domingo, 14 de agosto de 2022

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Cerração.

Seis horas dizia o mostrador luminoso do rádio relógio. Logo em seguida, a campainha do celular também começou a berrar. Relutante, com a sonolência impregnada nos braços, soergueu o corpo num ângulo em que pudesse alcançar com as pontas dos dedos o interruptor do alarme do rádio relógio. Já o celular foi obrigado a erguer mais o corpo esticando a mão e arrebatar o pequeno objeto de cima da cômoda e desligá-lo. Voltou a deitar-se com o rosto voltado para o lado da parede.

Segundos depois, ao abrir a porta recebeu no rosto a neblina cerrada enregelando as fibras musculares. Não deixou de conter os dentes que batiam um ao outro. Fechou o último botão da jaqueta de couro sujo e saiu. A visibilidade nula encobria tudo na manhã que deveria pelo menos apresentar o morno sol de outono. Cauteloso, evitava dar passadas largas, pois olhando para baixo, não via as pernas, do joelho para baixo estavam encobertas pela nuvem cinzenta escura. Arrastava os pés apalpando degrau por degrau.  
Na rua a situação estava catastrófica. O ar parado impregnava a neblina nos corpos como grude. Não se enxergava nada. Era preciso o maior cuidado para não colidir com as pessoas paradas ou que vinham em sentido contrário. Conseguia escutar o ronco dos veículos, assim mesmo sutilmente, pois como as pessoas, os veículos andavam lentamente. Ouvia-se algumas vezes batida de lataria e vidros quebrados. Logo a seguir, uma porta sendo violentamente fechada e vozes discutindo vorazmente para depois sumir no silêncio que envolvia tudo.

Parado no meio fio da calçada a espera do fretado, aguçava a audição a fim de vislumbrar sons que pudesse identificar o ônibus. O que o aterrava mais a situação era o pesado silêncio que se fazia ouvir, de vez em quando interrompido por barulhos difíceis de identificar.
Nisso, ouviu o som de uma porta se abrindo bem na sua frente ao mesmo tempo um voz que o convidava a entrar. Ufa! Estava ficando nervoso, disse a si mesmo pisando nos degraus do ônibus. Envolvido por uma quentura opressiva, notou que o veículo também, em seu interior estava completamente impregnado pela cerração. Não viu o rosto do motorista, apenas sua voz dizendo: bom dia. Entrou. Olhou para o pessoal todo encoberto pela neblina pairando sobre eles. Achando sua poltrona, sentou e quieto ficou a matutar o que estava acontecendo.

Quase que instantaneamente, viu-se plainando numa atmosfera suave, apesar de sentir certa acidez nos movimentos. Plainava no ar parado, sem vento, sem brisa num gesticular egocêntrico dos braços. Dirigia-se sem noção do destino, como arco que retesado lançava a flecha ao alvo. E qual era o alvo que deveria atingir? Não sabia. O único que sabe é o dono do arco e flecha. A principio, a velocidade lenta, dava a dimensão que não chegaria nem na metade do percurso. No entanto, ao chegar à metade do lançamento, sentiu um impulso violento, onde quase perdia o sentido sendo apenas levado pela noção do caminho a percorrer.
Com os braços abertos ouviu o aviso sonoro de que chegava ao andar. Saiu do elevador confiante de ser ele mesmo, assim como o dia era o dia de uma manhã fria e de pouco sol. Passou o crachá para liberar a porta de vidro, em seguida para marcar o horário de entrada, e sentou em sua baia para o cumprimento de mais um dia de felicidade.

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