sábado, 3 de dezembro de 2016

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Pequenas histórias 263

Sou o sonho



Sou o sonho das palavras que em teu corpo escrevo meus desejos Sou a escrita nas pautas brancas nos pelos do teu sentimento
Sou a voz nos escombros da cidade ecoando pelas esquinas soturnas
Sou a luz do cego trôpego perambulando nas sombras do teu corpo

Sou o doce sabor escorrendo nas curvas das tuas costas
Sou a língua perigosa lambendo teus meandros fabulosos
Sou os beijos lânguidos em teus pelos finos e sedosos
Sou o úmido tato a enroscar nos teus pelos pubianos

Sou o falo intumescido na tua carne febril de desejos
Sou o liquido da vida umedecendo teu interior de vida
Sou a paixão de corpos unidos no suor da satisfação

Sou o que nem sempre somos e únicos somos tudo
Sou o que somos encarando o nada de sermos nós
Sou você sendo eu num só momento de sermos únicos

pastorelli
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

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ENTREVISTA COM O POETA SÉRGIO ARAL


Sérgio Aral é paulistano, nasceu em 1968, ele é autor do livro de contos Até a esquina e meia-volta (VirtualBooks, 2010), também participou da coletânea de contos  Retalhos (Andross, 2007), o autor acaba de estrear na poesia com o livro Sobre Essa Esfera Suspensa (Penalux), este foi o mote deste papo.

Sérgio, há uma avalanche de autores precoces, alguns publicando com menos de 20 anos, comparado com muitos deles, podemos dizer que você estreou tardiamente, na literatura. Quais ilusões são/foram evitadas por ti em relação ao universo literário?

Acho bom ter sim ilusões em relação à literatura, mas manter os pés no chão é importante para poder enxergar com nitidez a realidade e evitar alguns desenganos. Cada um deve estabelecer seu objetivo. A proposta da Editora Penalux, com edição muito bem trabalhada e com tiragem adequada para o lançamento do livro e divulgação inicial, veio ao encontro daquilo que eu pretendia. Fiquei cinco anos sem escrever e, por isso, minha preocupação agora é colocar a literatura no bate-bate do meu dia a dia.

No primeiro contato com Sobre Essa Esfera Suspensa, um dos pontos que saltam aos olhos, são as epígrafes que usam versos de autores contemporâneos (Nathan Sousa, Valério Oliveira). Como a leitura dos poetas do nosso tempo potencializam a sua escrita?

Apesar da inegável qualidade literária com a qual esses autores nos presenteiam, o uso das epígrafes foi mesmo por uma questão de oportunidade. Estava lendo seus livros no período de criação ou revisão dos poemas. Se tivesse lendo Drummond, João Cabral ou Miguel Torga, talvez extraísse algo deles também.

Poesia mansa/ azul/ boa vizinhança/ cerveja gelada/ melhores amigos... por meio desses versos do poema Suposição, entre outros, podemos dizer que a poesia está à espreita, esperando para dar  o bote e florescer nas frestas do cotidiano?

Acho que sim. A maleabilidade da poesia não está só em sua forma. Na essência, ela também pode acariciar, espicaçar, surpreender. Sendo o cotidiano uma vertente torrencial para todas as possibilidades, como não aproveitar a chance para beber de sua fonte?
Nos poemas Diluído e Tudo há uma perfeita descrição daquilo que Clarice Lispector chamou de instante-já. A usurpação da noção de tempo é estética ou mística em sua poética?
Sinto-me feliz por essa alusão. Confesso que não tive essa preocupação na elaboração desses textos. Mas em Tudo (ou em quase todos) há mesmo uma inclinação mística.

As lacunas são retocadas/ com metodologia antiga. Sérgio, uma das características dos seus poemas é certo estilo lacônico. Como teve acesso a esta metodologia?

No início, meu propósito era escrever poemas de versos curtos, com duas ou três palavras, como por exemplo, se vê nos poemas Nadar no vazio e Magnética. Já tinha produzido vários poemas quando tive contato com o livro de Susanna Busato, Corpos em cena. Acho que este livro suscitou-me algo que contribuiu para continuar por esse caminho.

