quinta-feira, 28 de junho de 2012

1

CONTAÇÃO: "Crônica do interminável anseio" - por M.Mei



CRÔNICA DO INTERMINÁVEL ANSEIO


Eu a vi passando, outro dia, pela calçada em frente à casa de minha mãe. E estava linda como antes. Ah, seus cabelos! Seus cabelos se mostravam diferentes, maiores e encaracolados. Recordo-me de raramente tê-la visto assim, com os caracóis assumidos e o vento a embaraçar-se neles.

Como naquela manhã de domingo em Jandira, quando você lavou-os e esqueceu-se deles para deitar-se novamente ao meu lado e fazermos amor. Lembro-me bem dos fios que secavam aos poucos e encolhiam-se em belas voltas sobre seus ombros nus. E então você se debruçava sobre mim e eles me acariciavam o peito, e seu corpo dançava lindo e trigueiro sobre o meu. Eram realmente raros os momentos em que você se deixava render à rebeldia de sua cabeleira. Aqueles momentos – ah! – como eu gostava daqueles momentos...

Há uma semana eu a vi passando em frente à casa de minha mãe. O rosto sério, quieto. Acho. Pois eu espiava atrás das cortinas pesadas de chamoix da sala, entre a primeira e a segunda basculante. Já era hora de aparecer por esses lados, seus pais vivem logo ali, a duzentos metros descendo a rua, e creio que já sentissem saudades. Imagino que tenham se encontrado em outros lugares, em nosso – ou melhor – seu apartamento talvez. Mas o Pipo, tenha piedade, de tão velho não sai mais do canil, não é certo deixá-lo morrer solitário. É muito triste morrer solitário.

Já era hora de aparecer por esses lados. Não que eu ficasse esperando, todas as tardes, das duas às cinco, sentado no braço do sofá de courino de minha mãe, o cigarro na mão e a xícara de café a esfriar sobre a mesinha de centro. Imaginei-a tantas vezes descendo a rua, as sandálias rasteiras amarelas, que eram as que você mais gostava mesmo que deixassem seus calcanhares sempre sujos.

Não conseguiria contar todas as vezes em que chegou em casa com aquelas sandálias, tirou-as no tapete e correu até o tanque da lavanderia para lavar os pés. Já tinha reservado – você se lembra? – numa saboneteira de plástico que ficava no parapeito da janela, um sabonetinho vermelho. De maçã. Só para lavar os calcanhares encardidos. Depois pisava no tapete de barbante e saía a carimbar o chão da casa com um leve contorno úmido de seus pés. Tenho impressão de que passava também pelo meu coração, mas lá as suas pegadas nunca secaram.

Já lhe disse que a vi passando por essa rua há dois dias? O sol quente deixava a sala insuportável, mas dali, do braço do sofá, dava para lhe ver perfeitamente. Eu suava e você também suava, estava calor, já disse, e o sol sobre seu corpo imprimia delicadeza nos muros. Sua sombra caminhou por um instante também sobre mim. Suávamos e você estava sobre mim. Já transpiramos tantas vezes juntos e, mesmo que pareça loucura, recordo-me de cada uma delas.

Peço desculpas se lhe faço enrubescer, mas são essas lembranças que deixam seu cheiro presente nos meus dias. Quando fazíamos amor sua pele cheirava a uva. Não nas outras horas do dia, quando se perfumava com aquele L'amour du Ciel que sua irmã trouxe de Nice, um aroma todo açucarado do qual eu nunca gostei. Mas quando se despia era como se despisse também do perfume, e sua nuca cheirava a uva, seu lombo cheirava a uva, seus dedos cheiravam a uva. Foi quando conheci os cantos de seu corpo que passei a gostar daquele doce ácido dos vinhos de nossa adega.

Pois então, como ia dizendo, estava fumando na janela da casa de minha mãe esta tarde quando lhe vi descer a rua com uma serenidade melancólica. Estava linda, os cachos soltos sobre as alças da blusa roxa. Penso até que você soubesse que eu fumava à janela naquele exato instante, e resolveu passar com as sandálias arrastadas, os calcanhares sujos e os quadris delicados apenas para exibir a cabeleira que tanto me faz falta. Não olhou para o lado, é claro, você nunca olha para o lado. Você sempre sabe quando estão a lhe observar. Você sempre soube.

Inclusive na noite em que nos conhecemos. Você abocanhava uma maçã-do-amor quando a vi, e seus lábios brilhavam afogueados. Sorria sozinha enquanto ensaiava uma mastigação interminável... E outra mordida e outro sorriso. Acho que já disse outras vezes, mas naquele dia foi lindo observá-la em seu prazer solitário, o diálogo entre seu corpo e sua vontade, os lábios intensos e rubros. Você sabia que eu a observava e o deleite daquela sobremesa era ainda maior por isso. Foi aquela maçã que fez rendido o meu amor.

São quase dezesseis horas no relógio de corda pendurado na parede da sala da casa de minha mãe. Não me canso de observar o pêndulo a visitar um e outro lado, um passeio curto e maniqueísta, a oferta e a amputação de mais um instante de minha existência desde que fiz as malas. Sempre gostei de pêndulos e da falsa e necessária expectativa que eles oferecem. Da rua logo se ouvirão as badaladas metálicas, e o anúncio da outra hora ecoará pela casa a misturar-se com o ruído da água que corre na torneira da pia da cozinha, onde minha mãe prepara o café.

Quase dezesseis horas e o sol arde sobre as cortinas pesadas da sala. Se eu permaneço atrás delas, não me escondo: é que não suporto essa claridade profusa e alegre. Há mais de vinte minutos não passa ninguém por essas calçadas, nem mesmo um cão magro a arrastar o focinho num maldito farejo condenado. É preciso ter cuidado, pois Pipo pode estar também assim, miserável. E seus pais, você se lembra de que tem pais? Não os visita desde que encontrei minhas malas, a predizerem o nosso fim, ao lado do chapeleiro barroco do corredor do apartamento. Devem estar saudosos os seus pais – o velho Tonico a ler jornal na cadeira de vime do alpendre enquanto masca um fumo velho, e sua mãe a acender novenas para uma santa qualquer que traga de volta a filha amada.

Este relógio deve estar com algum enguiço. Olho para ele e já se passaram cinco das dezesseis horas. Não badalou. Aperto os olhos mirados nos segundos, mas a vista se confunde com uma lembrança de sol. Também não vou verificar as cordas, temo sair da janela e perder a passagem do tempo. O tempo, esse sádico desgraçado. O tempo é o carrasco de minhas esperanças. Quinze minutos. O café descansa morno sobre a mesinha de centro. Vinte minutos. Acho que hoje você também não vem.





Mariela Mei 
é toda verso e prosa. Formada no divã e na escrivaninha. Escreve para existir. Bloga em http://gracadesgraca.com . 
Quer ver mais Contação? Clique AQUI!




1 Comentário

Anderson Furtado

O título combina muito bem. Fiquei ansioso ao ler este conto. Muito bom... Parabéns...