sábado, 22 de junho de 2019

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TERAPIA DE VIDAS FUTURAS




É de praxe que todo analista tenha, ele mesmo, um colega que o analise para manter em condições razoáveis sua saúde mental e emocional. Foi numa dessas sessões profiláticas que o Doutor Zózimo relatou o absurdo.

- Estou com um problema gigantesco no consultório. 

- Grande novidade. Estranho seria se não tivesse, eu tenho vários aqui no meu. Chora aí.

- Uma paciente, já tem uns seis meses que está comigo. Quando eu boto ela em regressão, vai direto pro futuro ao invés de voltar. Te juro pela minha mãe, sério mesmo. 

- Explica melhor isso, por favor.

- Terapeuticamente, faz todo sentido o paciente voltar ao que já viveu, para tentar sanar o que tá lá atrás, mal resolvido. Independente de se acreditar ou não em reencarnação. Agora, ir daqui pra frente, não tem serventia nenhuma. Pelo menos para mim, que tenho como abacaxi  pra descascar a pessoa que está aqui e agora no meu divã.

- Discordo. Você ouvindo e anotando tudo o que ela disser que está vivendo lá na frente, vai te ajudar muito a corrigir rotas na conduta terapêutica que você adota hoje. Imagina ter acesso agora ao resultado do seu trabalho. Isso é maravilhoso, pensa bem!

- Deixa ver se eu entendi o seu raciocínio. Se a minha analisada parecer feliz lá no futuro, eu não mexo no time que está ganhando. Mas se estiver com uma pedra pendurada no pescoço, pronta pra se jogar das Cataratas do Niágara, eu posso pelo menos procurar impedir que isso aconteça. 

- Bem por aí. Ao invés de regressão a vidas passadas, progressão a vidas futuras. Olha que maravilha...

- Não brinca com coisa séria.

- Ninguém tá brincando, colega. Bem que eu queria ter na mão um paciente assim. Que experiência fantástica. E o que rola nesses relatos futuristas?

- É cada coisa que nem te conto. Foguetinho nas costas movido a urânio, bundas perfeitas, ereções perpétuas, jantares e almoços em pílulas, jornadas de duas horas de trabalho por dia, quatro ou cinco robôs dentro de casa, corações de aço inox...

- Tá de sacanagem...

- Tsc tsc. Tô não. Mas parece que tudo isso não dá conta do vazio na vida das pessoas, sabe? O mundo virou uma Noruega, um imenso Canadá, qualquer Zé Mané tem tudo. Aliás, não existe mais Zé Mané e ninguém precisa batalhar pra conseguir porcaria nenhuma. O Estado provê. O dia a dia é previsível demais, sem sal, um tédio. 

- E ela continua em tratamento, em 2.120 ou sei lá quando? Digo isso porque, com coração de inox e tudo mais, é provável que vocês dois ainda estejam em plena forma.

- Não sei. Até tenho curiosidade de conduzir a paciente por aí, pra ver se descubro alguma coisa. Mas ao mesmo tempo dá medo, né? Tô sabendo lidar, não. Se me descubro morto, mesmo que em 2.120, não vai ser propriamente uma experiência inspiradora. 

- Já eu não tenho medo. Se puder, pede pra sua paciente me mandar notícias minhas.

- Então, como te disse, não me interessa saber o que me espera nem na próxima meia hora. Mas de você, lá no futuro, eu já descobri alguma coisa.

- Conta!

- Nem sob tortura. Eu respeito o sigilo profissional. 




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quinta-feira, 13 de junho de 2019


Continuando o que dizer.

