Márcia
Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979. Formou-se em Letras pela
Unesp é mestra em filosofia pela Unifesp. Ela foi a minha segunda entrevistada
aqui neste espaço, em 2013. No ano de 2019 ela lançou seu sexto livro, quarto
romance: "A casa das aranhas". Abaixo segue a entrevista com esta
escritora sobre seu mais recente livro e outras ações que ela realizou no
espaço literário contemporâneo.
Alguns
artistas têm recebido críticas e até certa rejeição ao declararem suas
preferências políticas, como exemplos, temos o ícone britânico Morrissey e a
escolha da poeta Elizabeth Bishop como homenageada da FLIP deste ano. Você
participou de uma coletânea batizada "Lula livre". No que tal
participação pode atrapalhar e/ou ampliar a recepção e a circulação da sua
obra?
Eu me declaro como apartidária. Isso
não significa que eu não tenha preferências políticas, eu sempre fui inclinada
aos pensamentos da esquerda, embora também consiga fazer uma análise crítica
dos erros da esquerda no Brasil. Porém, eu não escrevo para pessoas da esquerda
ou da direita, eu escrevo para os que estão na minha sintonia, conheço pessoas
de direita que se identificam com a minha escrita. Claro que quando decido
participar de uma coletânea declaradamente de esquerda perderei alguns leitores
da direita, toda escolha é necessariamente uma exclusão.
Em
2019 você foi uma das finalistas do prêmio São Paulo de literatura. Em quais
aspectos este fato alterou a percepção e a difusão do seu trabalho?
Eu fiquei extremamente feliz por ter
sido finalista, eu realmente não imaginava. Não sei analisar com precisão o
quanto isso alterou a percepção e difusão do meu trabalho. Não vi um grande
impacto nem de percepção nem de difusão. Talvez tenha trazido alguns leitores
que acompanham as premiações e ficam curiosos com as obras finalistas. Mas, em
geral, não mudou nada, continuo sendo lida mais a partir da internet e através
da boca dos amigos. O meu livro mais vendido continua sendo “A Puta”, que não
foi finalista a nada.
Quando você escreveu "A puta" já
tinha em mente que estava iniciando o que foi batizado por ti como
"Trilogia do corpo", ou tal ideia surgiu a partir da criação do
"O enterro do lobo branco"?
“A Puta” foi um livro que escrevi
com tremendo prazer, foi uma experiência maravilhosa de escrita. Foi muito
difícil me desligar dos personagens quando finalizei e sentia muita saudade
deles. Quando comecei a escrever “O enterro do lobo branco” ainda não pensava
em uma trilogia do corpo, mas de repente alguns personagens foram invadindo o
livro e a partir desse momento resolvi escrever a trilogia do corpo.
Em
"A casa das aranhas", por meio da personagem Estevão aparece um
elemento inédito em sua obra: A luta de classes. Você acredita que isso se dê
por conta do maior equilíbrio entre o fluxo poético e o narrar? Você acredita
em tal equilíbrio?
A luta de classes é um tema muito
presente na minha vida e acabou aparecendo através do personagem Estevão. Eu
não acredito em equilíbrio, quer dizer, eu não sou uma pessoa equilibrada na
escrita (nem na vida rs), normalmente a escrita vai dando sozinha o seu tom, “A
casa das aranhas” acabou sendo mais narrativo do que os anteriores, também
porque eu queria desenvolver esse poder do narrar, foi mais uma necessidade de
desenvolver esse meu lado de confabular.
Em
"O enterro do lobo branco" aparece pela primeira vez no seu trabalho
literário o nonsense, elemento aprofundando em seu mais recente livro. Como nonsense
integrou o seu processo de criação?
Eu sempre adorei o realismo
fantástico e o real maravilhoso, não foi algo pensado, o personagem mais
fantástico é o homem sem cabeça e ele apareceu do nada quando estava
escrevendo, eu até fiz um post no facebook na época dizendo que não sabia o que
fazer com o personagem que apareceu na pensão do nada (risos), acabei me
apaixonando por ele, talvez ele seja uma parte bem luminosa da minha
personalidade, a qual acaba tendo
partes muito sombrias. Esses dias
achei muito interessante porque um leitor afirmou que foi a parte do livro que
mais gostou, por ser uma parte mais divertida.
