quarta-feira, 16 de junho de 2021

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Pequenas histórias 298

O noivado

 Como ficar noivo sem fazer festa


A árvore, na opinião geral, estava bonita. Alguns até exageravam afirmando que estava mais bonita que do ano passado. Exagero, bonita estava, mas não como os anos anteriores, pois cada ano tinha sua parcela de beleza.

E os presentes? Não podiam dizer que estivessem menos ou mais bonitos que os anos anteriores. De fato, tinha pacotes de todos os tipos, uns mais enfeitados e maiores que os outros. Parecia uma disputa, um torneio para ver quem apresentava o pacote mais bonito do ano. Colocados em baixo da árvore, devido à quantidade, ultrapassava quase o meio do belo cipreste enfeitado.
E as adivinhações corriam soltas entre as pessoas:

- Ah! Este pequeno é de fulano.

- Aquele bonito é do sicrano.

- O grande ali é do beltrano.

- Esse aí é preciso cautela.

- Por quê?

- Não soube o que ele fez o ano retrasado?

- Não, o que foi?

- O ano retrasado não teve amigo sacanagem, só o amigo ladrão.
- Sei, fiquei sabendo.

- Então, o danado colocou na roda uma calcinha vermelha, toda enfeitada, minúscula.

- Queira ver. E quem pegou?

- Fui eu, e ninguém quis trocar comigo, acabei ficando com a calcinha...
- Ah, mas também fiquei sabendo que ele fez uma bela surpresa para a namorada.

- Foi mesmo, isso tiro o chapéu para ele, surpreendente.

- E o que foi?

- Foi uma caixa enorme toda enfeitada com desenhos da Betty Boop cheia de bombons de todo e qualquer tipo, e no meio dos bombons tinha um secador de cabelo, bonito, ultimo tipo e uma bela camiseta. A mulherada ficou babando e os homens com inveja.
- Ouvi dizer que foi um comentário tremendo, não foi?

- Claro que foi. O cara é esperto.

- Esperto? Por que esperto? Não vejo nisso esperteza nenhuma, mas sim, romantismo.

- Digo esperto porque aproveitou o casamento da prima da namorada para se apresentar aos familiares da namorada.

- Ah concordo com você.

- Então, todo mundo perguntava durante a cerimônia quem era aquele rapaz, e na festa ele foi apresentado, causando comoção geral.
- E esse ano o que será que ele vai aprontar?

- Olha não sei, só espero que ele não tenha me tirado.

- Está com medo é?

- Não é medo, é...

- É o que então?

- Sei lá o que ele vai aprontar...

A noite, apesar da chuva que não parava, estava agradável. As conversas rolavam em paralelas, em transversais, os pratos uns mais atraentes que os outros, o chope nos trinques, como se diz na gíria alcoólica, em fim tudo transcorria as mil maravilha.
- Pessoal, vamos começar a abrir o amigo secreto? – perguntou a anfitriã.
E assim, aos poucos o pessoal foi se reunindo em volta da bela árvore abarrotada de presentes. No momento em que todos estavam reunidos, a anfitriã tomou novamente a palavra:
- Pessoal esse ano vamos fazer diferente. Ao invés de adivinhar quem tirou quem, vamos direto, sorteamos um nome e a pessoa sorteada já fala quem ela tirou, e assim sucessivamente, certo?
- Certo – disseram em coro.

Dessa maneira o fulano foi o primeiro sorteado. Ele tirou o sicrano. Este abriu seu presente sacanagem e chamou quem ele tirou e, assim sucessivamente um a um os pacotes iam sendo abertos em meio às gargalhadas, brincadeiras, e piadas proferidas aqui e ali. Por fim, chegou ao que todos esperavam. Chegou à vez de beltrano. No meio da sala, pisando em papéis picados, pedaço de folhas, papelões rasgados, pairou um silêncio absurdo, todos na expectativa aguardavam ansioso quem beltrano tinha tirado. Segurando o enorme pacote, começou:

- Bom... – os olhares recaíram sobre ele – meu amigo secreto não é homem.... – aliviados suspiraram os homens...

- Ainda bem estamos livres.

- Hein, você nos enganou, disse que tinha tirado o...

