sábado, 29 de dezembro de 2012

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diseuse, Rui Tinoco

diseuse? é para ti que falo.
imagino-te como uma voz
feminina, macia e doce,
impregnada do mistério das
mães. à medida que lês,
estas palavras adquirem
existência e depois voltam-se
a calar. fico envergonhado:
sei que não consigo estar
à tua altura. há também
a tua boca, diseuse: pinto-a
como uma ave a pôr asas
em tudo o que toca.
é neste momento que deves dar
a entender que caí nestas folhas
à procura de não sei quê
e que depois me debato,
neste lado, para estar ao pé
de ti, como um dos melhores
amigos da alegria. quando
estiveres a ler o texto seguinte
ficarei sentado, numa das mesas
defronte, a ouvir-te,
entretendo nas mãos uma
pequena chávena de café
é preciso dar lugar à vida..

(In Segundo Aceno, 2011, Edições Sempre em Pé, Águas Santas).

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