sábado, 23 de junho de 2018

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ALERTA: RICARDÃO À FRENTE




Pois então, veja como são as coisas. Eu era um daqueles sujeitos com colete refletivo e bandeira de advertência em mãos, à beira da rodovia, sinalizando desvio, obra ou acidente à frente.

Para quem gosta de trabalho metódico e 100% previsível, ganhar a vida fazendo o que eu fazia era estar no paraíso. Ou, pelo menos, na estrada que leva a ele. 

Mas nem tudo é perfeito. O movimento ininterrupto do braço direito chacoalhando a bandeirinha para cima e para baixo me presenteou com uma LER, depois de um ano e meio de serviço. Foram quatro meses de licença médica, e voltei à labuta com a recomendação do fisioterapeuta de não movimentar o braço, apenas deixá-lo esticado, pois o vento batendo na bandeirinha já bastava para a sinalização.

Um dia tentei variar o braço, empunhando a bandeira com o esquerdo. Mas aí me dei conta de que ficava de costas para os motoristas, o que me valeu uma senhora raspança do meu supervisor imediato. Disse na ocasião que a minha falta era dupla - de educação, por não ficar de frente para o usuário, e de amor à vida, já que não poderia enxergar e desviar a tempo de um carro que viesse em minha direção. 

Quinze dias depois, descobri o quanto aquela minha iniciativa de revezamento braçal tinha sido desastrosa. Era uma sexta à tarde, quando fui chamado ao RH.

Engrossando as estatísticas de 14 milhões de desempregados, me vi sem eira nem beira e muito menos acostamento. Desorientado, batendo perna a esmo atrás de colocação ou trabalho temporário, dei com uma placa de "Contratamos" na fachada de um velho galpão, onde antigamente funcionava uma fábrica de espoletas.

Ironia do destino: o barracão tinha virado uma indústria de "ricardões", aqueles bonecos que substituem os sujeitos que fazem o que eu fazia. Alguns empunhando binóculos, outros com bloquinhos de multa e boa parte deles com a maldita bandeirinha cor de abóbora, que ao ser despedido jurei nunca mais querer ver na frente. 

Não sei dizer se minha experiência anterior à beira da estrada colaborou para que conseguisse a vaga, mas o fato é que no dia seguinte estava a postos na linha de montagem de ricardões rodoviários, réplicas mal-acabadas de mim mesmo.

Até que ontem me apareceu para produzir um ricardão-supervisor, com roupa idêntica e fisionomia parecida com o carrasco que me colocou na rua. 

Não pude disfarçar um esgarzinho de satisfação no canto da boca. Tentei despedi-lo da minha cara, mas ele se recusa a ir embora.


Imagem: http://reflectivevestsindia.blogspot.com
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quarta-feira, 20 de junho de 2018

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Ratoeira



<< Ideia Divertida para Mouse Pad >>



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terça-feira, 19 de junho de 2018

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MOLDAGENS – JANDIRA ZANCHI





como quimera queimo rugidos de chuvas
e estico até um elmo – sem pares –
a sonâmbula crescente de crepúsculos

ofuscado o brado – quase tangente –
no vizir do espelho... carótidas de mel
melancolia?
atiram-se da nave e seu opúsculo
espreitando nascentes e suadouros

como se em ondas dementes
o destino se desprendesse do seu vácuo
quântico ou sintético ou cartesiano
ou fosforescente ou complacente ou...

das medidas que estendemos – ainda –
são curvas as moldagens e seus anseios

alongaremos essas vestes – nenhum pranto –
quase oratório o lamento
seco   secado   sacrificado
alienado

já não namoro os pingos de chuva e os telhados.

Jandira Zanchi (Área de Corte, Patuá, 2016)

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domingo, 17 de junho de 2018

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Second Nature



que plAntA é essA?
nO chãO, aO sOl
mEio vEgEtal, mEio animal
<< plAntA cArnívorA >>





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quinta-feira, 14 de junho de 2018

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am(or)ação


am(or)ação

           
Amor
Oração
Ação
Amação
quaternidade
poesia
física
quântica
tarot
two-of-cups
         
         
Numerologia: 10 palavras = 1 + 0 = 1 = Unidade = Totalidade

           
   
  
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quarta-feira, 13 de junho de 2018

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AMORES versus HORAS




“Felicidade se acha nas horinhas de descuido” (Guimarães Rosa)

