Havia seis potes de guloseimas e, curioso como era, estava perdido entre eles.
Sua característica era se perder e, o que era pior, facilmente. Até mesmo na
própria casa se perdia. Quantas e quantas vezes não foram encontrá-lo
perambulando pelo quarto, outras vezes pela sala e, o que era mais cruciante,
perambulando lá embaixo, no playground. Não tinha noção e nem percebia quando
estava perdido. Esforçava-se para entender o processo que o levava a se perder.
Chegou à terrível conclusão. Ele não tinha mais condição humana, estava
desgastada, vivia a que lhe conviesse. Sendo assim, todo o dia tinha uma
condição diferente. O que deixava as pessoas aterrorizadas, pois não sabiam o
momento e nem como deveriam agir. Por mais que ficasse de olho nele, sempre
passava algo despercebido e, quando notavam, pronto, lá estava ele em lugares
inusitados. A última vez a empregada encontrou o coitado nu, abraçado a estatua
que estava dentro do chafariz do jardim.
Surgiu a possibilidade de interná-lo. O que o
deixou mais agitado e com os olhos mais abertos e espertos esquadrinhando o
movimento de cada um na casa. Também, depois disso, aventaram a possibilidade
de que ele, inteligentemente, estava fingindo. Não, ele não estava e podia
provar que não estava fingindo, o que sentia e, o que se passava com ele, era
real, a dor por mais pura que seja, por mais insignificante que seja, ela crava
no peito o punhal de aço esborrifando sangue abstrato nas camisas de linho.
Com as costas apoiada num dos potes, elevou os
olhos para cima na esperança de que pudesse alcançar a tampa. Ledo engano, não
havia possibilidade de tal façanha. No entanto sentia que precisava chegar ao
topo. Ali estava a sua salvação, dizia suas entranhas. Como e porque ficou
desse tamanho? Onde estava o pessoal que não vinha socorrê-lo? Estava ele
encolhendo? Sorriu ao ver o cartaz do Incrível homem que encolheu. Filme se
tornando realidade? Não podia ser.
Precisava alcançar a cama. Sentia-se cansado.
Afastou-se um pouco, e pulou segurando-se no cartaz pregado a parede. Nisso o
papel começou a rasgar. Alguém, lá no fundo, quase inaudível ouviu dizer:
- Não! Traça no meu cartaz favorito! Cadê o
spray para traça?
Viu um estranho desconhecido objeto se
aproximando dele. Não esperou para ver o que era. Com um impulso que, com isso
rasgou um pouco mais o cartaz, se jogou direto na cama.
O frágil corpo bateu no lençol branco e ficou imóvel. Foi quando sentiu uma picada dolorosa no braço esquerdo. Logo em seguida seus olhos começaram a ficar pesados, não conseguia deixar eles abertos. Uma névoa esbranquiçada encobriu sua visão. A última coisa que viu antes de apagar totalmente foi um cara vestido de branco, com uma prancheta na mão, conversando com uma mulher. Pareceu ouvir a mulher dizer: Doutor. Doutor?!!!!!

Seja o primeiro a comentar:
Postar um comentário