Marcelo Ariel é poeta, performer e
dramaturgo, reside em sua cidade natal Cubatão, nasceu em 1968, possui uma
vasta produção, ele é autor dos livros Tratado
dos anjos afogados (Letraselvagem, 2008), Conversas com Emily Dickinson e outros poemas (Multifoco, 2010), O céu fundo do mar (Dulcinéia Catadora,
2009), A segunda morte de Herberto Helder (21 Gramas, 2011); Teatrofantasma ou o doutor imponderável contra o onirismo groove ( Edições
caiçaras, 2012), O rei das vozes
enterradas (Córrego, 2015), Retornaremos
das cinzas para sonharmos com o
silêncio (Patuá, 2014), este último semifinalista dos prêmio Oceanos. A
obra na qual a conversa abaixo está pautada é o seu mais recente lançamento A criação do mundo segundo o esquecimento
(Córrego, 2016), lançado no dia 16 de Março, na Casa das Rosas, em São Paulo.
Marcelo, se a beleza pode ser o
centro do demônio as bordas dele podem ser chamadas de estética?
Do ‘ demônio ‘ no sentido mais
amplo do termo, o sentido esquecido e que está na fonte terminológica, nesse
caso, a beleza pode ser o centro daimônico do ser, mas falo principalmente, de
uma beleza da invisibilidade e da transparência diante da outridade e da
alteridade do mundo, de tornar nosso rosto transparente e invisível, esta possibilidade
a meu ver, reside na profunda humildade e reverência diante das possibilidades
de ser um com o Daimon e ao mesmo tempo, criar em si uma imensurável abertura
para o rosto do Outro que se reflete sempre no nosso, se reflete nas nuvens e
na copa das árvores também, como metáfora, o mundo me parece um enorme circulo
incessante de metáforas e possibilidades do silêncio como abertura para este
centro daimônico. Respondendo de modo mais preciso a questão colocada por você,
se as bordas são as bordas do ser e existe um movimento de surto para
atravessá-las, se são as bordas do ser são também as bordas do mundo, mas isto
não pode ser reduzido para leis ou regras da estética, pertence ao chamado
caminho do místico, a beleza da invisibilidade e da dissolução e transparência
é uma via mística do corpo.
Dentro do seu livro você propõe um dicionário
que tem como foco a miséria cultural, sendo você reconhecido pelo trabalho com
a poesia, é possível inserir um verbete sobre a produção poética contemporânea?
Sim, pensei nisto, mas a atualidade
do poema o coloca como uma antiforça muito acima do mercado, o mercado estaria
para o poema como uma metafísica falida, obviamente existe muito narcisismo e
muita exposição de lixo emocional no que é chamado de poesia contemporânea, um
certo lirismo que beira o patético em sua tentativa de salvaguardar as noções
mais superficiais, tais como identidade e estilo. Nossa voz é uma soma de
silêncios traduzidos para um dialeto que podemos chamar de poema, neste dialeto
a palavra ‘ eu ‘ é apenas lixo a ser reciclado, imagine uma operação alquímica
que transformasse plástico em orvalho. A chamada poesia contemporânea viciada
no eu apenas repete elementos que podem desembocar depois no culto da
personalidade, por uma força de contradição que espero me ajude a evoluir,
possuo uma conta no facebook, mas tento ali brincar com esta noção de eu, o eu
é uma porta de saída para a natureza, uma vez nela, será ótimo atirar a chave
da porta na superfície de um lago, há um texto maravilhoso de Gide, chamado ‘
Tratado de Narciso ‘ que acaba de ser lançado pela Editora Córrego, que trata
bem destas questões.
Como se dá escrita que rompe com a
arbitrariedade do signo da palavra e pretende migrar para o impacto da
linguagem visual?
Pela exploração de outras
temporalidades, outros materiais, por uma via mística do corpo como uma
expansão capaz de dissolver as fronteiras entre exterioridade e interioridade,
também pela exploração e imersão no surto como forma de conhecimento do mundo,
pela alteridade radical.
Se a incapacidade de sair de si é o
que faz o artista, por que o barulho dos egocêntricos ditam as normas da cena literária?
A covardia dita as normas da atual
cena literária e também uma certa nostalgia paralisante e bajulatória. O
mercado é uma força totalitária e os escritores se rendem por estarem em estado
de autohipnose narcísica.
Se o exercício da poesia hoje, é
algo autêntico não mais um showzinho do ego ou exposição do lixo emocional do
autor. Como evitar esta armadilha quando o autor tem de se envolver na
divulgação por ter seu trabalho publicado por uma pequena editora?
É necessário que exista o amor
movente, creio que leituras em prisões, aldeias, acampamentos, ocupações, é
imensa a importância de exercícios dialógicos de troca de experiências onde não
exista o sentido do ato poético como algo exclusivo, tento fazer isto nos
cursos livres que realizo em parceria com ONGs e Prefeituras. É preciso
encontrar de novo o mistério de um rosto humano, a entrega paciente a afetuosa para
o diálogo silencioso com um rosto humano.
Os antenados de nossos dias estão
condenados a se tornarem os carrascos do futuro?
Creio que não, muitos já perceberam
que existe O ABERTO, que o encontro com a alteridade é imprescindível e
incancelável.
Lendo a sua produção é possível
perceber um diálogo com a obra do Juliano Garcia Pessanha, mesmo assim, não é
possível nenhuma transmissão de lâmpadas com escritores contemporâneos?
Sim, este diálogo existe e não
apenas com Juliano Garcia Pessanha, mas com outros ‘pastores do ontológico’ que
se movem em regiões de alteridade e do estranhamento, ou seja, fora da
literatura, os fios das lâmpadas estão entrelaçados na paisagem, como heras que
crescendo próximas, escrevem um hieróglifo num muro infinito.
Você menciona a promessa não
cumprida de Gláuber Rocha de filmar Wild
Palms, de Faulkner em Hollywood. Qual é a sua?
Gravar um disco de samba e me
dedicar integralmente para a pintura são promessas que fiz para mim mesmo sendo
você.
Escrever torna o real em mais
subjetivo ou o subjetivo em acessível?
Existem ‘ n’ dimensões do real e
nenhuma está livre de ser sonhada.
Se a literatura é o único discurso
com poder suficiente para enfrentar a manipulação da publicidade, da mídia e
dos governos, por que ela se alia a estes setores?
Por comodismo, preguiça e covardia,
talvez, de qualquer modo, o lugar do poema é bem longe da literatura como ‘
função ‘ e ‘ utilidade ‘, a tendência é que o poema contínuo se torne espaço e
a literatura apenas tempo.
Escrever o silêncio é o ápice da
comunicação?
Comunicar o silêncio é o começo do
diálogo profundo.
Como evitar que a ilusão do real
nos engula?
Amar até ser capaz de sair de si e
perder tudo, condição da riqueza ontológica, sonhar a vida como se ela fosse um
fragmento do infinito dentro do finito. Em breve o editor amador Daniel Kairoz
deve lançar pela Pharmakon o meu trabalho ‘ O LIVRO DAS ÁRVORES DENTRO DO LIVRO
DOS SALMOS DENTRO DO LIVRO DOS ANJOS SEM NOME ‘ e antes disso, outro editor
amador, no sentido de ‘ aquele que ama’, Eduardo Lacerda , deve lançar pela Editora Patuá, o COM O DAIMON NO
CONTRAFLUXO, são exercícios e tentativas fracassadas de amar de um modo radical
pessoas que jamais irei conhecer.


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