Na sua luta contínua no que dizer, tomou o livro iniciado e abriu na página marcada. Leu por infindável segundos de momento palavras que o escritor achou no fundo do ser. Uma por uma das palavras seus olhos passearam na certeza de compreendê-las integralmente. No entanto, e sem perceber o livro escorregou de suas mãos para o chão frio de piso seco e duro. E o pequeno volume de capa leve e suave permaneceu contemplando-o enquanto caia numa pequena e profunda sonolência. E de dentro dessa sonolência profunda e pequena, viu-se caminhando a esmo, sem destino, livre e espontâneo.
Na sua luta continua no que dizer, apanhou o livro do chão, meio que assustado por ter caído na sonolência pequena e profunda. Esfregou os olhos, esticou os braços num espreguiçar alongado e sorriu para a manhã que, clara, inundava a sala quente e quieta. Precisava agir para ter o que dizer. Precisava criar momentos para justificar-se vivo, de possuir integridade acima de qualquer suspeita. Precisava sair. Foi o que fez.


pastorelli  


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domingo, 9 de junho de 2019

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DIÁRIO DO NÃO VIVIDO



Se fosse só registrar em um diário o que aconteceu, para que conseguisse me recordar depois, seria fácil. O problema é que, ao ver o registro dos fatos, aquilo não passa de um amontoado de palavras sem sentido ou correspondência com a realidade. Com a minha realidade, pelo menos. A intenção de anotar para lembrar se perde.

Seria preciso conceber algo que me lembrasse de lembrar que o que escrevi no dia anterior realmente aconteceu, por menos que me recorde de ter vivido o relatado. Ocorre que, conforme vou relatando, ao mesmo tempo já vou esquecendo o que escrevi na linha imediatamente anterior. A perda da memória faz apagar não só as recordações mais antigas, mas some igualmente com o minuto que acabou de passar.

A inclusão da data, com o dia do mês e da semana, também de nada adianta. Isso porque ao ler, por exemplo, a anotação "Quarta-feira, 23 de setembro de 1987", me pergunto o que vem a ser "quarta-feira", "23", "setembro" e "1987". Ainda que, no meio desse vácuo, às vezes ocorram alguns instantes de lucidez, onde recordo que "23" é um número que sucede o 22 e precede o 24, que "setembro" é um mês do calendário e que "1987" é o ano seguinte ao fiasco mundial da passagem do Cometa Halley pelos arredores do planeta. Esse momento, em que tudo se esclarece e ganha significado, dura coisa de 15 segundos ou menos, até que a mente volte a cair no branco anterior, no vácuo permanecendo pelas duas ou três horas seguintes.

Esses três parágrafos foram redigidos em um lapso de lucidez, e sei de antemão que daqui a pouco não significarão mais nada. Ajude-me, se puder.






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quinta-feira, 6 de junho de 2019

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A TÉCNICA DE FICAR VULNERÁVEL E ATENTA





O próximo instante é o desconhecido, com essa música clariciana agitando as cordas tendíneas deu o primeiro passo sem fazer caso de qualquer direção a tomar. Assim seguiu até quando começou a se perguntar pelo ritmo circadiano dos girassóis.

– Não é curioso que os organismos se adaptem às mudanças diárias da luz? – pensou equilibrando entre os dedos o alboroto de uma imagem que não se formava. Na verdade, se adaptam aos que os especialistas chamam de agente sincronizador, que pode tanto ser a luz, como a água (marés), o ar, etc., ou seja, qualquer elemento que tenha a força suficiente para compor uma ritmicidade entre as forças heterogêneas de um espaço (o espaço é uma molécula de sensibilidade). Que a vida tenha uma estrutura cíclica não quer dizer que ela seja igual a cada dia, porque o que se repete é o movimento de diferenciar; girar é abrir um tempo-aqui, tempo que vibra em torno de sua fissura, tempo-espaço descosturado das origens, original.
– Dar o primeiro passo é esquecer o caminho – disse ela sem saber em que comprimento de ondas acomodar as palavras – começar é eliminar todos os pressupostos; começar emerge de um ponto cego onde explodem os nomes e as coisas exigindo que o pensamento estenda um território além daquilo que se sabe; caminhar é o delírio do passo, do limite, é uma desmesura. O traço, o rastro da vista faz visível e deixa invisível o gesto e a gestação – foi o que ela conclui ao perceber que havia chegado no alto de uma montanha. Sigo algo que há que criar e que nomeia um processo – completou como maneira de encarar a beleza vegetal que enroupava as pedras do espinhaço. O vento pousou nos seus cabelos desenhando redemoinhos perfeitos: ciclos abrindo outros ciclos, circulação, fluxos. Será que dentro de um milhão de anos se poderá ver o ventre mole e fluido que sustenta a carcaça geológica das rochas?  - insistitiu, olhando com muita ternura o pigmento amarelo depositado na passagem de insetos, bactérias e fungos pelos limbos das folhas.
Quando a ventania agita a folhagem é possível acompanhar a oscilação da vegetação entre um fechamento territorial e uma abertura cósmica (dualidades ondas-partículas simultaneamente dadas). O produto desse mecanismo não é manipulável, é a pulsação das coisas, a malha sensitiva do movimento. Cada fenômeno, diz Simondon, é uma exigência de manifestação amplificante no qual cada realidade local se comunica com o universal, no qual cada instante é a origem de um eco que se multiplica diversificando-se. O próximo instante é o desconhecido; átomos de sensações que latejam provocando perturbações nas realidades, comunicando o impossível. Esse lugar é tão antigo que me dá a impressão que é a primeira que vez estou aqui: um tempo nascente que se extingue sem esboço, sem descrição, sem conhecimento, nos polirritmos caósmicos do momento, hic et nunc – foi o que ela acabara de aprender, ali, de pé como um talo de girassol diante da montanha descomunal, corcunda, ancestral, inaugural, sensível e atenta à alegria infatigável do vento que faz retornar o incógnito sopro dos astros e dos magmas. 


