sexta-feira, 8 de julho de 2016

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Pequenas histórias 229


A menina

A menina que roubava livro foi indicação médica. É o médico lhe indicou. Isto é, ele que foi intrometido, se espicaçou no livro que o doutor estava lendo. A curiosidade foi maior, não resistiu e perguntou:
- Desculpe doutor, mas que livro o senhor está lendo?
O livro estava ali, a mostra, parecia que o chamava, instigava-o e, fraco, não pode resistir e perguntou meio acanhado, pois não sendo expansivo, falou numa voz meio que baixa na esperança, talvez, que o médico não o ouvisse.
- Desculpe doutor, mas que livro o senhor está lendo?
- Criança 744.
- É bom?
- Razoável já li livro melhor que esse. A Menina que roubava livros é bem melhor, recomendo.
- Li alguma coisa sobre esse livro, mas não me interessei por ele.
- Pode ler que é bom.
- Já que o senhor diz que é bom, vou procurar ler.
Chegando a casa disse à filha:
- Procure o romance A Menina que Roubava Livros.
- Já ouvi falar que é um bom livro. – respondeu a filha.
E o assunto ficou nisso. Ninguém mais tocou no assunto.
No domingo, dia dos pais, eis que a filha lhe chega dizendo:
- Feliz dia dos pais. – lhe entregando um presente.
Como sempre, ele foi dizendo os clichês de todos os anos:
- Mas que isso, filha, não precisava, você sendo feliz é o melhor presente que pode me dar.
Ao mesmo tempo em que dizia foi pegando o embrulho retangular. Um livro saltou na mente ao se fixar na ideia. Feito e dito rasgou o papel e deparou-se com A Menina que Roubava Livros. Agradeceu prometendo que seria o próximo livro que iria ler.
Cumprido o prometido, já vinha se arrastando na leitura. Estava na página cento e pouco e ainda não se sentia empolgado pela história da menina ladrona de livros.
Perguntava-se:
- Por quê?
Sentia ao ler cada palavra, que algo faltava, que algo estava meio que fora, não prendia a atenção. Os personagens tinham consistência, chegava até abstratamente criá-los fisicamente, no entanto suas ações, suas atitudes pareciam desleixadas, pareciam frouxas. Será o método do escritor em não apresentar mais profundamente o psicológico de cada personagem? Será porque colocou a figura da morte para contar a história? Não sabia, não era um entendido em literatura, não era um estudioso. Por várias vezes sentiu-se impelido em abandonar o livro.
No entanto, pelo pouco conhecimento que tinha, poderia apostar que se fosse enfocado de outra maneira, o livro seria mais interessante, prenderia mais a atenção do leitor.
Bom, como era um presente, se achava na educação de pelo menos ler o livro todo.


pastorelli

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