- É, mas não é meu amigo secreto é uma mulher...

- Ah! Não diga, pensei que fosse um ET – gracejaram.

- Encurtando o suspense...

- Acho bom – gritou uma voz feminina no fundo da sala.

- Isso mesmo, já está demorando – ouviu-se outra.

- Pois bem, minha amiga secreta é...

Silêncio. Todos mudos esperaram o pronunciamento.

- É minha namorada.

As mulheres aliviadas suspiraram e os homens num só voz, gritaram.
- Marmelada, marmelada, marmelada...

Meio apreensiva, ela pegou o enorme pacote das mãos dele, beijando-o na boca.

- O pai, não vê esse despudor na frente de todo mundo?

- Vamos parar com essa beijação.

- Deixe para fazer isso depois que casarem.

Por fim, sem se importarem com as piadinhas, se separaram.
- Espero que goste – disse ele se pondo ao lado.

Ela pegou o enorme pacote encostando ao ouvido como se quisessem ouvir alguma coisa.

- É uma bomba – berrou alguém.

- É uma moto – gracejou outro.

- Não tem nada, está vazio – disse a mãe.

Lentamente abriu o pacote, isto é, a imensa caixa. Dentro só havia papéis picados.

- Em cada lado da caixa tem um embrulho, tire na ordem, e no fundo tem outro, cuidado – disse ele antes que ela enfiasse a mão no meio dos papéis picados.

Em cima tinha um bilhete ao qual ela leu em voz alta:
- Já que estamos em um novo momento de nossas vidas, com apartamento quase pronto, novo, vou te ajudar a enchê-lo.
Primeiramente retirou o embrulho que estava no lado direito da caixa. Tinha um rodo e uma vassoura de brinquedo e um bilhete.
- Com a vassoura e o rodo para você limpar a saudade...

A algazarra foi geral.

- O único poeta aqui é o pai da namorada.

- Que romântico.

- Ei, silêncio, vamos ouvir o resto.

No segundo pacote tinha uma batedeira, também de brinquedo e um bilhete.

- Com a batedeira para você fazer os sonhos que construiremos juntos.
Novamente a algazarra invadiu o espaço numa gritaria só. Foi preciso a anfitriã gritar para que se acalmassem.

- Vamos ouvir e ver pessoal, silêncio!

No terceiro pacote tinha um liquidificador, de brinquedo e o bilhete.
- Com o liquidificador faremos os mais gostosos bolos de amor.
- Mais um poeta na família – gritou uma voz.

- Quando se ama todo mundo é poeta – gritou o pai da namorada.

- Silêncio – pediu a anfitriã.

No quarto pacote, havia um rolo de macarrão, e o bilhete.
- Com o rolo de macarrão, amaciaremos os nós de nossas vidas.
Palmas e vivas estrugiram numa só voz de parabéns.

Emocionado, revelando um nervosismo, ele disse:

- O último pacote esta no fundo da caixa, cuidado.

Jogando os papéis picados para fora da caixa, ela retirou do fundo uma caixinha vermelha de veludo tendo em cima um bilhete:

- Agora só falta casarmos.

E dentro um par de alianças.

A partir daí ninguém mais entendeu ninguém. Abraços e beijos de felicitações correram de um ao outro. Exclamações de admiração foram proferidas, até que a calma voltasse a reinar novamente.
Tempos depois, um pai feliz, tomando seu chope, pensava numa pergunta que, antecipadamente, sabia que não tinha resposta.
- Se trinta anos atrás, seguisse minha vontade e, não a vontade alheia, como teria sido a minha vida de casado hoje?

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DO LADO DE DENTRO

 


- A velha, boa e saudável vida virtual, com toda a família reunida em torno da placa de circuito para recarregar a bateria, está ficando na saudade. Já diziam os antigos, cobertos de razão, que o recarregamento é hora sagrada. Todos devem largar o que estão fazendo e dar graças para se realimentar. O próprio nome "celular" vem de célula, e a célula mater da sociedade é a família. Isso antigamente, né. Hoje ninguém está nem aí... nem nossos filhos.



