quinta-feira, 27 de junho de 2013

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CONTAÇÃO: "Sem meias" - por M.Mei





SEM MEIAS


— Senhor, por favor, eu terei que pedir que retire estas meias.
— Retirar minhas meias? Mas por quê?
— Porque meias são proibidas aqui, senhor.
— E por que meias seriam proibidas nesta sapataria? Eu preciso delas para escolher meus sapatos!
— As meias são proibidas aqui, senhor. Não sou eu quem as proíbe, são os clientes. Todos aqui decidiram que as elas não devem mais ser utilizadas, então o senhor vai ter que tirar suas meias.
— Mas eu não vou tirar! Eu tenho direito de usar meias! Eu quero usar meias! Elas esquentam e protegem meus pés! E, sem as meias, como saberei qual o melhor sapato? Se eu vou calçar os sapatos no meu dia a dia usando as meias, eu tenho que experimentá-los com elas!
— Mas aqui as meias são proibidas, senhor.
— Tire logo as meias, homem! Sem meias, sem meias!
­— Isso mesmo! Sem mei-as! Sem mei-as! Sem mei-as! SEM MEI-AS!
— EU NÃO TIRO! As meias são minhas! Eu sempre usei e não deixarei de usar! As meias são importantes para mim, não serão vocês a falarem o que eu devo ou não usar!
— Se não tirar as meias, a gente vai tirar à força!
— É isso mesmo! Tire logo!
— E eu posso saber por que é que vocês não querem que eu use as minhas meias?
— Porque aqui nesta sapataria elas não são permitidas! Todos estamos sem meias! Aqui é uma sapataria, viemos pelos sapatos, não pelas meias! Quer usá-las, vá a uma loja de meias!
— Mas as meias fazem parte do conjunto! As meias são essenciais para os sapatos! São elas que ajudam a acomodar sapatos aos pés!
— Mas nesta sapataria elas não são permitidas! Ninguém aqui quer experimentar sapatos usando meias!
— Como assim? Vão acabar comprando os sapatos errados! Vocês nem saberão como será calçá-los todos os dias com meias, se não experimentarem usando meias! E mais... Toda sapataria empresta meias para os clientes que não estão usando na hora da compra, esta mesma sapataria já me emprestou várias vezes para que eu pudesse experimentar os sapatos!
— Mas não fazemos isso mais! Agora é assim: quer comprar aqui, não pode usar meias. Se usar, vai ter que sair. Se não quiser sair, vai perder as meias! Ou os pés!
— Se forem tirar minhas meias, terão mesmo que arrancar meus pés junto! Eu não tiro!
— SEM MEIAS! SEM MEIAS! Sem mei-as! Sem mei-as! Sem mei-as!
— Mas isso aqui é um absurdo! E a vontade do cliente de usar meias? E a liberdade do cliente de vestir o que quer para comprar sapatos? A loja não garante a vontade, a liberdade do cliente?
— Sim! Garantimos a liberdade! A liberdade de não usar meias! Aqui ninguém usa meias, ninguém confia nas meias! Elas ficam úmidas e apertam as canelas! As meias só servem para condicionar o uso do sapato! Se você experimenta um sapato com meias, terá que continuar usando as meias sempre que for calçar os sapatos! Não poderá se desfazer delas, no fim estará usando meias furadas e velhas!
— Mas que baboseira! Eu escolho usar meias da mesma forma que escolho não usá-las! Eu sou livre para usar ou não! Não sou escravo das meias, eu apenas gosto delas!
— Ninguém aqui usa meias!
— Ninguém aqui está usando meias porque vocês estão proibindo! Estão coagindo os clientes! E eu conheço muita gente aqui que até outro dia usava meias!
— Ninguém mais gosta de meias!
— Muitos não gostam, é verdade, mas tem uns e outros aqui que nem sabem o que estão fazendo, apenas tiraram as meias por tirar! Ei, vocês aí! Vocês sabem o que estão fazendo? Vocês já pensaram no que as meias fazem pelos pés de vocês? Já pensaram que, não fossem as meias, vocês não conseguiriam usar muitos desses sapatos?
— Será? É isso mesmo?
— Não sei... Mas eu bem que desconfiava que alguma coisa estranha estava acontecendo...
— É, eu acho que as meias podem ser boas... Elas não me deixam ter chulé, pelo menos.
— Mas o que é isso? Vocês estão malucos? Senhor, estou pedindo que se retire da loja. Agora, além de se recusar a tirar as meias, o senhor está tumultuando, colocando ideias na cabeça das pessoas.
— Mas é lógico! As pessoas têm que pensar! Vocês estão cerceando o direito de usar meias e de pensar! Isso não pode, isso é um crime! Que loja é essa? Vende sapatos, mas não quer que as pessoas escolham a forma de calçá-los? Isso sem falar no desrespeito em relação a quem vem aqui fazer uma compra, ou seja, prestigiar a loja, fazer com que ela prospere!
— Nós não precisamos de quem insiste em usar meias.
— Ah, não precisam? Pois então acabarão se ferrando! Podem até encontrar pessoas que se sintam bem sem as meias, mas elas não são muitas. E, pouco a pouco, todas essas pessoas que hoje tiraram as meias, um dia precisarão delas. E então irão parar de comprar nesta loja, passarão a procurar sapatos em lojas que permitam as meias, que inclusive sejam a favor delas!
— Você só diz isso porque é um idiota adorador de meias! Sem meias! Sem mei-as!
— SEM MEI-AS! SEM MEI-AS!
— É isso mesmo! Até agora eu tentei ser educado, mas o senhor continua aqui. Já que não quer tirá-las, vai sair da loja na marra!
— Você vai ver! Um dia as pessoas voltarão a usar meias!
— Pode até ser. Mas agora a regra é essa. Quer fazer parte, tem que tirar as meias. Pode usar qualquer outra coisa, menos as meias!
— Qual o problema de vocês? São vendedores de sapatos ou contra as meias?
— Somos vendedores de sapatos. E também contra as meias.




***

Mariela Mei é poeta e escritora. Bloga em gracadesgraca.com
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OBS: a periodicidade da coluna mudou! Por tempo indeterminado, os contos serão quinzenais ao invés de semanais.

2 comentários

Anderson Furtado
Este comentário foi removido pelo autor.
Anderson Furtado

É... Este conto capta o que falta muito hoje em dia. As pessoas pensarem sobre como agem e porque agem de tal forma. Poderia se aplicar a diversas situações corriqueiras. Novamente parabéns Mei.