sábado, 16 de junho de 2012

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Observadores

Uma noite repleta de sonhos estranhos. Ele acordou suado, o coração pulsando forte, as mãos tremendo, desordenadas.
Um sonho, ele pensou, apenas um sonho.  Mas tudo em sua mente ainda estava tão nítido, tão vivo, que ele chegou a temer: e se eles estivessem lá fora, esperando, observando?
Minutos mais tarde, já pronto para o trabalho, do sonho não restava mais do que névoa, vaga lembrança de uma noite mal dormida.
Quando pisou na Avenida Paulista sentiu, mais uma vez, a impressão de que era observado. Como no sonho. O coração voltou a saltar, o tremor das mãos crescendo cada vez mais.
Entrou num bar com a desculpa do café — mas o que queria na verdade era se esconder. Talvez eles estivessem mesmo lá fora, analisando cada movimento seu, medindo, calculando, enviando dados para o espaço. Espaço?
Sim, no seu sonho era observado por alienígenas que o submetiam a todo tipo de testes. Não tinham uma forma definida, seres incorpóreos, vaporosos, que o mantinham sob uma espécie de controle mental. Tudo o que sentia era que eles extraiam do seu cérebro todo tipo de informação: queriam dados biológicos, principalmente, culturais, sociais. Pra quê?
— Invasão — ouviu uma voz dentro da sua cabeça. — Quanto mais soubermos, melhor.
Pavor. Tudo parecia real no sonho, e ele não hesitou: assim que os alienígenas se descuidaram por alguns segundos, saiu correndo até chegar à grande avenida, nu, e continuou a correr até encontrar refúgio num bar — o mesmo bar onde estava.
— Café? — perguntou o atendente.
Ele aceitou. Segundos depois, quando levou a xícara à boca, o tremor nas mãos se manifestou novamente.
— Nervoso?
Ele olhou para o atendente, furioso.
— Calma, só estou observando...
Era o que ele esperava ouvir: o atendente era um observador. Talvez todos ali fossem.
Preciso fugir daqui!, pensou.
Como no sonho, ele saiu correndo; não havia em quem pudesse confiar, não havia abrigo: os alienígenas estavam em todo lugar, disfarçados, sedentos por informações.
Depois de cruzar toda a avenida, ele não aguentou mais: desabou no chão como um pacote flácido, até se sentir, finalmente, cercado de curiosos. Milhares de vozes explodindo em sua cabeça, como no sonho — eram eles!
Tentou ainda se levantar e correr, fugir, mas não conseguiu: foi sendo erguido do chão por mãos vaporosas, a avenida vista pela primeira vez por uma nova perspectiva, aérea, a terra ficando cada vez mais distante.
***
— O que acha, doutor?
— Ele está cada vez pior. Delira desde a captura. Acha que nós somos os alienígenas.
— Devemos revelar?
— De jeito nenhum! Isso seria o caos. Nossos irmãos não entenderiam.
— Ele estava nos observando?
— É o que indica o seu comportamento.
— Desde quando?
— Esse é o problema: não sabemos. Só esperamos que ele não tenha transmitido para a Terra nenhuma informação a nosso respeito.
— Teme uma invasão?
— Eles não têm tecnologia pra isso.
— Ainda não. Mas quem garante?
— O que você sugere?
— Que desçamos. Fazer lá o mesmo que ele fez aqui.
— Observar?
— Tem alguma ideia melhor?

6 comentários

andre albuquerque

Parabéns,bem estruturado, uma bela abordagem da relativização de conceitos ; André

Jorge Xerxes

Parreira,

Um Ótimo Conto!

"— Tem alguma ideia melhor?"

Um Grande Abraço, Jorge

Márcio Ibiapina

Dá gosto de ver quando a parte revelada de um conto deixa entrever muito mais da história, o que nos deixa imaginando, no caso, o que teria acontecido antes do colapso do alienado alienígena. Parabéns pela inspiração e pela execução!

ana laura Kosby
Este comentário foi removido pelo autor.
ana laura Kosby
Este comentário foi removido pelo autor.
ana laura Kosby

Sempre muito bom ler. O fantástico que nos cerca. Grande abraço. "tens alguma idéia melhor?"