sexta-feira, 23 de setembro de 2022

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O soro.


Não queria, mas o trouxeram contra a vontade. Olhou para o frasco pendurado acima da cabeça. O liquido pingava lentamente descendo pela fina mangueira até o seu braço. Soro! É só isso o que eles sabem dar. Soro! Tenho de sair daqui. Sairei daqui agora mesmo, disse arrancando a parafernália que o prendia. Levantou-se, sentiu-se meio fraco, mas logo se firmou. No corredor ouviu uma esganiçada enfermeira berrando pelo médico. Não deu ouvido. Dirigiu-se a porta. Nisso sentiu-se agarrado pelo braço. Espere você não pode sair assim. Não lhe demos ainda o remédio necessário. Volte. Com indiferença gélida, olhou para o médico. Vá à merda. Quero sair e nenhum filho da puta vai me segurar aqui berrou sem ouvir a própria voz. Num safanão liberou o braço das garras do médico. Este fez um gesto ao segurança para que o deixasse. Escuta meu filho, escuta primeiro, depois poderá ir que ninguém vai te segurar. Diga logo que não estou a fim de aguentar nem mais um segundo aqui. Você está errado. Fique até ser curado totalmente. Para que? Para você, merda de médico e enfermeira me envenenarem com drogas? Para que eu volte mais vezes aqui e com isso vocês me tratarem pior do que animal que vai para o abatedouro, é? Vão à merda, é o que eu digo. Ninguém me segura aqui. Ao mesmo tempo sem olhar, abriu a porta.

Uma lufada de vento cheirando a podridão invadiu seu nariz. Recuou um pouco. Olhou para trás. O médico, a enfermeira e o grandalhão do segurança, sorriram. Será que eles têm esperança que eu desista? Não desistirei. Não desistirei nunca. Então percebeu que o corpo flutuava mansamente. Suspenso no meio do nada tentou se agarrar no trinco da porta, mas porta e edifício se desfizeram levados pelo vento gélido e fedido. Já não flutuava mais, caia vertiginosamente, rápido a ponto de ficar sem fôlego. O chão se aproximava rapidamente. Sentia o cheiro do asfalto penetrando na carne preparada a se esborrachar em mil pedaços. Se desse para movimentar os braços será que conseguirá voar? Que nada. Pura balela. De repente tudo ficou preto. Não enxergava mais nada. Silêncio doloroso. Silêncio penetrante.

Notou algo errado. Estava suspenso por tipoias. Seu corpo não tocava a cama. Um arrepiante alívio o torturava cheio de dúvidas. A porta foi aberta de repente. Virou com dificuldade a cabeça. Conseguiu ver a maldita enfermeira com uma seringa a mão se aproximando. Não houve tempo para abrir a boca, sentiu a picada da agulha e o liquido sendo injetado em sua carne ao mesmo tempo em que ela dizia. Quem é que vai a merda aqui, hein, pensa que pode fazer o que bem entende garotão. Ninguém pode fazer o quer ninguém é dono de ninguém, sacou? Queria fugir, fazer da sua vida o que bem entendesse, não é, não pode viu, a maldita aqui não vai deixar, a maldita sociedade não vai deixar, a maldita responsabilidade não vai deixar, os malditos compromissos não vão deixar, as dívidas, os amores, os pais, as leis, vão sempre te foder, meu rapaz... Não ouviu mais nada. Apagou novamente, e, sabia que não havia mais volta...

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