sábado, 12 de janeiro de 2013

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O GÊNIO ATORMENTADO QUE FEZ ESCOLA - SÔNIA PILLON

Um tiro à queima-roupa! Imagine um jovem assistir seu irmão levar um tiro fatal no estômago, bem na sua frente. A testemunha em questão contava pouco mais de 17 anos, e a cena o acompanhou por toda sua atribulada existência, marcada pela tragédia, na vida real e na ficção. Inspirou gerações, quebrou paradigmas, expôs a hipocrisia burguesa na vida privada, foi tachado de pornográfico, amoral e imoral... Um gênio atormentado do século 20: amado por uns, odiado por outros.
Em seus contos, crônicas e peças teatrais, desnudava o comportamento ambíguo da sociedade carioca, urbana e suburbana. Transitando entre o erudito e o popular, carregou a experiência do jornalismo (seu ganha-pão oficial, desde a adolescência) para as páginas de suas obras, onde sobravam clichês e interpretações reacionárias.
Aquele ser inconstante e imprevisível bebeu intensamente na fonte de Dostoiésvski, sem se preocupar em seguir nenhuma escola literária. Porém, sua originalidade não passou em branco. Some-se a isso o retrato perfeito que reproduzia de sua época através da linguagem, com gírias e expressões, tão ao gosto popular.
É incrível! Mas bastar olhar para Ismael que a imagem daquele controverso autor me vem à cabeça! E não é porque ele tenha alguma semelhança física com o célebre dramaturgo, não!
O que me faz linkar Ismael com o polêmico escritor é aquela visão, digamos, meio cínica em relação à vida e às pessoas. Aquela postura que o faz desacreditar nas instituições e em tudo o mais. Aquela descrença em valores como ética, sinceridade, solidariedade genuína, fidelidade...
Amor? Sentimentalismo? Romantismo? E desde quando um desiludido da vida vai acreditar em coisas que não sejam palpáveis, como números, estatísticas, resultados concretos?
Curtir a vida e os momentos, sem compromisso com nada, nem com ninguém, sem pensar no amanhã: esse é o seu lema. “Amor não é tudo na vida!”, teria dito ele certa vez.
Soube que semana passada Ismael estava dentro do metrô quando presenciou aquela terrível briga de casal, em que o homem puxou uma faca e golpeou a mulher várias vezes, para horror dos passageiros. Pouco depois o agressor desembarcou na Estação da Sé. Ninguém fez nada para impedir. A vítima morreu ali mesmo, envolta em uma poça de sangue.
- A vida como ela é!, com certeza pensou Ismael. É assim que ele sempre fala nessas horas. É... O gênio atormentado de Nelson Rodrigues fez escola!

Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e radicada desde 1996 em Jaraguá do Sul (SC), Brasil desde 1996.

2 comentários

regina ragazzi

Com certeza Nelson Rodrigues era um gênio. Sou fã!!!Tanto que uma vez me atrevi a escrever um conto ao estilo dele.Claro, passou longe né. Mas eu tentei. Adorei o texto. Abraços

Sônia Pillon

Obrigada, Regina Ragazzi! Ele sem dúvida continua inspirando alguns por aí, com sua amargura latente, que exalava pelos poros e por todas as suas obras... Abraços!