Episódio curioso, nas tramoias da vida a
dor tece o sorriso piedoso, a nebulosidade polêmica, o relido na fria luz, o
breve e o mau dia chegando com desmerecidas horas de sofrimento. Borges e Bioy
questionam, “Para que apressar tanto o
passado, quando o presente entra em vigência?”
Vejo-a com seus 100 anos, com destaque para a sua expressão de
angústia; longe da sua trajetória passada ao enfrentar o presente com a
sensação de cansada por estar paralisada no tempo.
Hora
em que percebo as formas da sua sobrevida se revelarem em dores e na
dificuldade do pensar e se expressar. As emoções e os conflitos são visíveis na
expressividade do rosto de quem não mais difere dia e noite. Mário Chamie
expressa, “... Vi o tempo escondido / em
toda a parte, / face a face / no disfarce / do seu rosto...”
Será que compreendo o peso dos 100 anos através das lembranças
e na esperança de descobrir o que a mantém viva? O seu dormir, ser alimentada
através de sonda, leva-me a pensar, com sentimento, se a sua situação pode ser
considerada como vida? Álvaro Campos nos traz que “Minha dor é inútil / como gaiola numa terra onde não há aves, / como
parte da praia onde o mar não chega”.
Tenho
muito a aprender sobre o significado dos 100 anos e de como posso enquadrar
este tempo na força expressiva dos dias. Pensamentos e palavras ficam
entrecortados como peças de melancolia e ansiedade, travadas pela razão como se
fosse impedimento e a incapacidade de entender as contradições da vida.
100 anos de idade, não seria para festejar sua
vida longa? Aqui, o mal entendido, pois ela não possui mais a capacidade de
explicar o tempo e nem revelar histórias que não vivi; sem a perspectiva de
viver para amar; sem responder as minhas perguntas e nem completar as minhas
frases; sem o pensamento que resiste em ser pronunciado; sem os sentidos para
captar o meu carinho.
Tal
a minha curiosidade sobre a vida, que as contradições do tempo impõem ao ser e,
em muitos, faz atravessar a vida na contramão contrastando com a necessária qualidade de vida aos 100 anos.
Nas palavras de Eduardo Alves Costa, “...
De que vale gritar teu desconforto... / sem que ninguém se dê conta; / e o que
sai pela ferida / não é sangue, não é vida, / o que se esvai é a alma /
amortalhada na calma / de uma estranha anestesia...”

Seja o primeiro a comentar:
Postar um comentário