No
capítulo "O diário de uma mulher sem voz ou diário de Mudinha"
aparece outro elemento inédito em sua obra: Uma narrativa imagética. Como se
deu o processo de criação deste capítulo? Por meio dele é dissolvida a questão
da autoria, por conta da parceria com o ilustrador Ivan Sitta?
Quando comecei a escrever o livro
apareceu a personagem Mudinha e logo eu imaginei fazer a narrativa por meio de
desenhos, no entanto, eu não tenho talento para o desenho e fiquei imaginando
alguém para fazer isso por mim, acabei conhecendo o Ivan e quando vi os
desenhos dele me apaixonei na mesma hora, pensei: ele é a pessoa ideal para
fazer as ilustrações. Conversamos muito, ele leu o livro, leu muita coisa
minha, eu falei sobre a narrativa do que deveria ser ilustrado. Tenho que
deixar registrado que o trabalho apenas se deu por causa da generosidade do
Ivan, porque ele me escutou, aceitou opinião, foi uma comunhão, não seria
possível com qualquer pessoa, ele foi extremamente gentil. Não sei se consegui
dissolver a questão da autoria, eu acho que para isso eu precisaria ser bem
menos metida rs
Desde
o seu livro de contos "As mãos mirradas de deus" as referências às
obras de arte, cinema e literatura foram diminuindo até desaparecer quase por
completo em "A casa das aranhas". Isso se deve ao fortalecimento da
sua expressividade? Você sente tal força?
Não sei responder o motivo, porque
foi acontecendo naturalmente, talvez se deva ao fortalecimento da minha
expressividade sim.
Duas
das personagens femininas da narrativa estão aprisionadas no silêncio. Mudinha
que é para onde todos correm para aliviar seus impulsos sexuais e a mulher de
múltiplos nomes: Ester, Estela, Augustina, que tem suas atividades cerebrais
intactas, contudo, o corpo adormecido por conta de uma doença, esta em certo
momento do seu monólogo interior diz. "Um homem não é capaz de entender a
profundidade da alma de uma fêmea" (Pg. 106). A sua escrita é a tentativa
de tradução deste silêncio expressivo que há em toda mulher?
Sim, a mulher ficou emudecida por
séculos e ainda hoje todos os dias precisamos brigar para que a nossa voz não
seja sufocada e muitas e muitas vezes somos literalmente sufocadas, basta
vermos o número de mulheres mortas por esganadura. O feminicidio não é somente
a morte de uma mulher, é a tentativa desesperada dos homens de manter o
controle do patriarcado, o assassinato de uma mulher é uma forma insana de
apagar o poder de todas as mulheres.
Ao
longo da narrativa aparecem questionamentos interessantes sobre literatura, os
quais tomo a liberdade de transformar em perguntas que compõe esta entrevista.
(PG 97): E afinal, para que serviriam os livros que li? (E no seu caso os que
escreveu também?)
Eu não conseguiria viver sem ler ou
sem escrever, a resposta poderia ser bem longa para essa pergunta, mas no final
das contas a leitura e a escrita me servem apenas para fugir do tédio da
existência.
(PG
117) Afinal, não é assim que os artistas sobrevivem? Encenando outras
realidades enquanto a arte não lhes proporciona nem o que comer?
A Arte é uma ilusão, a maioria dos artistas
não é capaz de sobreviver da sua arte, temos que vender todos os dias partes do
nosso corpo, partes da nossa sanidade para que ´possamos continuar fazendo arte
e provavelmente (a não ser que tivermos muita sorte) ela não nos compensará com
um pedaço de pão.
Márcia,
em seu "Recusa do não-lugar", Juliano Garcia Pessanha afirma que
"Quem habita o espaço literário necessariamente já se move no
fracasso…". Como tem sido o seu caminhar neste território?
Essa é uma citação lindíssima,
esteticamente perfeita, mas bem triste... Como se mover sem acreditar em um
final feliz, caminhando em um solo profanado? Apesar disso, o meu percurso tem
sido alegre, a escrita faz com que eu me sinta acompanhada, me tira da solidão,
me proporciona encontros maravilhosos. Não consigo me imaginar viva sem a
escrita, sem a escrita eu seria apenas um corpo andante perambulando por aí,
sem paradeiro.



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