quarta-feira, 30 de julho de 2014

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SOMOS PERGUNTÁVEIS


Pablo Neruda, no O Livro das Perguntas, com ilustrações de Isidro Ferrer e a tradução de Ferreira Gullar, chama a atenção para as diversas perguntas que, diante do mundo, tem sabor de poesia. Como, “Porque as árvores escondem / o esplendor de suas raízes? Porque se suicidam as folhas / quando se sentem amarelas? Que dirão da minha poesia / os que não tocaram em meu sangue?” “Posso perguntar ao meu livro / se é verdade que o escrevi?”
Somos perguntáveis por que em todos os momentos da vida o questionamento é importante, como demonstração de interesse, crescimento e mudanças; sem contar que as dúvidas sempre estão alojadas, ao longo do tempo, como parte da nossa concentração. “Quem me mandou escancarar / as portas do meu próprio orgulho? “Quem é aquela que te amou / nos sonhos enquanto dormias?”
Neruda, com propriedade, faz uma enxurrada de perguntas e o livro fica parecendo uma criança perguntando sem parar; assim, leva o leitor a pensar na vida. “Porque nos tempos escuros / se escreve com tinta invisível? De que cor é o perfume / do pranto azul das violetas?”.
Outro marco nas perguntas é que elas podem se repetir, refletindo um dos sintomas da cultura: a curiosidade. Somos motivados pela curiosidade e moldados pela sociedade para gostar de uma coisa ou de outra. E ainda, somos movidos pela flexibilidade, apontada como facilitador nos questionamentos. A indecisão também é bem vinda ao mundo das perguntas, pois libera a expressão e não atropela seus próprios limites. Aprendemos a admirar ou a repelir, que fazer perguntas significa descobrir e construir:“Como se chama a flor / que voa de pássaro em pássaro? Onde fica o centro do mar? / Por que não vão até lá as ondas?”.
As inúmeras situações que o autor questiona no livro substituem a dor do silêncio, onde escondemos o medo, mas, que ao se revelar em curiosidade nos remete às conquistas e é nesse momento que nos entregamos a algo mais fluído e menos delimitado. “É verdade que a tristeza é larga / e estreita a melancolia? Com as virtudes que esqueci / posso fazer-me um traje novo? Sofre mais quem espera sempre / ou quem nunca esperou ninguém?” Trocar ideias com alguém significa mudança ou juízo de valor?”
Somos perguntáveis, porque aguça o debate e nos ajuda a ter voz e a entender a sociedade e, ainda, nos permite conhecer o desconhecido: “É verdade que de noite voa / sobre minha pátria um condor negro? E o onde o espaço termina / se chama morte ou infinito?”
As perguntas nos encaminham para debater os assuntos na busca de novas experiências, ao romper as barreiras; mais, nos revelam o desejo para com outras pessoas e o desafio para encarar o tema: “E que importância tenho eu / no tribunal do esquecimento?"
O ato de perguntar está em Neruda, que mostra como é necessário dar voz ao que se deseja e ao que se sente. Também, cria a sensação de que, sempre e sempre, temos muito a explorar e, com as perguntas, renovamos e saboreamos a liberdade do pensamento como desejo de ir além do limite ao concentrar-nos em alargar fronteiras, para alcançar respostas expressivas no momento do desafio ao novo: “Por que voltei à indiferença / do oceano sem limites? Em qual janela fiquei / olhando o tempo sepultado?”
Pablo Neruda, na obra, busca reforçar vínculos com as palavras ao diversificar as perguntas que iluminam e provocam a nossa voz ao mostrar as tantas “verdades” das expressões. Colhe um fragmento aqui e outro ali, e tudo parece simples ao tempo comum: o ontem e o hoje revelando as dúvidas do nosso viver. “Não será nossa vida um túnel / entre duas vagas claridades?”
O Livro das Perguntas é interessante e ideal para aumentar a comunicação em diversas situações; permite ao leitor a reflexão ao destacar as diferentes vozes na conclusão de que somos perguntáveis. “Onde está o menino que eu fui? Está dentro de mim ou se foi? Onde termina o arco íris / em tua alma ou no horizonte? Que mais pesam na cintura, / as dores ou as recordações? Onde encontrar uma sineta / que soe dentro de teus sonhos? A quem posso perguntar / que vim fazer neste mundo?”

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