sábado, 27 de agosto de 2016

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PORTAS

Portos
seguros
em si
abertos
aos barcos
que abarcam
suas águas
e deságuam
em línguas estrangeiras
                   o inteiro teor
                   em que estranhamos
                   a vinda
                   a vida
                   na ávida razão
                   para estarem aqui.

(Pedro Du Bois, inédito)
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ABRIDORES E FECHADORES



- Quando eu entrei por concurso no serviço federal, acumulava função. Olha o absurdo! Naquele tempo, quem abria tinha que fechar a porta também. Era uma escravidão, a gente ficava sobrecarregado. Depois de muita luta do sindicato, conseguimos criar a função comissionada de fechador de porta. Mas antes, não era mole. Tinha dia que encarava três, quatro maçanetas no horário do expediente. Dá pra imaginar? Chegava esgotado em casa, queridão. Só de lembrar daquela época, já me ataca a gastrite.

- Tenha dó, não queria estar na sua pele. Quatro maçanetas pra abrir num dia só, tem que ter Jesus na causa. É a treva.

- E além do desumano desgaste físico, já reivindicávamos mais segurança no desempenho da função. Isso sempre esteve na pauta da categoria. E convenhamos: nós, abridores, estamos muito mais expostos a riscos do que vocês, fechadores. É quando a autoridade entra em um ambiente novo que o risco é maior. Quando está saindo do recinto é tudo mais fácil. O evento, a audiência, a recepção ou sei lá o quê, já foi. É a hora da dispersão, se tivesse que ter algum atentado, já era pra ter acontecido. 

- Não acho, não. O risco é o mesmo. Nosso adicional de insalubridade tinha que ser igual ao dos abridores. Isonomia já!! E tem outra, que o senhor está esquecendo: o que mais acontece por aqui é reunião a portas fechadas. E aí quem tem que dar conta de hora extra atrás de hora extra, varando conchavo de madrugada sem pregar o olho, são os tontos dos fechadores. Vocês, abridores, já estão em casa faz tempo. 

- E a culpa é nossa? É o descanso dos guerreiros, meu amigo. Nós merecemos. Quantas vezes fizemos piquete na porta do Alvorada reivindicando puxadores de porta ergonômicos, para prevenir LER? E quantas vezes acampamos na porta da Presidência do Senado fazendo campanha pelo fim das portas automáticas, que tanto ameaçam o digno exercício da nossa função?

- E continuam ameaçando, né... Aquele senador, como é mesmo o nome dele? Vive falando lá na tribuna que a nossa função não tem cabimento, não tem amparo constitucional, não tem isso, não tem aquilo. Pois não é que o Dodô, o sub-tesoureiro do sindicato, levantou a ficha do bacana e descobriu que ele tem uma fábrica de sensores de presença, em Diamantina? Tá explicado o interesse do cara em querer acabar com a gente. Se ele ganha licitação pra automatizar portas, imagina quanto vai faturar só no Palácio do Planalto!!!

- Pensa que somos figuras decorativas. Imagina o Presidente da República, da Câmara ou do Senado ter que ficar abrindo e fechando portas por onde passa, e a vergonha para o país em ter essas imagens veiculadas pela mídia internacional! E no dia em que faltar energia elétrica? Serão centenas de portas que não abrem e  nem fecham.

- E nós, aposentados compulsoriamente, não estaremos lá pra resolver a parada. Aí sim é que eu quero ver!

- Não é só isso. Veja, por exemplo, a tal H1N1, essa gripe que vira e mexe ameaça todo mundo. Maçaneta de porta é um verdadeiro depósito desse vírus aí, e é mais um risco de vida que corremos. Tinham que criar a função de passador de álcool gel, para desinfetar tudo antes da gente chegar com a comitiva. 

- Escutou? Acho que estão batendo na porta. Será que tinha alguém escutando a nossa conversa?

- Abre logo de uma vez.

- Quem tem que abrir é você. Eu só fecho, esqueceu?





© Direitos Reservados

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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

