quarta-feira, 3 de agosto de 2022

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O guarda-roupa.


A primeira martelada que ele deu na madeira, o som oco de podre, reboou pelo quarto todo, passou pela sala, saiu pelas janelas e porta da cozinha, anunciando os quarenta anos de existência do guarda-roupa. É tempo prá caralho, pensou ao dar a segunda martelada. Estava precisando de uma chave de fenda grossa senão não conseguiria retirar a serie de gavetas. Com dificuldade levantou, não era mais o moço de vinte anos quando ajudou os caras a montar esse monstro. Ainda tinha força para fazer alguma coisa, e não era um trambolho qualquer que iria derrotá-lo, mostraria que ainda tem utilidade, que não era apenas morador. Na caixa de ferramentas onde podia encontrar de tudo menos ferramentas, por uma casualidade inexplicável, encontrou a chave de que precisava. Empunhando o cabo da chave com resoluta convicção, introduziu-a entre a madeira das gavetas e a madeira da parede direita do guarda-roupa. Com precisas e pequenas marteladas no cabo vermelho, conseguiu despregar, uma a uma, as gavetas. Instante depois retirava o conjunto. Levando-o para fora da casa, ao colocar junto com as outras madeiras, comprovou que esse conjunto foi mais difícil de retirar que os outros dois conjuntos, talvez pela quantidade maior de gavetas.

Ontem com facilidade, removendo os pinos das dobradiças para retirar as portas, foi que viu a mancha escura num dos batentes. Sorriu. Não tinha a capacidade metafísica de uma barata para, com criatividade, dialogar com a mancha escura e feia seu crescimento intelectual. Assim sendo, com uma martelada no batente desfez a mancha que não passava de um montículo de madeira deixada pela larva do cupim.

Sentou na beira cama. Indeciso não sabia por onde atacar. Apesar de várias partes terem sido comidos pelos cupins, a madeira ainda era resistente. Por outro lado, estava bem encaixada nas duas paredes, a do fundo e a da esquerda. Não sabia se começava pela parte de baixo, o que poderia ocorrer um acidente, pois a parte de cima que compunha o maleiro, provavelmente, sem o apoio de uma das laterais, correria o perigo de cair em cima dele. Pelo lado impossível, isto porque a madeira era uma só, do chão ao teto, deveria ser bem pesada. Talvez, o mais provável era começar por cima mesmo.

Pensando bem, recolheu as ferramentas, o martelo, a chave de fenda, os pinos das dobradiças, com a vassoura varreu o chão do quarto, levou para fora as portas, os conjuntos de gavetas, ao todo três conjuntos, guardou a escada, deixou apenas o esqueleto do guarda-roupa.
Sob os protestos da esposa e filha, se enfiou no banheiro para uma gostosa ducha e revigorar o corpo. Enfiou-se no pijama, e se enfurnou debaixo das cobertas, se entregando ao sono. Dormiu um sono profundo.

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