                Cada um tem o seu momento de encontro com o amor e com a hora do que tem e quer para a vida, no significado da existência pelo sentimento. Como encontro em Oswald de Andrade, no livro Memórias Sentimentais de João Miramar.
                Amores versus horas constitui a inegável relação em que os anseios evidenciam o viver, o que nos permite ir atrás de respostas para superar o desafio sentimental. As horas seguem as dimensões da condição humana em seu dilacerante dilema: múltiplas trajetórias que o tempo imprime ao aflorar através dos sentidos, para não se desfazer dos momentos amorosos. Ruth Laus declara, “Nasce dentro de mim um tremendo duelo: o desejo persistente de ser amada e a incapacidade de me fazer amar”.
                A inspiração chega com a vida em suas múltiplas escolhas e, uma delas, é de que somos “donos” do tempo ao reforçarmos os atos de amor. As escolhas provocam expectativas que  provam ser a inspiração uma questão de atitude. Viver é atitude para recordar o merecido reconhecimento do amor, com licença para despertar no mundo em que as horas estão em nossas mãos. Mãos que tocam a alma na busca pelo equilíbrio do passado que dá lugar ao presente, não só na figura amorosa e carinhosa, mas que também é segura e decidida. Amores e amados se revelam na poesia, como demonstra Pedro Du Bois, “Amores //... bravo gesto alargado/ em verbos caricatos / de perfumes e cores // resta a palavra / na inconsequência / do dizer: cada passo / dado com você”.
                Acredito no poder das palavras para viver o amor; sentimento que é bem vindo em nossas vidas por nos deixar desfrutar um tempo de liberdade. É forma de presenciar a hora na fragilidade com que deve ser tratada: desejos, sentidos e sentimentos no relacionamento. Pedro Du Bois retrata, “carrego no pulso o relógio / que me aprisiona / em horas determinadas... // Na determinação do tempo em ponteiros de engrenagens. / Conduzo a hora despercebida”.
                O tempo ajuda a desfrutar o amor e reviver o passado e, ainda, cobra as relações e o tornar a sentir. Esse reverso nos leva a dedicar a vida ao outro como busca para incrementar as horas  e despertar alguma reação pessoal. É atitude que restaura os amores versus horas, como no romance de Saul Bellow, “Tudo faz sentido. Do passado obscuro ao futuro incerto”.


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sábado, 9 de junho de 2018

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FOTOGRAFIA





Faz frio, caminho olhando para baixo, tentando evitar o toque do vento em meus olhos, as lágrimas involuntárias afetam o foco do meu olhar. Por um momento meus pés parecem pertencer a outro corpo, vê-los assim, permite ao cérebro não senti-los como parte do todo que comanda.
Meu corpo agora imerso e acostumado à baixa temperatura integra a paisagem, o ar frio não respeita a roupa, toca a pele, levanta os poros. Escorre do nariz um líquido incolor e salgado.
No caminho sem destino que percorro, há uma casa de madeira, uma de suas janelas está escondida por uma pequena montanha de areia, uma menina solitária, por volta dos cinco ou seis anos, brinca com sua boneca, não, ela brinca com a areia, fazendo da pequena mão uma ampulheta e despejando grãos de tempo sobre o corpo do brinquedo.
Não domino seu idioma, mas isso não faz diferença, ela está calada, não percebe a minha presença, está inteira dentro do seu gesto, eu de longe, faço de sua ação também minha. Ela não usa blusa de frio, está apenas de camiseta e calça jeans, seu pequeno corpo nascido e acolhido no país de Dostoievsky, sente menos os efeitos temperatura do que o meu corpo tropical.
Seu rosto parece queimado, nesta hora meu astigmatismo é um inimigo da precisão. A menina está sozinha, mas não parece desamparada. Sentada sobre a areia, parece caber no Gênese, mas ao invés de barro e um sopro, ela tenta animar o corpo de plástico com os grãos que caem lentamente sobre o rosto de sua criatura.
Sinto ternura, esta coisa de gente boba, esta coisa que deixa a pele do corpo mais fina, mais vulnerável ao sentir da vida. Por um minuto penso se há alguém dentro da casa, alguém que possa acolhê-la se o mundo parecer grande demais, mas seu semblante me transmite concentração e tranquilidade.

Eu sigo em frente, penso que estou abandonando a pequena russa, mas quem segue procurando a comunhão do abrigo sou eu.   





Este texto é um diálogo, uma leitura da fotografia de Serguei Maksimishin.

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