terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

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Não consigo dar um título a tanta dor


Não consigo dar um título a tanta dor
                                                Lílian Maial



“A poesia está ferida.
Versos se negam a soletrar passarinhos,
rimas queimam folhas em branco, 
tudo é escombro.
O riso da letra deu lugar ao lamento
e a dor é insuportável.
Nem o silêncio é conforto!
Um céu cinzento de chuva e de fumaça,
confusão imiscível na manhã.
Um poema ardeu meu peito.
Um adeus lambeu a canção.
Réquiem para os meninos sem amanhã.”
                        – Lágrimas de Santa Maria –


Estou até agora tentando entender a mistura louca dos meus sentimentos, diante dessas 234 mortes no incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Num primeiro momento, lamentei, como qualquer pessoa que ouve uma notícia terrível de morte traumática, como: incêndio, afogamento, esmagamento e afins. Logo me coloquei no lugar das mães desses jovens, mãe que sou de adolescentes, e pude avaliar a dor do nunca mais. Nunca mais os sorrisos, o cheiro da pele, os beijos despretensiosos na hora de sair, o café da manhã preparado com amor e orgulho, as tardes de domingo no sofá, comendo pipoca e assistindo a filmes B. Nunca mais o futuro, festas de formatura, casamentos, netos imaginados, visitas, aniversários, Natais, nada! Um vazio imensurável tomou conta de mim. O que seria da minha vida sem meus filhos, assim, de repente? Então veio o sentimento humano de alívio de não terem sido os meus.
Logo a seguir, uma vergonha se apossou do meu coração. Vergonha de ter sentido alívio. De ter preferido que fossem os filhos dos outros. Uma reedição, em pensamento, da “escolha de Sofia”. Será que é natural, que é humano? Sim, é, eu sei, mas é tão solitário esse sentimento! Coloca-nos tão sozinhos no mundo e, ao mesmo tempo, tão iguais! Não houve pai ou mãe que não tenha sentido a mesma coisa.
Aí vieram os comentários nas redes sociais, de tudo que é tipo, expondo feridas, recalques, fanatismo e mau gosto, como também solidariedade, união, orações e poesia.
Discussões sobre quem seria o responsável, se o dono da boate, os seguranças, a banda que se apresentava. Quem, além dos órgãos de fiscalização? Sim, porque todo cidadão contribui com impostos de todos os tipos, para a garantia de sua segurança, que inclui a fiscalização de todo e qualquer estabelecimento comercial, público ou  privado, de diversão, bens e serviços. Acidentes em barcos de turismo, em parques de diversão, em encostas, em estradas, em edificações... Quantas mortes já não houve por falta de fiscalização e superlotação? Basta lembrarmo-nos do “Bateau Mouche”, dos desabamentos de edifícios, de jovens projetados de brinquedos de parques de diversão e tantas outras mortes evitáveis, se cada um cumprisse seu dever.
Cai um avião, culpa do piloto. Morre criança num hospital, culpa do médico que faltou ao plantão (e vinha faltando havia meses). Desaba edifício, culpa do mestre de obras. Incêndio na boate e agora vão querer culpar a banda, que fazia esse tipo de espetáculo em todas as casas de show nas quais se apresentavam. E a fiscalização dos bombeiros? E o alvará vencido? E a superlotação? Onde está a fiscalização? E porque não interditaram antes? Como pode um estabelecimento, uma casa noturna, não ter uma saída de emergência, uma sinalização, uma saída nos fundos, e receber autorização de agentes do governo para funcionar? Simples: porque ninguém se importa.
Agora, certamente, vão chover denúncias de boates irregulares por todo o país. Casas noturnas serão fechadas, numa dramatização de fachada, com alguns bodes expiatórios, até que tudo caia novamente no esquecimento, como tantas outras tragédias que nosso povo já vivenciou, muitas até hoje sem solução, como os inúmeros desabamentos noticiados.
E o contribuinte pagando e pagando, acreditando-se seguro. Ninguém está seguro em lugar nenhum! E nós todos vamos esquecer em poucas semanas ou meses. Só não vão esquecer - jamais - os pais desses jovens, que viram seus filhos privados do amanhã.
Esse último sentimento – o da culpa pelo esquecimento – trago no peito, reavivado, em chama ardente, a cada nova desgraça, que me lembra do quanto sou humana, imperfeita e assustada com minha própria impotência, sem a menor condição de proteger sequer a mim, que dirá aos meus!
Não, não consigo dar um título a tanta dor, tanta negligência, tanta injustiça, tantos pesos e tantas medidas diferentes pela vida. Eu só queria, como eles, dançar pela noite, lavar a alma de tanta alegria e, quem sabe, ver o nascer do sol.


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