quinta-feira, 25 de abril de 2013

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CONTAÇÃO: "Conta-gotas", por M.Mei






CONTA-GOTAS


A água que pingava anunciava os segundos, como um relógio ajustado, insistente, infinitamente enlouquecedor. E gotejava, aquela água suja, do teto até o balde que Eulália havia depositado na trajetória do contador de tempos, enquanto esbravejava para dentro de si sobre os relaxos dos vizinhos do apartamento de cima. E o balde logo transbordaria uma tarde toda, e Eulália viria esvaziá-lo para, novamente, resmungar sobre os descuidados dos irresponsáveis, onde é que já se viu trocar piso e não arrumar vazamento, oras... E sobra sempre para o coitado de baixo!

E atentaria para o teto a menear a cabeça em reprovação, e a água além de tudo suja, e o teto pode desmolengar em um buraco grande, olhe só esse gesso apodrecendo, bem no meio da minha cozinha! E então miraria os olhos apertados em meu prato de bolachas de aveia e meu copo de café muito doce, muito açúcar para um velho diabético que não sabe se cuidar, bem capaz de morrer antes mesmo de esse teto desabar em cima.

E veio pela porta da sala, passou por mim e pelo balde sem notar a rotina já instalada ali, como a mesa retrátil de nossas refeições diárias ou a fruteira de canto abarrotada de mamões para o correto trabalho do intestino ou o sabão-pedra a derreter numa pequena poça de água dentro da pia. Voltou da lavanderia trazendo outro balde, menor que aquele prestes a romper fronteiras de tempo e espaço, fez a troca e saiu a murmurar maldições para cima.

_ O homem do conserto não veio, Eulália?

Não tive a voz de Eulália, mas ouvi a água jorrar no tanque, todos aqueles segundos a escorrer pelo ralo, sem destino ou passado que os valesse a existência conformada, incessante e estúpida. E eu me senti ainda mais como aquele balde, repleto de tempos a esmurrar os limites, a pressionar a vida em toda a sua superfície. E prestes a transbordar como uma alma em despedida.

E então, antes mesmo da última insinuação, o jorro. Um correr de momentos e rotinas e olhares e diálogos e banhos e caminhares e tudo, a reciclar a vida como se houvesse possibilidade de moldar a explosão do tempo. Do meu tempo.

Eulália voltou à cozinha e esbarrou em meus pensamentos. Afinou os olhos sobre minhas bolachas e o café com muito açúcar, previu a infeliz fortuna que me assolaria mais rápido que ao teto apodrecido pela água, e girou os passos a caminho da porta que ligava cozinha e sala. Eulália era linda, as gotas de sua vida só fizeram enchê-la ainda mais de graça, e era então nestes últimos anos que ela transbordava delicadamente.

_ O homem do conserto não veio, Eulália?

Ela virou-se e experimentou um sorrir de ternura pacienciosa. Pois eu não via que a água ainda pingava? Sim, minha querida Eulália, eu já havia visto a água e o teto e o balde e os vizinhos irresponsáveis. Só o que eu queria agora era ver os seus olhos sorrirem para mim.



Mariela Mei é poeta e escritora. Bloga em gracadesgraca.com
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2 comentários

Anderson Furtado

Não me canso de enriquecer o meu vocabulário lendo os belos textos da Mei. Simplesmente demais. Parabéns. Toda Quinta fico ansioso pela publicação de seus contos.

tótó

é inútil e cansativo elogiar seus contos. Você ultrapassa o espaço reservado para isso, nesse pequeno retângulo. Aguardo seu próximo conto com ansiedade