sábado, 16 de abril de 2016

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Pequenas histórias 213

Ele colocou



Ele colocou o papel nos olhos para limpar a umidade surgida pelo ato de bocejar. Colocou e deixou por segundos o papel que, com a umidade, aderiu aos olhos e ali ficou sem ser preciso segurar. Foi momento de... Como poderia dizer... Momento de reflexão relaxante em que se desligou de tudo, não ouviu nem um som, nenhuma voz, nenhum ruído. Parecia flutuar acima da mente, não só da mente dele, como da mente de todos e ao mesmo tempo, continuava sentado à frente da mesa-baia como se nada houvesse acontecido. Ficou dessa maneira desligado do mundo.
E qual não foi seu espanto ao tirar o papel dos olhos! Todos também estavam com o papel nos olhos. Riu abstratamente do surrealismo da cena. A princípio começou com um riso apenas, passando para sorriso e, sem se perceber, gargalhava. Ninguém lhe dava atenção. O engraçado é que ele movia a cabeça para um lado e todos o acompanhavam.
- Estarei sonhando? – perguntou-se receoso de que não fosse sonho e, sim, a pura realidade dentro da cena fictícia.
Se for realidade, é uma realidade que ele não via, não dava atenção nenhuma, ele que sempre foi minucioso com a visão. Nisso um vento irrompeu pelo ambiente revolvendo os papéis que voaram juntamente com os que cobriam os olhos de todos. Ninguém se mexeu, continuavam imóveis e, foi então, que notou. Eram cegos. Uns tinham os olhos vidrados, olhando um ponto inexistente, outros o globo era apenas um película branca que brilhava, e outros, os mais terríveis, tinham um buraco escuro no lugar dos olhos. Todos olhavam para ele.
- O que estará acontecendo? – se afligiu sem saber o que fazer.
Será que estava vendo o que não queria ver? Ou formulando de outra maneira. Será ele que não queria ver ou seriam eles que não queriam ver? Ou demonstravam o que eram?  Simples zumbis sem definição do que desejavam, do que queriam, apenas viviam por viverem. Não adianta formular perguntas. Não há respostas para a vida absurda. Só aceitando-a que teremos a paciência de um dia entendê-la e, assim mesmo, nem cheguemos a um entendimento correto. Os percalços elevam o espírito ao caminho da iluminação.
Estava sem saída. Não sabia como agir, como pensar, como fazer. Olhou para aqueles rostos sem expressividade e nada viu além do nada que neles afloravam. Sentiu-se aprisionado. Procurou um modo de sair dessa prisão involuntária. Desviou o pensamento para outra direção. Desviou os olhos para aquilo que não queria ver. Aceitou a condição de prisioneiro como prova de que estava vivo, como prova de que tudo aquilo não passava de uma simples imaginação frustrada da mente para amedrontá-lo.  
E ao compreender a condição da vida, a normalidade voltou ao sentido natural das coisas e, confortável respirou eliminando o surrealismo do pensamento.


Pastorelli

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