- Concordo, meu amor. Estamos parecendo aqueles infelizes do outro lado do visor. Mesmo quando estão juntos, parecem estar sozinhos. Coitado desse povo de carne e osso.



- Bom mesmo era em mil novecentos e bolinha, aqui do nosso lado. Você com certeza se recorda como os aplicativos interagiam, abriam suas janelas sem medo dos hackers de tocaia atrás dos ícones, prestes a atacar e invadir o sistema.



- Ai esses meninos... olha lá, é só descuidar um pouquinho e pronto! Não se pode virar as costas e eles já ficam com a cara enfiada na tela pra espiar o lado de fora, vasculhando o maldito mundo real! Não sei que graça veem naquilo.



- Covid, violência, guerra, inflação, desemprego, Jair Bolsonaro. Precisa ter uma tela muito estreitinha para se contentar com estas porcarias.



- Bons tempos os da minha avó, nascida na era da internet discada, das salas de bate-papo, quando ainda se faziam buscas no Altavista e no Cadê! Ô meu Deus, que época boa! E minha mãe, então? Praticamente uma viciada no ICQ. Já o meu pai foi um dos 50 primeiros seres desumanos a terem uma conta no Orkut.



- Verdade. Estava aqui puxando pela memória RAM e me recordei quando a gente brigou, lembra? Joguei suas fotos sem backup na lixeira, tirei você do meu papel de parede, jurei que não ia deixar um áudio sequer de recordação.



- É, mas não demorou uma semana pra gente reiniciar. Mesmo eu tendo descoberto uma ligação perdida sua para um número desconhecido.



- Nada de mais, tinha todo direito, a gente não estava mais junto. Entrei no modo avião e viajei adoidada, conheci chips novos... cheguei a ficar com dois ao mesmo tempo! Fiz planos e mais planos, todos ilimitados.



- Tolinha.



- Você é que pensa...







Esta é uma obra de ficção.

© Direitos Reservados



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terça-feira, 8 de junho de 2021

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LATIFÚNDIOS URBANOS






"As fazendas verticais são estruturas localizadas nos grandes centros urbanos, destinadas ao plantio de vegetais em camadas verticais. Este tipo de cultivo agrícola utiliza meios tecnológicos para a sobreposição de produção na mesma área, ou seja, a produtividade é intensificada devido ao aproveitamento do espaço aéreo sobre o solo. Em uma fazenda vertical a produção é feita de maneira protegida, na qual todas as variáveis possíveis são controladas, como iluminação, água temperatura e nutrientes. O resultado é uma produtividade altíssima sem a necessidade de agrotóxicos. Ocupando edifícios de vários andares, galpões, fábricas desativadas e outros espaços, garantem também uma logística de distribuição infinitamente mais rápida e mais barata, por estarem dentro das cidades e próximas aos consumidores."

Fonte: infoescola.com





Esteja a pandemia em que onda estiver ou mesmo arrefecendo, os home offices proliferam e consolidam sua permanência. Em lugar das cadeiras giroflex, o que gira nos antigos andares corporativos são aspersores regando nabos, rabanetes, brócolis e chuchus. Debaixo de uma iluminação artificial que varia entre o rosa e o roxo, fazendo lembrar as discotheques dos anos 70.



Os pequenos produtores rurais, que dependem da venda de sua escassa produção de hortifrútis e dos bons ventos meteorológicos, têm de se reinventar no curto prazo sem a menor ideia de para onde correr. É impossível, a céu aberto, ter a mesma produtividade e o índice zero de perdas das fazendas verticais, nas quais necessariamente nada dará errado.



Lindos prédios espelhados, condomínios de escritórios que até há pouco eram ocupados por executivos apinhados de MBAs, agora ostentam intermináveis e nada charmosos canteiros de chicória. Sem mais função, metade dos prédios da Avenida Paulista e da Berrini vêm seu metro quadrado despencar a preço de banana para a nascente megaindústria vegetal.



Adaptar o mesmo e revolucionário sistema produtivo às grandes extensões exigidas pela soja, algodão, arroz e milho é só uma questão de tempo. De pouco tempo.



