terça-feira, 20 de julho de 2010

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Bruna Maria - Um beijo e eu te dou o mundo

Ela tinha um dos pés contra a parede, joelho flexionado, e a outra perna correndo esguia até o chão. Fumava. Uma sirene tocou por cerca de meio minuto. Ela tragou o cigarro, apressada, e jogou o que sobrara ao chão, sem se preocupar em apagar a guimba ainda acesa. Em seguida, da mesma direção de que soara a sirene, ela ouviu o som do burburinho e de movimentação. Era o intervalo. Era o recreio.
A rua onde ela estava, do lado de fora do animado pátio do colégio, estava deserta. A sonoridade divertida vinda do interior da escola fez com que ela cogitasse um leve arrependimento por estar do lado de fora, matando mais um dia de aula.

Olhou o relógio. Era cedo. Mas não daria mais tempo de entrar para a aula. Caçou então goma de mascar num dos bolsos de sua bermuda, para se distrair enquanto nada acontecia. Sabor menta. Começou a mascar e voltou a olhar o relógio. Leve enfado – nem um minuto se passara e parecia que ela já estava ali há muito mais tempo.
Mas do outro lado da rua, na calçada em frente, algo começava a mudar. Um altivo carro chegava, e logo estacionou. Ela, então, tirou o pé da parede e se pôs firmemente ereta, em espera. Fitou o carro com total atenção, a ponto de nem mais ouvir o burburinho que vinha de dentro do pátio da escola.
Enquanto ela observava o automóvel, uma de suas janelas abaixou vagarosamente, denunciando um chamado vindo de seu interior. Alguém fazia sinal para que ela se aproximasse.
A rua permanecia deserta. E, sem demora, ela pegou sua mochila no chão, jogou em um de seus ombros e atravessou em direção ao carro. Estava decidida a acatar aquele chamamento.
Chegando à janela, uma voz lhe foi imperativa. “Entre”, disse. A porta, em seguida, se abriu. Ela, então, cuspiu o chiclete no asfalto e arremessou seu corpo no banco da frente do carro, ao lado do motorista que lhe mandara entrar. Um cheiro misto de xampu adocicado, menta e cigarro, se confundiu com o aroma de bancos novos daquele opulento veículo.
A porta do carro, assim, foi fechada. Na penumbra, tudo ocorreu ligeiramente – e um homem lhe pediu um beijo. A princípio, ela achou estranho, e até hesitou. Mas ele disse que ela poderia ter tudo, se o beijasse e se quisesse.
Então, sem mais hesitar, ela o beijou, apaixonadamente.
Ainda de olhos fechados, com os lábios colados nos do homem, ela seguiu imaginando o pátio da escola com suas correrias, distrações e brincadeiras. E concluiu – era pouco, muito pouco, para quem, a partir dali, poderia ter tudo que quisesse; para quem, afinal, poderia ter o mundo.




Imagem: toyota


2 comentários

Jorge Xerxes

Bruna, Gostei! "...ela poderia ter tudo, ...se quisesse." Um Beijo! Jorge X

Bruna Maria

Olá, Jorge!

Fico feliz que você tenha gostado =)

Obrigada pela leitura, um abraço!