Para Milton Nascimento e Daniel Lopes
Menino chora é assim
mesmo! Era o que minha avó costumava dizer naqueles dias. Eu com dois anos,
descalço em frente à casa dela. Minha mãe morta, eu sem ter entendimento sobre
o que era o fim da vida, sentia ausência de alguma coisa dentro do peito, não
entendia, só sentia. E o que não virava palavra jorrava em lágrimas: Rio que é
sempre lugar de travessia.
Até hoje caminho como se o mundo inteiro fosse aquela calçada e eu
estivesse à procura de sei lá o quê, e só num abraço, conversa é por meio do
encontro que o sem nome me preenche.
Entre a mais bela paisagem e o humano meus olhos não titubeiam,
focam a mulher que é o portal para o homem. Numa viagem rápida de carro, que
fiz com um amigo há cinco anos, estávamos perdidos e ao perguntar para aonde
ir, uma senhora sorriu pra nós, antes de nos dar a informação-bússola. A fé no
tempo se revelou por meio de um aparelho ortodôntico em seus dentes. O
amigo escritor recebeu a poesia ali naquele instante, a brecha de luz que
espanta a escuridão.
Todo mundo precisa de colo, isso é o que evita a queda, os braços
brancos, longos e lisos de Lili seguraram o meu corpo pequeno e negro. Nunca
mais me senti em queda livre como naquele dia em que despenquei do pequeno muro
que separava o privado do coletivo, minha casa do resto do mundo...
As vozes femininas do rádio me traziam alento ao coração, mas um
dia em que como uma criança inquieta que se debate para não receber injeção,
magicamente recebe a picada que por meio da dor abre uma dimensão no viver,
ouvi um homem e a beleza transportada em sua voz fez carinho no meu lado de
dentro, embora feminina no dicionário, a beleza passou a não ter mais
sexo pra minha mim.
Um homem cego antes que a sua figura me fosse apresentada
atravessou o meu ser cantando sobre uma mulher.
As notas musicais traduziram melhor o que eu sentia do que as
palavras, o canto sem vocabulário só com sofejos e vocalizações conversam até
hoje com o meu coração, sem a necessidade de intérprete.
Em cima do guarda-roupa de Lili, minha mãe, havia um violão,
moleque arteiro eu pegava o instrumento escondido e sinceramente, não sei como
nem de onde veio a música nos meus dedos correndo as cordas e na minha boca
bico de passarinho. Mamãe descobriu, me sentou na cadeira, eu toquei pra ela,
ela me perguntou onde eu tinha aprendido aquilo, eu disse " Não sei, eu só
toco!".
O meu amor pela música é o amor por encontrar as pessoas, tocá-las
e ser tocado, como um fiel religioso, eu rezo com olhares, abraços e sorrisos.
Com o outro eu me sinto mais eu, viajo pra fora da prisão da minha
singularidade, na qual só acredito por causa das impressões digitais e do som
das vozes. Amando o mundo não o carrego dentro do coração, mas estendo as mãos
que como um nó me prende em todos que formam o tudo-todo.


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