segunda-feira, 13 de agosto de 2018

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Pequenas histórias 287


Combinado então


- Combinado, então?
- Sim, combinado, há sete horas na porta do cinema.
- Tchau.
- Tchau.
Assim se despediram ao sair da quadra do Colégio Normal. Logo Edu foi rodeado pelos amigos ansiosos para saberem.
- E então? – perguntou Xavier.
- Vão se encontrar amanhã? – indagou o Japonês.
- Vocês vão ao cinema? – quis saber o Rafael.
- Calma pessoal! Parece que são vocês que estão marcando um encontro e não eu. Sim, vou vê-la amanhã e vamos ao cinema, porque tanta curiosidade?
- Por nada, não, apenas por saber. – disse Xavier.
- É que gostamos de saber que o amigo está namorando.
- E que logo se esquecerá da gente.
- Larga de serem bobos. Vamos tomar uma cerveja e vamos embora que já está tarde.
- Falou e disse. – respondeu Xavier
Enquanto caminhava para casa, Edu foi rememorando a noite maravilhosa, que para ele fora, se para ela não fora não deixou transparecer. Mas acredita que tenha sido. No momento em que entrou na quadra do Ginásio Normal, a primeira pessoa que viu foi ela junto com as amigas. Ela também o percebera e, ao mesmo tempo, se afastara das amigas como se dissesse:
- Quero falar com você. Estou à espera.
Edu fez um gesto de: logo estarei junto a você. E se dirigiu aos amigos.  Cumprimentou todos, e logo em seguida se afastou. Ao se defrontar com ela, sentiu os nervos escondidos tremerem. Procurou agir espontaneamente o mais possível para que ela não notasse o nervosismo.
- Olá!
- Oi.
- Como está?
- Bem, e você?
- Bom... Estou bem, meu nome é Eduardo, os amigos me chamam de Edu.
- Prazer, Edu... Posso chamá-lo de Edu?
- Claro que sim.
- Prazer, Edu, sou a Marta.
- Puxa! Nome bonito.
- Que isso? Sinceramente não gosto.
- Por quê?
- Marta... Não tem pelo de marta?
- Sim, tem.
- É, acontece que não sou pelo, entende.
- Bom vamos dizer que entendo.
Edu notou o gelo se quebrar. Tornaram-se mais íntimo. Foi como se conhecessem por longa data. Diante de Marta, Edu encontrou a desinibição, a leveza de se sentir bem. Por sua vez, Marta achava que estava escorregando num plano liso onde era impossível se segurar. Mesmo assim, deixou-se levar.
Não mais prestavam atenção ao jogo que se desenrolava na quadra e, por sua vez, Edu não percebia os olhares cochichados dos amigos em sua direção. Para os dois não existia mais nada, apenas eles naquela noite imemorável.
No escuro do cinema, a língua de ambos se encontrava numa frenética busca de sentir o gosto de uma e de outra. Edu, assim como Marta, se entregava no desejo queimando os dois. Saboreando a bala ganha dos amigos:
- Um presente nosso para vocês – dissera o Japonês -, dividiam o sabor adocicado da paixão envolvendo-os em gestos lentos e ousado. A bala dançava de uma boca para outra num bailado de carinho úmido ao sabor de línguas sedosas.
- O que foi – perguntou Marta quando Edu se afastou um pouco dela.
- Nada. Não sei, essa bala parece que tem um sabor esquisito.
- Impressão sua.
- É pode ser.
E continuaram no jogo de entrega de carinho um para outro.
- Essa bala está mesmo esquisita – disse Marta.
- Jogue fora.
Marta inclinou o corpo para frente e cuspiu a bala que rolou no chão escuro do cinema indo parar num dos cantos da cadeira. Depois disso, esqueceram a bala e passaram a prestar atenção no filme. Vinte ou sessenta minutos depois, assim que as luzes se acenderam, Marta ao ver Eduardo e logo seguida a si mesma, deu um grito desesperado de raiva. Por sua vez, Eduardo, também vendo Marta soltou não um grito, mas um urro do que propriamente um grito esbravejando:
- Filha da puta, o que fizeram!  Me pagam.
Tanto Marta como Eduardo estava com o rosto, a boca, a testa, o pescoço, os cabelos, a camisa, o vestido, as mãos de ambos, com longas manchas de verde. Enfurecida Marta saiu correndo empurrando os que saiam. Eduardo foi atrás. Alcançou-a no meio da rua.
- Marta, espere...
- Me largue, rilhou os dentes.
- Foi uma brincadeira, espere...
Num giro rápido, ao mesmo tempo em que Eduardo puxava Marta pelo braço esquerdo, a mão aberta de Marta acertou em cheio o rosto de Eduardo. Largando o braço de Marta que, correndo desapareceu no tempo, Eduardo se virou para os amigos que se aproximavam.
- Quem foi o filho da puta que teve essa merda de ideia? – berrou pegando o Japonês pelo colarinho da camisa.  
- A ideia não foi minha. – respondeu o Japonês.
- E de quem foi à ideia?
Nisso a voz de Xavier soou as suas costas.
- Uau! Deu uns amasso gostoso hein!
Nem bem terminara de falar, Xavier sentiu a mão fechada de Eduardo bater em seu rosto, fazendo-o cuspir três dentes empapados de sangue. O corpo de Xavier foi jogado em cima do capo de um carro, para logo em seguida, escorregar e bater com a cabeça no paralelepípedo da rua coalhando seus cabelos pretos de sangue.
Extático, sem saber o que fazer, vendo o amigo caído numa poça de sangue, Eduardo deu meia volta e sumiu na poeira do tempo.
Vinte dias depois, Xavier procurava pelo amigo. Na secretária da escola lhe disseram que ele tinha trancado a matrícula. Na torrefação de café, já fazia vinte dias que não aparecia. Na casa onde morava a vizinha disse que ele tinha mudado para outra cidade, talvez voltado para Rio Claro.
Semanas depois, os três amigos contemplavam a praça silenciosa. Oito horas da noite, o coreto vazio, o alto falante mudo, apenas os três apreciavam a solidão da praça outrora movimentada.
- Pirassununga já é a mesma.
- Há muito tempo deixou de ser aquela Pirassununga que nós conhecíamos. – disse Xavier.
- Vamos lá, tomemos a nossa última cerveja. 
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domingo, 12 de agosto de 2018

