quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

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A DANÇA DOS ARCOS 2 . - JANDIRA ZANCHI


A DANÇA DOS ARCOS 

2.

     Marian chamou o povo. Organizava um baile de máscaras e, antes de deitá-las, preferia ouvir os desmandos de cada face.
-         Não entendo porque não me ornou a natureza com caracóis de cachos negros – lamentou um rapazola.
-         Os homens não me lançam seus olhares – disse a mocinha casadoira. Perseguem sereias que de si não tem mais do que uns requebros ensaiados, mesquinhos.
-         Lutei e venci muitos dragões de mal trato – afirmou um guerreiro. Ainda assim preferiram elevar ao posto um camarada que nos últimos tantos torneios não fez mais do que regalar-se.
-         Meus filhos são ingratos – disse, por sua vez,  a avozinha. Não me trazem seus melhores bolos e as uvas só regalam os seios de suas esposas.
-         Não tenho um bom marido – choramingou uma mulher. Não se alegra de minhas prendas e não larga a garrafa de vinho.
-         Sou um filho justo – afirmou um homem de bigodes pretos. Mas, minha mãe enfeitiçou-se do mais novo à custa de que lhe caem melhor os ternos e o leite.
-         Minha amante faz pouco caso de minha virilidade – manifestou-se um aldeão. Prefere os rapazes que não a sustentam, que só a cumprimentam para levá-la ao leito.
-         Sempre lancei minhas preces para o amor – chorou uma mulher. Por que a natureza foi ingrata comigo e deixou-me vazia do ensejo de agradar?
-         Não fui bem sucedido – afirmou o valente. Que não se espere boa face de mim, nem cumprimentos. Cercearam-me a boa forma, pois que se entornem no azedo do leite.
      Marian procurou as máscaras e começou a costurá-las. Não teve nenhum que despediu sem uma receita.
-         Cabelos lisos e escorridos são mais fáceis de arranjar-se.
-         As boas esposas não são as fartas de carnes e modos.
-         O sacrifício é o sacerdócio dos eleitos, enquanto a vaidade corrompe e envilece.
-         As senhoras devem orientar-se pelas rezas. Já venceram o tempo do apetite.
-         O homem que se embriaga desencantou-se, primeiro, de si mesmo.
-         O favorito nada mais é do que o espelho do poder. O poder é arregimentado ao aleatório dos fatos.
-         Quem pouco se estima menos estima tem a quem o ama.
-         O verdadeiro amor só nascerá muito além de onde se situa o desejo.
   Com o último deparou-se. Nenhuma máscara lhe servia. A bem da verdade, já tinha o pé para fora do reino, arrombado à camaradas de igual desfrute.
-         Aos ambiciosos não se adula. Fazem o sacerdócio dos nódulos e não demora o dia em que vestem a face do diabo. Chamam-nos Os Inimigos e não se pejam de seus fogos. São o cerne das estórias historicamente contadas. As sociedades que se organizam desfeitas de uma boa distribuição de faces acabam por falecer-se nos gritos desses rebentos.
      Dançaram por muitas luas os que se uniram no círculo. Entre si fizeram acordos e lhes foi dado um naco do reino. Teimaram em se estreitarem a um rio de pedras que os redimia da pele manchada. Ainda assim o deus não os despediu. Orientados pela face visível, começaram o movimento por detrás da imagem.
    O Sol também refletia na sombra. E dela, um dia, nasceriam filhos justos e cantos perfeitos. Não era explícita a vazão da vazante.

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