quinta-feira, 16 de maio de 2013

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CONTAÇÃO: "Camilin" - por M.Mei



CAMILIN

O que nos faz crianças é o nosso imaginário,
o que nos faz adultos são os nossos segredos.


Era manhã ainda quando saí para ir à escola e o encontrei lá, em frente ao portão, revirando o lixo com umas mãos escuras e de todo ossos. Ou poderia ser à tarde, e eu saía para a aula de balé. Mas as mãos eram escuras, e ele todo era magro como o abandono. Camilin era seu nome. A verdade é que era outro, mas isso ninguém sabia. Nem ele mesmo. Sem identidade, Camilin agora fazia parte do entendimento real e imaginário de nossa cidade, ainda que dela se apartasse, ainda que toda a sua condição o marginalizasse de qualquer compreensão de humanidade. Camilin era nosso, mas não o desejávamos.
E naquela manhã eu o desejava menos ainda. Quando cheguei à calçada ele me olhou com uns olhos desesperados e vermelhos, os olhos da loucura. De sua boca saía um pedaço de papel higiênico sujo de merda. Saíam também algumas palavras incompreensíveis, embaladas por uma embriaguez diferente, algo como um excesso de existência que o sufocasse e fizesse com que cuspisse maldições. Camilin mandou-me embora de minha própria casa e atirou uma lata amassada na minha direção para que eu tomasse meu rumo mais rapidamente. Naquele dia o odiei e desejei que ele morresse afogado no lixo. Aquele foi o único dia em que não tive compaixão de sua condição de andarilho miserável que trazia a demência como um fio tensionado entre a vida e a morte, mas também o único dia em que falei com ele: mandei-o à merda.
Camilin andava pelas ruas de Orlândia o tempo todo porque a cidade era a sua casa – onde dormia, comia e fazia os hábitos. Mais que um homem, Camilin era um cão sem dono. Ladrava para os que se aproximavam por saber de seu exílio, e ninguém com quem eu tivesse conversado poderia precisar há quanto tempo ele sofrera a metamorfose. Diziam apenas que aquele homem roto e louco costumava ser um violeiro dos bons e que a maldita droga é que havia derretido seu cérebro. Mas poderia ser também por sequelas da tortura do início dos anos 70, ainda que jamais se tivesse ouvido sobre qualquer agente do Dops por aquelas bandas.
Fosse como fosse, Camilin era nosso. Como uma verruga que ignoramos apesar do incômodo. Um personagem desconexo de uma comunidade que, por conveniência ou crueldade (e eu opto pela segunda), apenas aceitou e incorporou como seu. Seria um desses ícones mágicos, não fosse a realidade madrasta, que o transformou em maldito e fez com que aterrorizasse o imaginário das crianças daquela cidadezinha do interior aos avisos dos pais – Criança malcriada, Camilin vem pegar!
Mas, para mim, perambulando pelas ruas ou me amaldiçoando, Camilin era quase uma entidade, uma aparição momentânea, a constatação da existência e, por fim, o esquecimento. Tanto que ainda hoje a memória costuma me pregar peças, e é comum encontra-lo caminhando pelas ruas de Campinas, remexendo o lixo alheio ou carregando o saco de estopa nas costas. Camilin foi nosso, mas não o desejávamos. Não ali, circulando pelas calçadas e amaldiçoando os bons pedestres. Não ali, revirando as intimidades descartadas pelas famílias de bem da cidade. A verdade é que às vezes era mais fácil ignorá-lo, como ao tumor benigno que não faz valer a pena a cirurgia. Mas Camilin era apenas uma pinta saudável numa sociedade de todo doente.





Mariela Mei é poeta e escritora. Bloga em gracadesgraca.com
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4 comentários

Mariana

Ela tem o Dom da palavra!!!

Anderson Furtado

Concordo com a Mariana. Excelente final. Não me canso de repetir. Parabéns Mei.

antonio branco

Se no texto encontro "excesso de existência", na autora, encontro longe, bem longe de uma prosa poética, a construção de uma personagem impecável. Presente e inesquecível. Hábil.

maria

MUITO bom. Incomoda. Dói. Porisso mesmo... MUITO bom.