segunda-feira, 18 de maio de 2015

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Pequenas histórias 145.


 
 
Mecanicamente


 
 
 
Mecanicamente desço do insuportável fretado, atravesso a Alameda Santos, depois a Padre Manuel, em seguida a Paulista, e finalmente a Frei Caneca, passo pela pequena praça se é que se pode chamar aquilo de praça, não sei se tem outro nome, e entro no edifício, passo o crachá na catraca, aciono o elevador pressionando o botão na parede deixando-o luminoso, assim que ele chega entro, pressiono o número do meu andar iluminando-o também, saio dele viro a esquerda, encosto o crachá no indicador para destravar a porta de vidro e finalmente passo o crachá para indicar a hora que adentrei nessa prisão onde a coleira com minha foto deverá ficar pendurada no meu pescoço todo o tempo em que aqui permanecer. Chegando a minha mesa baia, tiro a jaqueta jogando-a no espaldar ou encosto da cadeira, sento e ao mesmo tempo ligo o computador. Todos os dias é essa rotina que a sobrevivência impôs para que eu cumpra sem reclamar, aceitando-a como... É uma obediência que me foi imposta por mim mesmo e assim ser aceito na sociedade consumista capitalista e não cair na marginalidade faminta dos desgraçados jogados na sarjeta a espera de caridade falsa e egoísta. Assim torno-me um homem integro competente, senhor de suas responsabilidades, pertencente à classe média, aquela que tem um pouco de liberdade financeira e, que de vez em quando, pode fazer suas extravagâncias egocêntricas. Que se dá ao luxo de uma vez por semana, extravasar seu stress num exercício alcoólico e futebolístico com os amigos. Que se dá ao luxo de comprar porcaria de luxo apenas para dizer que está na onda ou na moda. Que enquanto jovem não pensa no futuro físico praticando extravagâncias sexuais nas baladas pensando em se divertir.
Assim como um grão de areia cavo minha existência compondo o ciclo da vida, às vezes levado pelo vento da adversidade, outras pela brisa da felicidade tênue e efêmera. Colhendo aqui e ali os frutos da amizade e do amor que apodrecem em árvores do egoísmo e orgulho destrutivo, da vaidade e cobiça maliciosa, do preconceito e desumanidade ignorante, que pouco se importa com o que aconteça um palmo a frente do nariz. Assim ao meio-dia mais uma vez passo o crachá para marcar a hora da minha saída do almoço. Chego ao restaurante, já um pouco lotado, e, a espera de um lugar, observo a caterva preocupada em se alimentar. É um vozeio de vozes que se voluma em todos os cantos dos afazeres dos garçons que correm de um lado para o outro com a finalidade de bem atender. Nisso, vaga um lugar no corredor, numa mesa encostada a parede e para lá me dirijo. Ao sentar tenho a impressão que a mesa se alonga num quadrilátero meio que desproporcional. Sensação logo dissipada pela presença do garçom enfileirando os pratos do dia. Como já sou dele um mero conhecido, recuso sua sugestão e peço o de sempre, file de frango e legumes com um pouco de arroz, acompanhado de uma branquinha com gelo. Assim que ele se afasta, me ponho a observar o recinto.

pastorelli

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