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Pequenas histórias 239


Assustou-se

Assustou-se porque ao seu lado, o garçom com um bloco e uma caneta, esperava o pedido. Assustou-se, não esperava que fosse tão prontamente atendido. Olhou para o cardápio meio que indeciso. O que pediria? Olhou para cima. Viu a cara do garçom numa perspectiva estranha que, indiferente, apenas esperava. Ele estava ali para isso. Esperar demorasse ou não. Ele era paciente. Foi treinado para isso: ser paciente. Nunca se alterar. Nunca erguer a voz, estivesse ou não com razão. Aliás, ele não tinha razão nenhuma, só os fregueses é que tinham razão. Esse era o lema da casa, o qual foi extensivamente recomendado pelo chefe.
Assustou-se, realmente, tinha que se assustar.  Distraído, pensando na vida ou, como dizia sua mãe, pensando na morte da bezerra, não percebeu a aproximação do garçom. Assustou-se, pois ao erguer os olhos, deparou com a cara amarfanhada, uma cara de destroços esquisitos. Mas tudo bem fez o pedido com a voz empossada. Sentia um prazer em mandar. Pediu enfatizando cada palavra num deslizar de letras pronunciando-as bem devagar. Tinha gosto de se fazer notar que, ele, possuía mais educação do que o garçom. Este conhecia esses tipos de nariz arrebitado e que não tinha um cão para puxar pelo rabo, como dizia seu pai. No principio, quando começou a se aperfeiçoar como garçom, ficava de uma maneira irritado, depressivo, mas com o correr do tempo, não dava mais pelota. Desprezava todo e qualquer tipo de pessoas esnobes.
Entrou na cozinha. Passou o pedido para o assistente.
- José já tenho o prato pronto. Não quer levar esse?
José indiferente pegou o prato e levou ao freguês de nariz arrebitado.
- Com licença, senhor.
- Nossa que rapidez.
Assim que ajeitou tudo sobre a mesa, cordialmente perguntou:
- Mais alguma coisa, senhor?
- Sim, mais uma coisa, por favor.
- Pois não, senhor.
- Suma da minha vista, não apareça mais aqui, nem para trazer a conta.
- Pois não senhor, o senhor é que manda.
Suspirou achando-se livre do garçom. Desviou os olhos para o prato e já começava a saborear a comida quando, sentiu uma pancada na altura do pescoço. Um frio cortante rasgou de um lado para o outro a garganta. O frio invadiu suas células paralisando-o. Num esguicho o sangue inundou o prato, a toalha branca ao mesmo tempo em que o corpo caiu por cima do prato esparramando tudo.
Sem se perturbar com os gritos, a balbúrdia, arrancou a gravata borboleta, o paletó ridículo e jogou tudo em cima do morto caído sobre o prato. Sentindo-se aliviado, saiu do restaurante. Ao chegar à calçada, suspirou:
- Como seria bom se no mundo não houvesse pessoas como aquele desgraçado.
Virou à esquerda, se embrenhou na escuridão, enquanto ao longe se ouvia a sirene da policia.


Pastorelli
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domingo, 21 de agosto de 2016

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PAIXÃO

Na resposta
repousa impávida
a verdade

- tenho medo: reduzido
  ao pouco da pergunta

a morte silencia o corpo
na resposta abreviada pelo tempo

na tensão explícita
deixo de ouvir o arrazoado
da palavra apaixonada.

(Pedro Du Bois, inédito)
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quebra-cabeças

Yin:
           
 Yang:






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Pequenas histórias 238

O pedaço desceu


O pedaço desceu queimando numa explosão de dor e sabor. Xingava no silêncio das palavras. Cortou outro pedaço. Com o garfo e a faca conseguiu transportar da travessa para o prato. Assim que a massa envolvida pelo molho vermelho caiu no fundo do prato, se moldou envolvendo todo o espaço. Foi nesse instante, com a boca salivando, decepou um naco e enfiou na goela abaixo que, devido à quentura, não teve tempo de mastigar convenientemente. Engoliu. Fez careta para disfarçar a dor. Tomou um gole de cachaça. Foi pior. A quentura da massa e molho batendo com a quentura alcoólica, provocou um reboliço no estômago levando-o contorcer-se de azia. O amigo presenciando tudo isso, preocupado, perguntou:
- O que foi?
- Nada, apenas um conflito de sistema um não aceitou o outro.
O suor frio escorria por sua testa. Fez um esforço. Engoliu a massa. Respirou fundo. Sorriu um riso amarelo. Tombou em cima do prato cheio de lasanha esparramando molho na camisa branca do amigo.


pastorelli
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sábado, 20 de agosto de 2016

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MINIMALISMO É O MÁXIMO




Até outro dia restrita ao mundo das artes, aos poucos ela vem virando a palavrinha da vez, nas rodas e nas bocas de emergentes-celebration, aqueles descoladíssimos que conquistaram seu lugar ao flash.

Em mínimas palavras, o minimalismo é a doutrina que entende a felicidade do ser humano como inversamente proporcional à quantidade de recursos ou bens materiais que se possui. Ou, numa definição despojadamente simples, à moda minimalista: quanto mais se livra daquilo que tem, mais rico e realizado o bípede se torna. Só o elementar é bom o bastante. Tão somente o essencial, a plenitude da existência compreendida como algo beirando a imaterialidade. 

Por essas e outras diáfanas definições, conclui-se que só tem estofo cultural e filosófico para praticar o minimalismo quem já foi um dia "maximalista", quem já teve do bom e do melhor vazando pelo ladrão. O endinheirado que entre uma festa e outra, por algum motivo, desencantou-se com tantos e tão confortáveis latifúndios, coberturas e iates onde cair morto. É assim que o minimalismo se entende como escolha - um voto de pobreza, e não o infortúnio de tornar-se pobre. Vá perguntar a um miserável que dorme debaixo da ponte se ele é minimalista por necessidade ou por convicção, e saberá o que estou dizendo. 

O minimalista legítimo é o que se empapuçou de excessos, jamais o que não tem nada de nascença. Se acha cool vivendo com pouco mas mora no Jardim América, não em Belford Roxo. Escassez para ele jamais será privação; será clean. Excentricamente clean. No seu apê, há paredes sóbrias e monocromáticas sem quadro algum pendurado, mas o projeto é assinado pelo Sig Bergamin. Acelga e água frugalmente se equilibram no microscópico cardápio da semana. A acelga já chega picadinha pelo Pão de Açúcar Delivery, a água é San Pelllegrino.  

Ter nada é tudo. O ouro que fique para os deslumbrados, para funkeiro-ostentação, para os que nunca entenderão que esconder é bem mais chic e valioso que mostrar.


Foto: www.conceito.de
© Direitos Reservados

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