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PROCISSÃO - JANDIRA ZANCHI





por que acendemos as velas
e fazemos dessa fé um mártir de pequenos anseios
envoltos em nossos medos ou solidões (talvez os dois, pois rezamos
pela cartilha dos desamparados e é rude o dia,selvagem a noite
inóspitas essas manhã de lutas, os filhos escorrendo seus pedidos
em nossas saias... e temos pouco...)

filas e filas de nós mesmos, tantas súplicas...
e não fazemos um espelho no choro do outro,realmente
acreditamos em prêmios,merecimentos,milagres, nossas vozes até deus

sim já percorremos dias de graça abundância,amor, esperança

porém,um pouco mais, um tanto mais, dias e dias, infinitos, redondos de anjos e frutos, os nossos filhos...

o dia também escorre suas lágrimas ou, quem sabe, apenas lava da terra
escura os nódulos martírios das dores e lutas

e então uma graça, qualquer uma, uma amiga, uma confidência
apenas um pequeno ensejo confirmação de nossa certeza de melhores esperanças.


JANDIRA ZANCHI
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QUEBRA DE SIGILO FRIGORÍFICO



Fruto de esforços conjuntos de três organismos federais, o governo de Pitombas deu início à chamada "Operação Linha Branca".

A diferença desta para outras operações anteriores é que passa a ser considerado, como sinal evidenciador de riqueza - e eventualmente como possível indício de sonegação - o interior das geladeiras domésticas. A depender do que for encontrado dentro do refrigerador, pode-se deduzir se a renda do dono do eletrodoméstico é ou não compatível com aquela declarada ao fisco.

A fiscalização se dará por duas formas. Uma por agentes com mandado judicial para efetuar busca; nesse caso, o contribuinte em questão precisa estar indiciado em algum inquérito. A outra forma será por meio de flagrante fotográfico: pequenas câmeras serão instaladas nas geladeiras e captarão, em dias e horários desconhecidos ao contribuinte, o interior dos equipamentos e os alimentos e bebidas neles conservados.  