No poema Havia o tédio parece haver uma aproximação entre a criação do planeta e o fazer poético. Somente no tédio reside o poder de criação?

Ótima pergunta, que bem poderia ser um verso de abertura ou um desfecho de poema. Quando uma pessoa se sente entediada, há margem para reação porque o tédio é um quartinho de despejo, onde se deposita coisas que, naquele momento, não tem serventia. Se ao seu redor não existe nada que se possa aproveitar, você está num deserto. Eis o momento!

A divisão dos quatro capítulos do livro (Os ventos, Agulha vacilante, Rumos colaterais e Possível chegada), assim como alguns poemas, faz referência ao itinerário do humano dentro na Terra, conforme destacou na orelha Edmar Monteiro Filho, do nascimento à indiferença rumo à morte, a poesia é só uma distração no meio do caminho?

Já ouvi por aí que a poesia pode ser tudo: derrocada e libertação. Penso, então, que se tiver de ser apenas uma distração, que seja. Vejo pelo lado bom, pois alguém, de alguma forma, estará se envolvendo com a poesia. E lembrar do título do livro do Leminski, Distraídos venceremos, agrada ainda mais.
Existe possibilidade de fugir da ilusão que nos move a acreditar que tudo então será possível?

Acho que não, porque parece mais confortável ter uma saída de emergência sempre à vista, uma possibilidade de recomeço a cada frustração, do que não haver expectativa alguma.

Por que ler Sérgio Aral?


Apesar de conseguir despertar de um sono e retomar a aventura Sobre essa esfera suspensa, estou colhendo aos poucos os motivos para essa leitura. Certeza, pelo menos para mim, que a atenção dispensada pelo escritor Fernando Rocha já é um bom motivo.




Contato: sergioaral17@gmail.com

No facebook: /sergioaral.miranda






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QUIXOTE MODERNO S/A



- Recebemos uma denúncia de Quixote Moderno S/A, que o acusa de extrair mogno nativo para confecção de seus bonecos de ventríloquo.
- Ah, então foram eles... nada me espanta, vindo dessa gente. Essa Quixote Moderno S/A não tem autoridade moral para denunciar e nem acusar ninguém. Seu imenso latifúndio de geradores eólicos provocou uma catástrofe ambiental na região, e nada de punição até hoje. Teve até uma turma do Greenpeace fazendo protestos e se amarrando às hélices dos moinhos. Ou melhor, dos aerogeradores. Todos viram, deu no Jornal Nacional semana passada. E os responsáveis aí, soltos. Eles me perseguem porque um dos meus bonecos deu a entender, em um programa de auditório, que a Quixote Moderno é uma verdadeira desgraça ambiental. Depois disso eles botaram detetive atrás de mim, para flagrar qualquer passo em falso e destruir minha reputação. 
- O erro da Quixote Moderno não justifica a ilegalidade cometida pelo senhor. Essa questão não vem ao caso.
- Mas o meu delito é pequeno demais perto do crime ecológico deles. Para fazer seu fabuloso parque de 9.000 geradores, em duas semanas foram para o chão 5.700 hectares de mata que a natureza levou milênios para formar. Várias espécies de animais e plantas foram extintas e até o clima foi afetado por aqui. E vocês me enchendo a paciência por causa dos meus bonecos!
- Se tantas árvores foram derrubadas para montar o latifúndio eólico, por que o senhor não as aproveitou como matéria-prima de suas criaturas?
- Ah, então quer dizer que se eu me servisse das toras ceifadas criminosamente estaria tudo certo? Olha, na época da devastação eu até pensei em pedir um ou outro toco para a Quixote Moderno. Mas minha produção de bonecos é tão pequena, mas tão pequena que fiquei até envergonhado. Forneço meus bonecos para ventríloquos de circos, teatros e TVs de todo o Mercosul, mas mesmo assim são pouquíssimas unidades. O ventriloquismo não encanta mais as crianças de hoje. Sem falar que a Quixote Moderno só venderia aquela quantidade colossal de madeira a quem levasse tudo de uma vez, para desocupar rapidamente a área. E pagando uma fortuna, é lógico.
- Entendo o seu ponto de vista. Mas se por um lado eles exterminaram um patrimônio florestal enorme, por outro eles se redimem produzindo energia limpa, gerada pelo vento.
- O senhor está defendendo aqueles criminosos? Quanto é que está levando nisso, heim?
- Faça o favor de me respeitar, posso prendê-lo.
- Então, não perde tempo. Melhor me prender agora, porque se eu sair daqui vou correndo fazer dois novos bonecos de ventríloquo - um com a sua cara e outro com a cara do CEO da Quixote Moderno. E nem queira o senhor saber as falas que eu vou botar na boca de vocês dois!
- Ô Denilson!...
- Pois não, Dr. Sancho.
- Liga pra Quixote Moderno, diz que o homem tá aqui comigo e que eu estou aguardando instruções.
- Sim senhor, Dr. Sancho.


