse vício era de tal forma dedicada que abdicou de marido e filhos para fazer dele o seu sacerdócio.
Filha de Maria, ostentava uma beatice de fachada, mas que lhe valia certo verniz de honorabilidade e lhe franqueava o ingresso a alguns salões mais exclusivos e bem frequentados, de onde retirava valiosa matéria-prima para produzir injúria.

Não obstante a manipulação sacrílega que fazia da religião, tinha lá seus santos no oratório doméstico, e era bom mesmo que tivesse para se aliviar de tantas e pesadas culpas. Mas quem conheceu a velha a fundo jura que ela abusava de São Tomé e de São Jorge para coisa bem diversa da remissão dos pecados e do alívio da consciência. Na verdade, apoquentava as figurinhas de gesso com promessas para descobrir segredos de alcova da vida alheia, escândalos iminentes, calotes insuspeitos, amores clandestinos, passos em falso de figuras ilibadas da sociedade jacutirense. A delícia da desdentada era dar com a língua na banguela, destilando febrilmente seu veneno nas casas de comadres, em infindáveis diz-que-diz-ques guarnecidos por suspiro e suco de pitanga. A velha era uma “véia”, e é preciso que se diga que entre velha e “véia” há uma colossal diferença de sentido. Quem é da região do Vale do Jequitinhonha, berço e túmulo de Tinhoca, sabe bem do que estou falando.

O fato é que nossa heroína ia aniquilando reputações de casa em casa, os olhos esgazeados e a boca murcha, com batom fora do contorno, tremendo de gozo a cada vez que explodia a “bomba” da ocasião no ouvido alheio. Feito o serviço, ria seu riso rouco e desafinado de bruxa da carochinha, sacudindo os peitos derrubados debaixo da papada gorda e cheia de dobras.

Tamanha era a ânsia em passar adiante a fofoca fresca que ela, com a jugular pulsando e a respiração entrecortada, respingava doses cavalares de saliva sobre o ouvinte, o que lhe granjeou, além da mais do que justificada fama de candinha, a alcunha de “Tinhoca Chuvisco”. Dependendo do teor da novidade, Tinhoca era um verdadeiro aspersor, capaz de estancar a seca do sertão com meia hora de mexerico.

Dito isso, você, leitor complacente, me pergunta: “Sim, mas e daí?”
E daí que era só isso o que eu queria, pintar um retratinho pálido e despretensioso da velha Tinhoca, essa verdadeira indústria de calúnia e difamação. E homenageá-la falando um pouco mal dela, que é o que ela mais gostava de fazer com todo mundo. Mas, pelo amor de Deus, que isso fique só entre a gente, heim? Não vai espalhar.

© Direitos Reservados

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