A instalação das câmeras será compulsória e se estenderá em etapas regionais, ao longo de cinco anos. O contribuinte que se recusar a abrir as portas de casa e da geladeira aos agentes fiscalizadores será qualificado como suspeito, estando sujeito a penalidades que incluem detenção provisória.

Embora ainda em estágio embrionário, a Operação já vem apresentando resultados animadores. Doraneide Marina da Costa, auxiliar de pedicure, recebeu a visita de fiscais devido à presença, em sua geladeira, de pelo menos quinze quilos de caviar Beluga Petrossian. Além do caviar, considerado um dos melhores e dos mais caros do mundo, foi encontrado um saco plástico de supermercado envolvendo um outro pacote com três outros sacos do mesmo supermercado. Dentro dele, 30.000 dólares em numeração não-sequencial, notas de 100 e 50. Dinheiro literalmente frio, sobre o qual a proprietária da geladeira terá de dar explicações.


© Direitos Reservados

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quarta-feira, 8 de agosto de 2018


QUANTO TEMPO CONSEGUIMOS FICAR SEM O CELULAR?


na praia
Sento-me à beira-mar para admirar a paisagem, o Sol e mar. Maneira para descansar a cabeça e obter novos pensamentos. Chama a minha atenção pessoas que estão caminhando com os pés na água e, ao mesmo tempo, falando ao celular. Como elas conseguem relaxar se estão atendendo ao celular? Márcio Almeida indaga, “... Você consegue se desgrudar do celular por um minuto do dia? Ou o celular te controla?” O toque do celular na beira-mar é um impacto contra a natureza, causado pelo processo “vício”, capaz de transformar o céu aberto em plataforma de serviços. Márcio Almeida reflete, “... Você tem consciência realmente de que o celular faz com você”...”
            Busco meu interior quando estou na praia e me inovo com a beleza da natureza. Faz-me sentir confiante e saudável, para a vida fazer sentido na rotina. Sinto-me feliz ao respeitar o meu lazer sem precisar mudar a minha vida, apenas, deixo de falar ao celular. Para Luiz coronel, “Embriagados de euforia, / esquecemos / que o tempo e a humildade / apitam os jogos...”

no encontro
            Num encontro com amigos, o anfitrião nos recebe na porta e, logo após os cumprimentos de boas vindas, oferece uma bandeja para deixarmos nossos celulares desligados (e os pegarmos na saída).
            Alguns se espantam, outros perguntam, que maneira é essa de nos receber? É uma brincadeira? A resposta é direta: é a única maneira de a conversa fluir sem interrupções. Todos se conhecem e suas sensações pessoais é que rendem um bom encontro.
            Como as coisas se misturam e movimentam a vida em novas escolhas, na realidade, são poucas as pessoas que conseguem se desligar do celular. Márcio Almeida questiona, “Uma vez pelo menos você parou para pensar na dependência que tem desse aparelho eletrônico?...”
            Talvez meu amigo tenha razão, chegada a hora de mudar o jogo e pensar na simplicidade, para reconhecer como são importantes os encontros e os amigos, sem a interferência do toque do celular.


na sala de aula
            Aprendi com os mestres que não devemos deixar o celular ligado durante as aulas, porque perdemos sem nos dar conta de quanto ele nos distrai ao interromper o aprendizado.
            Pensamentos e ansiedades nos enfraquecem quando abalam o padrão de comportamento; o celular é o objeto que mais nos distrai com suas atrações, sem contar que estamos totalmente “viciados” e ligados nele. Ainda, Márcio Almeida, “... você já se deu conta de que é um (a) viciado (a) em celular? E que por isso pode estar sujeito (a) a contrair uma doença chamada fobia, que significa o medo de ficar sem celular?...”
            Também sei que nos prejudicamos com o “vício”, que nos leva a perder o foco nos estudos. Para Luiz Coronel, “Qual teimoso arbusto,/ entre as pedras, / a verde esperança renasce”.
Para usar o pensamento é preciso ter concentração e, a partir desta premissa, é necessário dispensarmos acessórios, como o celular em sala de aula, para que, sem teimar com a lógica, conseguirmos manter o foco no estudo e alcançar os objetivos que queremos. O desafio é saber por quanto tempo conseguiremos ficar sem o celular. Márcio Almeida desafia, “Você conseguiria deixar o celular em casa por 24 horas?”

