Para Jean Silvestre.
Estou grávida foi o que ela disse. Foi o que ele ouviu. Estava dentro dela
quando ouviu dizer: estou grávida. Na mesma hora o excitamento broxou o fluxo
sanguíneo se retraiu deixando-o perdido. Estavam no papai e mamãe como sempre,
comprimindo os seios dela em seu peito, com as pernas abertas recebendo-o, foi
que, tempos depois, percebeu o quanto de maldade havia naquelas palavras. Estou
grávida. Nesse: estou grávida desabou toda sua infraestrutura masculina
provocando nele, a repulsa daquele momento. Murcho, quieto, sem ter o que
falar, rolou o corpo para o lado direito dela.
Grávida! Como grávida? E o trato que fizeram? E
a palavra dada? Você não vai dizer nada, perguntou novamente ela. O que ela
quer que eu diga? Que estou contente? Feliz? Radiante? Não sei. Pego de
surpresa não tinha nada para dizer. E o que ela queria que ele dissesse? Se ela
não cumpriu o combinado e não ele. Ela que tinha que lhe dizer. Estou tão
feliz, disse jogando a perna por cima da dele e abraçando-o. É. Está feliz. E
ele? Não pergunta se está ou não feliz? Pouco importa o que estivesse sentindo.
Pouco importa saber que com essa gravidez seus projetos estavam indo para o
ralo.
O processo estava para ir a julgamento. Contava
com a condescendência da lei dando-lhe a razão. O CD estava indo bem, com uma
venda razoável. Ganhando o processo poderia partir para o segundo CD, lançar o
DVD e agendar shows. O único senão é o trabalho que daria para agrupar
novamente os músicos, mas isso é o de menos. Estava confiante. Nada haveria de
interromper esse processo todo. E...
Estou grávida disse ela. Foi o que ele ouviu.
Grávida!
Juntou os papéis. Anotações e mais anotações. O material que tinha acumulado
nesses anos todos dariam para uns quatro CDs ou mais até. Nisso ouviu na
voz do juiz ao bater do martelo à sentença dada. Por mais de dez anos, nem ele
e nem a gravadora poderiam usar o nome do conjunto em benefício próprio, os
ganhos advindo da venda do CD, o único CD, seria todos da gravadora...
Depois de todos esses anos não via mais motivações e nem esperanças em reavivar
o conjunto. Os amigos se dispersaram, estavam em outra, tocando com outros
músicos, seguindo a vida. E ali, naquele amontoado de papéis tem material para
mais de um CD, falou para si mesmo.
Ouviu que o chamavam. Já estou indo, respondeu.
Pai, o senhor vai tocar guitarra? Não meu filho, papai não sabe mais tocar
guitarra. Abraçado ao filho de sete anos, saiu fechando o escritório.

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