sábado, 17 de novembro de 2012

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Roberto Nara


O problema - e também a solução -, para Nara e Roberto, era a cama. Um modelo gigantesco, desses que justifica as prestações. Só coube no quarto porque, de vergonha, o armário espremeu-se contra a parede. O próprio vendedor do Ponto Frio advertiu:

- Vocês têm certeza de que isso vai caber?

Não tinham, mas havia de caber. Era necessário! Algo dentro deles já os advertia de que, tivessem de compartilhar o espaço do sono, não compartilhariam mais o espaço em vigília. O que é bastante digno em alguns casos, mas no caso de Nara e Roberto, era um exagero. Poderia abrigar o sono de cinco casais simultaneamente e mesmo partidas de futebol durante a reforma do Maracanã.

O mesmo se passava com a mesa em que faziam as refeições. Desmatou-se um bom pedaço de Amazônia em nome daquele tampo e, quando Roberto queria colocar mais sal na comida, melhor seria se Nara o remetesse pelo correio. O apartamento como um todo era desgraciosamente grande. Peças amplas, que escondiam um do outro por dias, se assim quisessem.

Nos dois carros do casal, espaço também não faltava. Dois carros, mas por uma razão justa: Roberto preferia o Aterro e Nara o Túnel. E espaçosos porque, quando o cotidiano - traiçoeiro - obrigava-lhes a comunhão do espaço no mesmo veículo, quando Nara entrava no túnel, Roberto já havia saído. O mesmo se dando com o Aterro.

Claro que são exemplos superlativos, a não ser em relação à cama, cuja proporção fazia com que Roberto dormisse no Humaitá e Nara em Botafogo. Claro que os doutores que se debruçassem sobre o caso diriam que Roberto, em verdade, tentava compensar qualquer coisa de medíocre. (Diriam o mesmo de Nara, provavelmente). Mas de amor, quase nada entendem os doutores.

Nara e Roberto, por circunstâncias - inexplicáveis! - da vida, tiveram filhos. Esses filhos, seguindo um curso natural, propiciaram-lhes netos. Os meninos remetiam-se ao exemplo dos avós para provar à sua geração que era sim, possível, que um casamento durasse eternamente. Eventualmente, Nara e Roberto também acreditavam nisso. A cada dia amando mais a distância que os unia.

1 Comentário

Jorge Xerxes

Eduardo,

Gostei Muito de Roberto Nara:

"Mas de amor, quase nada entendem os doutores."

Texto Inspirado!

Forte Abraço, Jorge