                                                                                                                                            no cinema
            A combinação filme, emoção e celular é poderosa, no mau sentido, porque deixa o espectador enlouquecido quando o celular o traz à realidade com o seu “barulho”. Márcio Almeida pergunta, “Você seria capaz de conceder alguns minutos de privacidade sem o estorvo da companhia do celular?...”
            Cinema é lazer e entretenimento e não combina com conversas ao celular. O filme apresenta efeitos especiais, eleva a nossa imaginação e, sem exagero, o clima é quebrado com o toque do celular. Nas palavras de Luiz Coronel, “O conflito / é um grito / rasgando a dimensão / do infinito”.
            Filme e celular, par imperfeito; contraste ruim e de xingamentos, estragando a expectativa da plateia. Para evitar esse jogo de opostos é melhor desligar o celular antes de entrar no cinema e curtir o filme com pipoca.







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TODA DOR PODE SER SUPORTADA SE SOBRE ELA PUDER SER CONTADA UMA HISTÓRIA




Pobre infância pobre.... Morreu de olhos abertos para guardar na lembrança o local onde viveu por cinco anos. O pai e a mãe estavam correndo do rapa, no centro da cidade, no momento do tiro. A irmã que tomava conta dele e outros dois menores, estava assistindo televisão. Ao lado do corpinho frio, a família reunida, o choro dos irmãos menores, o murmúrio de dor e uma enxurrada de lágrimas da mãe e irmã. O pai com um nó na garganta e a gargalhada sarcástica da morte junto ao cadáver. Após o enterro, um vazio naquele barraco. A mãe tão chorosa lembrou-se de como Pedrinho era feliz. Bastava ter a pipa para empinar, algo para comer, o colchão velho para dormir e uma coberta nas noites frias. Sem falar nos doces que recebia da madrinha. No dia de visita à madrinha... isso sim era felicidade. Ao longe ouvia-se os sinos dobrarem.




Conto construído pela escritora Lygia Boudox tendo como mote uma imagem feita por mim. Este é o segundo post deste projeto. 



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domingo, 5 de agosto de 2018

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ESFERA ROMPIDA


Pena que pena que coisa bonita... E, ainda assim, acaba. Quando um casal de amigos se separa - um casal daqueles que a gente conheceu sempre junto, feito o diagrama de Tai Chi, o yin e o yang em harmonia inteireza -. A gente fica de boca aberta. É duro e doloroso; não acreditamos, não queremos, perguntamos feito filhos órfãos: “Como assim? Eles nem me perguntaram nada? Foram feitos uma para o outro, viveram a vida inteira juntos, como podem agora se separar?” E, ainda assim, a vida segue, o rio transcorre, a ampulheta chia, o tempo realiza seu trabalho de juntar e separar; separar e juntar. E então a gente vai a um evento perto de casa e, pela primeira vez, encontra seu Rogê sozinho, sem Dona Ju. Difícil pensar que eles se conheceram durante a jovem guarda, velhos tempos, belos dias... Difícil crer que atravessaram mais de trinta anos juntos e, agora, no início do inverno, cada um foi para o seu lado; procurar outro caminho, enfrentar a neve e a viagem derradeira em outra cama. É triste imaginar Dona Ju olhando a chuva sozinha, bebendo chá em cadeira de madeira e balanço. É duro imaginar seu Rogê, menino envelhecido, compondo poemas para a ausência de sua metade. Quem é que pode imaginar Akira sem Sueli, ou Éder sem Ligia? É estranho ver um deles sem o outro por perto... Sensação de círculo incompleto... No último sarau, aqui na periferia onde moramos, vi seu Rogê inseguro, sozinho, não cabendo muito no mundo. Ele que sempre foi tão alegre, que bebia e cantava e recitava poemas de amor. Como é que um homem de setenta anos pode se perder assim? Num determinado momento, alguém puxou uma canção triste e eu vi seu Rogê suspirar e passar a mão cansada sobre os cabelos escassos e brancos. Pensava quem sabe na menina travessa que ele um dia amou e que vivia agora em outra placa tectônica, num Universo paralelo, tão distante da vida que viveram juntos. Eles se amaram de qualquer maneira à vera. Qualquer maneira de amor vale à pena e quando acaba, se acaba, não termina, torna-se parte da nossa travessia: esfera rompida que ainda guarda nas bordas o encaixe da outra parte.