Se os prestadores de serviço em sistema home office passam a receber em suas casas, a preços ridiculamente baixos, alimentos de qualidade insuperável, em contrapartida toda uma cadeia produtiva está fadada à ruína em efeito dominó: fábricas de defensivos, implementos agrícolas, fornecedores de propriedades rurais, mão de obra de baixa e alta qualificação do agronegócio, caminhoneiros, centrais de abastecimento, concessionárias de rodovias, indústrias de autopeças, quitandas e minimercados de bairro, etc.



Todo esse assustador contingente de desocupados sucumbirá, mais cedo ou mais tarde, por fome, sede ou doença. E os prestadores de serviço, que se supunham a salvo em seus escritórios domésticos, constatarão que quase tudo o que faziam tinha relação, direta ou indireta, com aquele gigantesco exército de desempregados e seus dependentes.



Prosperando mesmo, só as fazendas verticais. Que também não resistirão à falência, por não terem a quem vender seus saborosos e nutritivos frutos.







Esta é uma obra de ficção.

© Direitos Reservados

Imagem: istoe.com.br





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sexta-feira, 4 de junho de 2021

 Nosso querido amigo recentemente nos deixou.

Receba nossa homenagem sincera a esse que foi amigo, poetrixta e editor, muito querido.

Você deixou sua marca em nossos corações.

 

Marcos Gimenes Salun

 

Nasceu em 15 de setembro 1953, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Cursou comunicação social e formou-se jornalista em 1978 pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FMU-FIAM). Foi free-lancer em inúmeros jornais de bairro, editor e repórter de jornais de empresa por longos anos. É coeditor do jornal “O Bandeirante”, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Sobrames-SP, na qual também ocupou cargos na diretoria por vários anos. Organizou e coordenou diversos encontros culturais, jornadas e congressos literários nacionais e internacionais. 

Participou de várias coletâneas e antologias, sendo em muitas delas também seu organizador e editor. Premiado em inúmeros concursos literários. Em parceria com Roberto Caetano Miraglia publicou o livro “Contos & Encontros” (1998), com objetivos benemerentes. Autor dos livros: “Meu Gato Sumiu” (1998 - 2a.edição 2011). “Trilogia Paciente” (2000), “O Encantador de Passarinhos” (2011), "Tia Mariquinha, me conta uma estória?" (2014), "Esquinas Noturnas" (2014) e "O Natal Estragado". Coautor, com Helio Begliomini, do livro “Sobrames Paulista - Compêndio de seus 20 anos de história - (1988/2008)”.

Foi membro da Academia Virtual Brasileira de Letras - AVBL, onde ocupava a cadeira nº 60. Tem trabalhos literários publicados em inúmeros sites, sendo coautor de várias coletâneas virtuais (e-books). Foi membro no Movimento Internacional Poetrix - MIP.

Abaixo, alguns de seus poetrix:

 

ANAMNESE


Verso sem papel

Só uma nova chaga

Sem cauterização

 

APENAS PERDÃO


Não! Basta!

Reneguei minha poesia.

Quero versos de redenção.

 

BICHO DA SEDE

Que tece

Veios de seiva

Da seca onde quer chegar

 

CARDÁPIO

Quanto de mim já é você?

Quanto de você sou eu?

Receita sem medidas.

 

CONSTATAÇÃO

Perguntei ao tempo: já?

Ela me disse: vive!

Parei de questionar.

 

ENVELHEÇO 

desperto todo dia

para achar meu norte

monotonia.

 

ESPÉCIE INVASORA

 Erva daninha

Tanta vida pra usurpar,

Escolheu logo a minha.

 

FÓSSEIS

 Encontrei pedaços de mim

enterrados numa gaveta

quase me descobri. 

 

 FRUIÇÃO

 Prazer e posse

êxtase indescritível,

doce delírio.

 

HABILIDADES

Risco incertezas

bordo amarguras

ponto cruz

 

LACUNA

Não adianta assim:

Eu sem sentir você

Você sem saber de mim

 

MARIPOSEANDO

Hipnótica luminosidade

Calorosa intimidade

Um dedo no interruptor

 

VIRADA

(re) novação?

Nada é novo

é tudo de novo.

 

 REVOADA

 Por dentro,

sempre fervilhando

essas eternas asas.

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