domingo, 2 de outubro de 2022

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Duas notas de rodapé

(Obituário)
1
Qualquer coisa cheira mal
em sua permanência aqui na Terra.
Algo de estúpido se passa
nas reuniões onde se decidem os infartos;
algo não compreensivo ocorre
na comissão que coordena os atropelamentos.
Deus, ou quem estiver no comando,
só pode mesmo ser um cara muito piedoso,
ou andar terrivelmente mal assessorado.
Perdoa-se a burocracia que deve haver
e a longa fila de processos a julgar,
talvez má fé ou corpo mole dos juízes –
o que não é de se surpreender.
Ainda assim somos obrigados a nos perguntar:
por que não se tão urgente? Se tão óbvio?
Não existe melhor hora do que agora.
Para ontem é tarde demais.
Antes tarde.
2
O espaço anda tão escasso
que ocupá-lo por ocupá-lo
não parece nem um pouco válido.
Se livrar de uma ou outra caixa
(aqui usamos a velha metáfora)
que pouco tem nos acrescentado
não pode ser algo assim tão abominável.
Se ao menos guardasse algo
convinha talvez guardá-la.
Que está vazia não resta dúvida,
ácaros, ácaros, ácaros,
aos milhares,
aos milhões, como em toda velha caixa.
O que se perde?
Uma cabeça a menos no senso demográfico.
O que se ganha?
Um nome encabeçando o obituário.
Talvez uma breve nota de pesar no jornal (desperdício
de papel em tempos de aquecimento global).
Foda-se se tem uma mãe para chorá-lo.

L. Rafael Nolli

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