Este post pertence ao projeto : Um diálogo entre uma imagem criada por mim (Fernando Rocha) e um texto literário. O texto foi criado por Carla Carbatti, que em suas próprias palavras é: sou qualquer carla, como tantas Carlas que há, filhas de Marias. nasci onde brilham as estrelas de Três Pontas e jorram luz até BH.  disse amor e atravessei o Atlântico.  hoje habito um Campus Stellae. amo, amo demasiado duas menininhas de olhos acastanhados, mais brilhantes que o sol. nos feriados solto pipas e escrevo com todos os átomos. nos dias de feira faço um mapa losing stepsdas heterotopias de Clarice, pra isso que chamam de tese, mas eu chamo mesmo é de saltar no abismo com um verbo infinitivo nos lábios ...

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domingo, 2 de junho de 2019

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DEU PAU NA IMPRESSÃO!




Embora ainda em fase de pesquisas, a próxima novidade tecnológica da impressão 3D promete revolucionar o que entendemos como vida e seu até agora inexorável processo de nascimento, desenvolvimento e decadência: uma impressora que, a partir da amostra de DNA, reconstituirá entes queridos e animais de estimação já falecidos. 

Se concretizada a novidade, prevê-se que cada vivente traga de volta pelo menos quatro defuntos mais chegados e dois ou três gatos e/ou cachorros. Como consequência, cemitérios serão extintos e em seu lugar poderão ser erguidos milhares de empreendimentos imobiliários.

Já conhecedoras das novidades no horizonte, marcas de renome da construção civil realizam testes com impressoras de enormes proporções, capazes de erguer um prédio comercial moderno e sustentável em apenas dois dias e meio. O maior empecilho até o momento é que, para imprimir um prédio de 20 andares, por exemplo, a impressora precisa ser dez vezes maior que a obra a ser impressa - o que significa a necessidade de desapropriação de bairros inteiros para acomodar a geringonça, inviabilizando o empreendimento. E mais: ainda que houvesse área suficiente para estacionar a impressora junto ao canteiro de obras, como fazer para transportar esse colosso até lá?

Ciente da limitação, o governo norte-americano acionou a NASA para que avalie a possibilidade de estabelecer, em Júpiter, um polo avançado de fabricação de impressoras 3D de grande porte e livres da ação da gravidade, de tal maneira que possam flutuar acima da obra, da fábrica de automóveis ou seja lá o que for que estejam construindo ou produzindo. 

Ainda no que diz respeito aos setores da construção e da produção industrial, chefes de estado e analistas econômicos profetizam um paradoxo de difícil solução. O processo de ressuscitação de mortos acarretará um impressionante aumento demográfico, e o uso extensivo das impressoras como substituta do ser humano trará um surto de desemprego como jamais visto. Em decorrência, morrerão de fome tanto os desempregados quanto os mortos ressuscitados - que baterão a caçuleta pela segunda vez. E os cemitérios, recém-desativados, terão de ser reinaugurados ou implantados em outros lugares, uma vez que a área onde se encontravam já estará ocupada pelos empreendimentos. Como se vê, um problema maior que as gigantescas impressoras que a NASA estará produzindo em Júpiter.




