domingo, 12 de fevereiro de 2012

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Glória em Fátima

Fátima era faxineira do motel, mas poderia perfeitamente trabalhar para o crime organizado, livrando-se de evidências profissionalmente. Assim que o casal, a dupla, o trio ou o quarteto desocupava a suíte, Fátima entrava em ação. Começava abrindo portas e janelas para arejar o cheiro de sexo e evitar o mofo no carpete do chão e das paredes. Trocava a roupa de cama e as toalhas ensacadas, aspirava o chão, limpava o vidro da mesa da antesala e dos espelhos todos, menos o do teto, que normalmente permanecia limpo, mas nem sempre. Esvaziava lixeiras e cinzeiros, conferia o frigobar, desinfetava o banheiro e com uma lanterna iluminava o blindex em busca de manchas comprometedoras. Meia hora depois que ela entrava em um quarto, era impossível afirmar que a próxima não seria sua primeira locação.

No entanto, quando o quarto era alugado para o parceiro de Glória, Fátima praticamente não precisava trabalhar. A primeira coisa que Glória fazia ao entrar no recinto era ligar o ar-condicionado e tirar as roupas, as dela e as de quem a acompanhasse. Normalmente estava acompanhada de Osvaldo - que tinha complexo, seu sonho era se chamar Oswaldo com W, tipo os gringos, segundo ele. Mas no amor, não há exclusividade, apenas exclusão.

Glória pendurava as roupas e a bolsa no cabideiro. Desensacava as toalhas e as pendurava no box, descartando os plásticos no lixo. Fazia o mesmo com o envólucro do preservativo. Depois do banho, catava os cabelos presos no ralo, jogava na privada e dava descarga. Por fim, fazia a cama e lavava os dois copos.

Quando Fátima a via no corredor, até já sabia. Encostava as costas na parede e exclamava:

- Ô glória!

Ela cuidava do quarto de motel como se fosse sua segunda casa. E Glória era uma puta dona de casa!

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