segunda-feira, 12 de setembro de 2022

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O guarda-roupa, a luta final


Para não esquecer colocou na carteira, junto aos cartões, principalmente do Ticket Restaurante, os recortes que imprimiu do site da Livraria, os livros: Lavoura Arcaica e Um copo de cólera, de Raduan Nassar.  Só precisava não se esquecer de não atravessar para o lado direito da Augusta de quem sobe, pois não estava indo ao banco, e, sim, estava indo a Livraria Cultura. Isto porque, pobre vai mais ao banco do que ao banheiro quando está com diarreia, e, como sendo um avoado, uma cabeça oca, apesar dos seus trintas anos, precisava sempre de um lembrete para isso ou para aquilo. O que lhe vinha à mente uma constante pergunta: será que já estava adentrando no mal de Alzheimer? Credo! É jovem ainda. Doença não escolhe idade, dizia a mãe. Realmente, concordava com ela. Até poderia ser, por que não? Não queria pensar nisso no momento. O que tinha em mente era comprar esses dois livros que o maldito cupim comeu o único volume que ele tinha. Uma edição do Círculo do Livro. Fazer o que? Não poderia ficar sem essas duas preciosidades. Portanto, dobrou os recortes, e, colocou na carteira e a carteira no bolso da calça jeans. Saiu para almoçar.
Apesar da pequena neblina e da temperatura baixa de manhã, o meio dia dos angustiados estava meio quente pela fome de viver.*
Os pequenos grãos de papéis e madeiras umedecidos pulavam desordenados a cada martelada que ele dava na madeira podre. Seu cabelo já estava escuro, pois, não colocara nada para proteger os belos fios acinzentados. Tinha que limpar um pouco, retirar aquela crosta de barro esburacado que se formara no fundo emendando com o teto do guarda-roupa. Ao retirar os livros, isto é, o que sobrara, tinha que ter um cuidado para que eles não se desfizessem ao toque dos seus dedos, havia uma camada de pó por toda a parede do guarda-roupa. Entre muitos livros viam-se os pequenos vermes de corpo branco com a cabeça escura tendo um pequeno ferrão. Um deles caiu na mão ferroando a pele deixando um pequeno vergão avermelhado. Não precisou tirar os parafusos, estando à madeira umedecida e podre, com rápidas marteladas, uma a uma conseguiu deslocar os lados e, em seguida, o teto que caiu sem precisar colocar força nenhuma, e, por último, as divisórias e o assoalho. Com um suspiro de “acabei”, limpou o chão do quarto, e estranhou o espaço enorme, que não aparecia, aumentando o tamanho do ambiente. Agora era preciso chamar o pintor para dar um retoque na parede escura em contrapartida com as outras paredes, esperar os caras medir e montar o próximo guarda-roupa que, talvez daqui a trinta ou quarenta anos, se ele estiver vivo, empenhar-se numa nova batalha. Quem sabe! Assim como o amor um dia acaba, o guarda-roupa não permanecerá eternamente.
Apagou a luz e, tendo o dever cumprido, pegou a toalha, a roupa, entrou no banheiro para um bom e merecido e prolongado banho.

* Fome de viver. Excelente filme com a Catherine Deneuve, Susan Sarandon e David Bowie, do diretor Tony Scott, irmão de Ridley Scott. A trilha sonora difícil de achar.


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