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quarta-feira, 29 de maio de 2019


Pequenas histórias 337

Escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Screvo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Crevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Revo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Evo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Vo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
O escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Vo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Evo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Revo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Crevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Screvo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo
Escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo escrevo

Escrevo feito flecha: ao ser lançada não há como interromper a sua trajetória.

pastorelli

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segunda-feira, 27 de maio de 2019

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SEM VOLTA





I
– Antes da gente começar a regredir, relaxa totalmente o corpo, da cabeça aos pés, prestando especial atenção à musculatura dos ombros. Procura deixar tudo mole, como macarrão cozido, lembre-se disso. Se precisar ajeitar a almofada para acomodar a cervical, sem problema. Vê se está confortável.
– Ok.
– E tenta manter a respiração diafragmática. Caso possível, inspiração e expiração movimentando a barriga, não o peito. Tudo bem?
– Tá.
– Vai voltando ano a ano, aos poucos, sem forçar.

II
– Onde você está agora?
– Na casa dos meus bisavós… é esquisito ver tudo colorido e tão vivo desse jeito. Só vi aquela casa em velhas fotos pb.
– Se você parou aí, nesse lugar, algum motivo deve ter.
– Mas não pode ser… essa casa eu não conheci, como posso regredir ao que não presenciei? Eu não era nascido quando o casarão veio abaixo, o pouco que conheço de lá é por relatos de umas tias velhas.
– Não se preocupa com isso, não. Antes do seu horário eu regredi um paciente que foi parar em Constantinopla, anteriormente à tomada pelos turcos. Ou seja, ali por volta do ano de 1.300, 1.400 ou coisa assim… Começou a enrolar a língua, até entender o que estava acontecendo foi um custo.
– Não faz sentido.
– Já ouviu falar em terapia de vidas passadas?

III
– O cheiro desse bife grelhado na manteiga e do mingau de fubá. Eu nunca experimentei nem uma coisa nem outra, no entanto bateu agora uma certeza de que carrego esses aromas comigo desde sempre. Uma sensação estranha e familiar ao mesmo tempo. E tem um carrilhão que toca a cada quinze minutos.
– Fale mais, diga o que acontece por lá.
– Parece ser um dia especial, uma expectativa de festa ou algo parecido. Tudo tem uma aura encantada e absurda, os móveis, a prataria, os mortos tão cheios de vida. Mas o fato de estar fora de contexto é um incômodo. A impressão que tenho é que serei descoberto a qualquer momento. Serei desmascarado e puxado de volta aí para o consultório.
– Não racionalize.
– Minha bisavó está me segurando pelo braço. Trancou a porta da frente. Diz que não vai me deixar ir embora, de jeito nenhum. Que faz muito tempo que não apareço. Estou tentando escapar do abraço dela, não consigo… Ouço meu bisavô descendo a escada, também para me convencer a ficar, ao menos até a hora do almoço. Vem segurando um cálice de vinho do Porto. Apareceu um cachorrinho, de pelo curto e malhado, ele se enrosca nos meus pés.
– O que mais?
– Sons de cascos de cavalos. Deve ter um ponto de charrete aqui perto. Minha bisavó me aperta mais forte. Sinto seu hálito. A textura da roupa. Uma luz coada pelo vitral da sala…
– Sim? O que é que tem?
– Marmorizou tudo em volta de mim. Mármore branco, daqueles de escultura de cemitério… A porta da frente trancada. O abraço agora gelado da bisa, o gelo do mármore me prendendo, não consigo mais escapar.

IV
– Jaqueline, me ajuda aqui…
– Está sem pulso… acho que não volta mais.
– Faz o seguinte, pega um espelhinho na sua bolsa. Coloca perto da boca dele, se embaçar é porque ainda respira. Rápido!
– Nada, doutor.
– É. Vê lá na agenda os contatos dos parentes próximos.



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