quarta-feira, 31 de outubro de 2012

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O SARAU DE POESIAS


   A majestosa porta de ferro se abre e a antessala se apresenta impecavelmente preparada para o recital de poesias. Uma mesa de centro redonda, com toalha de veludo cor de vinho, uma mandala formada por cristais e dois castiçais com velas recepcionava os visitantes e dava o tom retrô ao evento.
   O convite indicava que o momento exigia roupagem de época e alguns convidados levaram a sugestão à risca. Afinal, a ideia era proporcionar uma viagem no tempo aos participantes...
   Pessoalmente, decidi usar uma saia longa, uma blusa com botões e tirar do fundo da caixa aqueles colares de pérolas falsas, até então abandonados, que de repente ganharam vida. Para completar, um sapato scarpin bordado, comprado em uma providencial liquidação e utilizado pouquíssimas vezes, e uma bolsinha de mão, dessas que salvam qualquer modelito, quando aparece uma festa de última hora...
   Pronto! Agora é só recitar os poemas dos dois escritores que escolhi, com uma linguagem atemporal, e aquele poeminha modesto, sem grandes pretensões, que escrevi em cima de reminiscências à beira-mar, criado por mim... Pretendo utilizar alguns recursos do teatro amador e emprestar emoção à recitação e, mais importante, fazer de tudo para não gaguejar na hora, ou errar o texto...
   A organizadora toca a sineta e dá as instruções para o ritual. Um a um, os escritores locais vão timidamente recitando as poesias de sua escolha. Aos poucos eles vão se soltando, se deixando tomar pela emoção das palavras impressas, entrando no clima dos poetas e de suas obras.
   Inicialmente, o sarau estava restrito aos escritores convidados, que se revezavam no toque da sineta e na leitura das poesias. Depois o público começou a chegar, lentamente e com certa desconfiança, mas foi ficando. Até os skatistas que se divertiam com manobras no entorno do prédio resolveram “conferir o que tava pegando”, atraídos pelo som produzido pelo violonista.
   O clima de magia tomou conta do lugar e o tempo passava sem que se percebesse. Em determinado momento do encontro lírico das letras, quando o sol estava se pondo, o trem passou apitando bem perto e todos ficaram surpreendidos e encantados ao mesmo tempo. Era um sinal de confirmação: estava acabando mais uma etapa dos “Saraus de Poesias nos Trilhos do Trem”. Todos foram embora levando no peito uma pontinha de saudade...

Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e radicada em Jaraguá do Sul (SC) Brasil desde 1996.

2 comentários

Jorge Xerxes

Sonia,

Gostei Muito de Sua Crônica Poética!

"Em determinado momento do encontro lírico das letras, quando o sol estava se pondo, o trem passou apitando bem perto e todos ficaram surpreendidos e encantados ao mesmo tempo."

Um Beijo! Jorge

Sônia Pillon

Obrigada, Jorge Xerxes! E que privilégio o meu de ter contato com os teus poemas e os de Jorge Vicente para a minha recitação "Dois Jorges Poetando"! Beijos, Sônia