quinta-feira, 27 de junho de 2013

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ENTREVISTA COM O ESCRITOR DANIEL LOPES

Daniel Lopes é paulistano, graduado em Letras Português/Espanhol pela Unesp, mestrando em Filosofia pela Unifesp. Autor do romance É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança e do livro de contos Pianista Boxeador, neste ano lançará o romance A Fruta.
Ele edita o blog: pianistaboxeador21.blogspot.com.br, além de ter colaborado em diversos portais literários.



Ítalo Calvino divide os autores entre escritores do fogo (aqueles que fazem suas obras a partir das emoções) e escritores do cristal (aqueles que constroem seus trabalhos norteados pela racionalidade). Em qual desses grupos você se encontra? Ou ainda, há um grupo do qual você se sente parte?
Acredito que fico entre ambos, uma espécie de cristal em chamas, embora valorize a emoção mais que a razão. Acho chatos livros racionais demais, menos os do Borges.


Muitos dos seus personagens integram o grupo dos desajustados que perambulam pelo mundo, seus narradores os tratam com a ternura que o mundo os negou. Ao olhar com afeto para eles, você escreve para salva-los ou para salvar a si mesmo?
Não sei se você se lembra da imagem no Apanhador no campo de centeio, quando o Holden diz que gostaria de ficar na beira do abismo aparando as crianças que cairiam no buraco, e nesta hora surge no corpo do texto o título do romance, ele, Holden Caufield seria o apanhador no campo de centeio. Acho que comigo funciona mais ou menos assim. Escrevo porque dói, porque a vida é inexplicável, porque o sofrimento não tem fim. Se fosse Buda, meditaria até sair da roda do sofrimento, como não tenho tanta paciência nem perseverança, escrevo. Escrevo por mim e por todas as crianças que caminham inadvertidamente para o abismo. Escrevo para ser também o apanhador no campo de centeio.


Há muitas antíteses em seus textos, você aceitaria o rótulo de autor barroco-pós-moderno?
Não sei. Sou de ascendência mineira e Minas é um estado barroco. Há muito de Minas no que escrevo, das histórias que meu avô contava ao redor da lamparina quando anoitecia. Lá em São João da Ponte não tinha energia elétrica até os anos 1990. Tento recontar histórias como ele, só que passando por outras influências como Bob Dylan, Vincent Van Gogh, o pessoal do Clube da Esquina, Camille Claudel, Heidegger, Deleuze, Nietzsche, Schopenhauer. Céline, John Lennon ou Robert Fripp, por exemplo.


Você possui uma grande produção entre os trabalhos editados, inéditos, posts em seu blog e contribuições para outros portais literários. A quantidade pode interferir na qualidade alcançada pelo distanciamento e a reescrita?
Acho que sim, mas não tenho paciência para ficar reescrevendo demais. Nenhum dia pode ser tão ruim se o intestino funciona bem logo pela manhã, escrevo como quem caga. Para me livrar de uma intensidade que exige de mim que eu a passe pelo papel, ou para o papel. Não é muito higiênico ficar revirando as fezes. Gosto do texto quando ele é ideia, sensação, corpo, quando se torna palavra eu já o perdi. É uma carta que eu espero que seja encontrada.


Em seu blog e em portais com os quais você contribuiu você postou ensaios provocadores e bem originais, mas parece que você não os valoriza com o intuito de construir uma obra tal qual fez com os contos e romances. Por quê?
É muito difícil publicar um livro no Brasil, você tem que pagar. Eu gostaria de ter tudo editado, bonitinho, em livro digital e de papel, mas não tenho grana suficiente, então tenho de escolher. Primeiramente sou um ficcionista, os ensaios surgem do questionamento do que sinto quanto ao próprio ato de escrever. Sinto necessidade de escrever, depois de certo tempo escrevendo, comecei a me questionar por quê? Para quem? Os ensaios são a tentativa de responder a tais perguntas.


Você escreveu um ensaio chamado “Mas não façamos literatura” e produziu dois vídeos em parceria com a sua esposa: “Quem precisa de cricríticos?” e “Quem precisa de escritores?”. Qual é a sua relação com o mercado literário e como você o percebe?
Não tenho relação alguma. Tudo o que editei até agora, paguei do meu próprio bolso. Acho que é uma indústria como outra qualquer, o que importa não é a literatura e sim a grana. No entanto, estamos no mundo, neste mundo, é preciso sobreviver, eu dou aulas. Ficaria contente se pudesse viver só da escrita. Não sou o cara mais ético do mundo, sou meio azarado, mas isto não vem ao caso. Só não suportaria trair a ferida... O texto... Em troca de dinheiro. Se o dinheiro vier sem mentira, com a literatura fincada na verdade, bem; se não, não vou morrer de fome. Sigo tocando a vida.


Mesmo com as publicações no mundo virtual por que ainda é uma meta ter um livro editado?
É o Édipãozão, para mostrar para minha mãe que não sou um inútil.


Em seu trabalho há referências a outras linguagens como pintura, música e cinema. Como você transforma este diálogo entre as diferentes expressões artísticas em literatura?
Acredito que vem tudo do mesmo lugar, só muda a linguagem. Um quadro de Van Gogh, de Cézane, uma música do Beto Guedes, do Baby Huey, um texto do Nietzsche, ou do Dostoievsky, me tocam profundamente. Para mim, é tudo igual, não quero nem saber da técnica, desde que o artista entregue a chama. Para isto, é preciso conhecer o deserto.


O que há de importante para os leitores perceberem em sua literatura?
Rapaz, nem eu sei. A verdade, acho.




2 comentários

Carlos Davissara

Ótimas perguntas e respostas conscientes. Mais uma vez Daniel Lopes nos faz refletir sobre a vida e o fazer literário. Parabéns ao entrevistador e ao entrevistado. Abraços!

Anônimo

Gostei muito!!! Essa dupla é demais!! Parabéns! Abraço,
Nanci