Este post é o diálogo entre a imagem feita por mim (Fernando) e a narrativa que ela suscitou no escritor Daniel Lopes Guaccaluz. 

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sábado, 4 de agosto de 2018

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SEM BACKUP




I



É consenso no mundo da segurança da informação o fato de que as empresas produtoras de antivírus contratam hackers para criar vírus e posteriormente suas vacinas, perpetuando o ciclo de ameaça e proteção. 

O vírus é criado, espalhado, a imprensa se encarrega de fazer o alarde mundial e, enquanto isso, a vacina já está pronta para integrar o pacote da versão 22.4 do mega-ultra-master-magic-killer-fast-ultimate-power-virus-exterminator. O mais seguro de todos os tempos, até que chegue a hora de se criar um outro vírus ainda mais detonador e em seguida seu antídoto invencível, num ciclo criminoso que torna refém toda a humanidade. 

Mas, dessa vez, a coisa não aconteceu como deveria.







II



- Pois é, o que a gente mais temia se confirmou. Óbito, há 20 minutos. 
- Parece humor negro ou ironia do destino, mas ele contraiu um vírus raro. Ainda teve a sorte de durar três meses, o médico garantia que não passava de dois. Doença degenerativa fulminante, sem remédio nem vacina. 
- É, letalidade máxima. Acabou com ele e com uma multinacional de 50 bilhões de dólares numa tacada só! É o que se pode chamar de alto poder de destruição.
- Mas não é possível que não tenha deixado nada escrito na mesa dele. Alguma anotação em algum canto, escondida na gaveta, quem sabe salva em algum insuspeito arquivinho de wordpad?
- Nada aparente, já vasculhamos.
- Sei lá, qualquer coisa que seja uma pista de como ele estava concebendo esse antivírus. Virem tudo de cabeça pra baixo, quebrem todas as senhas do computador que ele usava, usem descriptografia, tragam hackers de fora do país se for o caso... ele não comentou nada com vocês? Nadinha?
- Caladão do jeito que era? Pois sim... Uma vez ele me disse que guardava tudo na cachola, por medida de segurança. O cara tinha um HD de 10 terabytes na cabeça.
- Amiguinhos, eu não quero saber o que fazer e de que jeito precisa ser feito, só quero que mergulhem nessa caixa de gordura e resolvam a encrenca. Dinheiro não vai ser problema! O vírus que esse rapaz criou está derrubando sistema atrás de sistema, o nível de infecção é de quarenta a cinquenta novas corporações por minuto. Se não disponibilizarmos a vacina nos dois ou três próximos dias, estaremos completamente desmoralizados. 
- Tá, e a gente vai fazer o quê? Chamar o cara à força numa sessão espírita? A porcaria do vírus é criação dele, a chance de descobrirmos algo de prático em tempo hábil é zero. Mesmo se a gente conseguisse juntar todos os hackers do mundo, ainda assim a velocidade de infecção vai travar o planeta antes que se chegue a qualquer resultado concreto.
- Então, eu sei que não é o momento apropriado pra ficar falando isso, mas... caramba, quantas vezes eu já disse nas reuniões de Conselho - essses malucos precisam trabalhar em dupla, um fica sendo o backup do outro. Se dá uma caca, tem como recuperar pois há dois profissionais envolvidos no programa.   
- Índice Nasdaq de hoje. Querem ouvir?
- Diga de uma vez, quanto perdemos?
- Até agora, 16h30, -7,2%. Debandada geral de investidores mundo afora. Viramos mico da noite para o dia.
- E o técnico canadense que chegou ontem?
- Ia falar dele agora. Desinfetamos tudo antes que ele começasse a trabalhar, mas a lei de Murphy funcionou de novo... se infectou com o vírus biológico.
- Sei, mas como ele está agora?
- Quadro de febre, vômito e confusão mental. A coisa começou assim com o nosso finado colega. É o início do fim, daqui em diante só vai definhar. 
- Tentou chamar um médico?
- Todos os hospitais estão com sistemas viralizados, pane generalizada até nos serviços de emergência. Mesmo as conexões analógicas de telefonia parecem estar comprometidas.
- Bem-vindos ao apocalipse, meninos. Orem com fervor. Agora, só confiando na volta de Jesus. 




© Direitos Reservados


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