sexta-feira, 1 de junho de 2012

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Reminiscências no entardecer


Sentado na varanda, o aposentado mirava o horizonte, onde o sol se despedia e lentamente cedia espaço para a noite chegar. Era o momento em que ele gostava de se isolar com suas recordações. Nessas horas, não raro, soltava discretos suspiros e seus olhos ficavam embaçados.
O movimento de vai-vem da cadeira de balanço combinava com o ritmo de suas memórias, entrecortadas e carregadas de nostalgia. Ficava lembrando da família, dos nove irmãos, da dura lida na roça, do breve tempo em que foi estudar no seminário, a mando dos pais, católicos fervorosos... E do dia em que deixou a pacata cidade do interior e se aventurou na capital, aos vinte anos de idade...
Lembrou também dos estranhamentos, da difícil adaptação com o corre-corre, da luta pela sobrevivência, da distância da família... Da sua bem conhecida timidez, do primeiro casamento, da distância dos filhos, depois da separação... De quando refez sua vida e foi tocando em frente...
As profundas rugas e a fisionomia cansada do octagenário revelavam angústias cuidadosamente guardadas. É bem verdade que ele andava muito esquecido, nos últimos tempos. Tentava lembrar o que tinha almoçado ontem, mas a memória não estava ajudando. “Velho é assim mesmo! O tempo vai passando, os anos vão pesando...”
Mas se a memória de curto prazo o pregava peças, ele não esquecia dos tempos de menino, das longas caminhadas para ir à escola e das geadas no inverno. “Lá se vão mais de setenta anos! Quantos já se foram!”, refletia.
Ele jamais conseguiu esquecer do dia em que seu avô se levantou bem cedo, se arrumou cuidadosamente, sem esquecer do precioso “rapé”, e rumou corajosa e decididamente até a porteira do sítio. Assustado com esse rompante, o então neto adolescente o abordou, no dialeto vêneto:
- Onde é que o senhor vai, nono?,  perguntou, apreensivo.
- Vou voltar para a Itália!, respondeu o velho imigrante, convicto. Foi somente depois de muita conversa que ele conseguiu tirar aquela ideia fixa da cabeça do nono...  Era a vontade de retornar à terra-mãe, história que com certeza se repetiu no coração de todos os imigrantes que chegaram ao Brasil e não conseguiriam fazer o caminho de volta...
A noite chegou. Estava na hora de acender o fogão à lenha e se agasalhar, “porque o frio hoje vai ser de lascar”, pensou o idoso, enquanto se levantava lentamente e se dirigia à cozinha.

Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC), Brasil..

2 comentários

Jorge Xerxes

Sônia,

Uma Ótima Narrativa!

"Sentado na varanda, o aposentado mirava o horizonte, onde o sol se despedia e lentamente cedia espaço para a noite chegar. Era o momento em que ele gostava de se isolar com suas recordações."

"Lembrou também dos estranhamentos, da difícil adaptação com o corre-corre, da luta pela sobrevivência, da distância da família... Da sua bem conhecida timidez, do primeiro casamento, da distância dos filhos, depois da separação... De quando refez sua vida e foi tocando em frente..."

"A noite chegou. Estava na hora de acender o fogão à lenha e se agasalhar, 'porque o frio hoje vai ser de lascar'..."

Grande Sensibilidade.

Um Beijo! Jorge

Sônia Pillon

Jorge Xerxes! Acredite, mas somente agora eu li o teu comentário aqui! Fico emocionada em saber que consegui transmitir sensibilidade, porque essa é basicamente a história que meu pai contou sobre o meu bisavô... A iniciativa de querer voltar para a Itália aconteceu e me comoveu muito, principalmente porque essa bem poderia representar a história de todos os imigrantes, que vieram na esperança de um dia voltar para a terra natal, mas não conseguiram... Ainda bem que as gerações que os precederam puderam fazer o caminho de volta... Beijo! Sônia