Imagem: mad-intelligence.com
© Direitos Reservados

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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

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UMA CARTA PARA TRUMAN BURBANK


Truman Burbank,
Não sei por onde tem andado, desde que deixou Seaheaven, já faz muitos anos da sua caminhada pelo horizonte, abriu um buraco no céu e partiu. Pensei que você faria como Roy, o replicante que invadiu a casa de seu criador para assassiná-lo. Pergunto a mim mesmo se encontrou Sylvia e a perdeu para a ilusão que tinha dela. Sob nosso controle as paixões são sempre melhores.
Penso muito em quando começou a desconfiar da grande ilusão que lhe cercava, apenas quando agiu de maneira não premeditada, a farsa começou a ser dissipada. Estamos tão robotizados, os mesmos passos até carros ou ônibus, metrôs, calçadas um mapa conhecido pelo olhar das cabeças baixas que vão vasculhando o chão ao longo do caminho. A sua vontade de chegar a Fiji, o desejo de movimento rumo ao desconhecido, de quem quer sentir nos lábios o gosto da experiência. Os programas policiais que passam na tevê são sentinelas do medo, muitos aqui no Brasil, vivem trancados, se escondendo do que há lá fora. Você deve achar isso hilário, não?
Engraçado, você fugiu atrás de um pouco de privacidade, aqui, há tanta gente vendendo o secreto-banal da vida, alimentos, fake plastic smiles, vídeos íntimos, tudo isso tem sido compartilhado, por humanos fragmentados. Você deve está em algum canto com o livro do Thoreau, eu acho.
Quando olho da varanda ou pela janela do ônibus, nunca sei se a tristeza que enxergo nos rostos dos meus semelhantes, está nos meus olhos ou se é real. A vida virou um produto embrulhado em pacote da alegria, mas no interior da embalagem há só vazio.
Truman, você é feliz aqui fora?











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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

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Pequenas histórias 261

Vamos lá pessoal


Vamos lá pessoal entrar no clima dos festejos americanos, vamos lá: como é mesmo que se diz: “Guloseima ou brinquedo?” Como se diz isso em inglês?
Afinal, o que é americano é melhor, não é? Então vamos lá, tirar a nossa máscara diária e colocar máscara de abobora e sair por aí assustando os assustados famintos de cultura brasileira, alimentar os famintos de sabedoria escolar...
Vamos gastar nosso suado dinheiro com valores estrangeiros, vamos, pois o negócio é festejar, não importa o que seja, é festejar. Por isso digo:
E viva o dia das bruxas, ops! Desculpe halloween, será que está escrito certo? Não sei, mal sei português agora tenho que saber inglês.
Ora bolas!


pastorelli
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domingo, 27 de novembro de 2016

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AUSÊNCIAS - JANDIRA ZANCHI

Ilustração:Marcel Caram


vagando vagarosa nas confidências ermas de casa e prantos
(alma alameda e gerânios abertos  floricultura de alfabetos)

um amplo de cores frescas e tão tangíveis
 (maresias sem água  vinagre a vapor)
no mormaço do princípio -  breve e minúsculo –
de uma noitinha viva e acelerada
nua  -  pois sem presenças ou ausências

aqui ao pé
ao largo
fortificada 
de quase nada.


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sábado, 26 de novembro de 2016

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tatoo n4


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