Enquanto os rojões
Enquanto os rojões explodiam alegria nas garrafas de champanhe ao borbulhar dos abraços de feliz natal, retraído na ponta da mesa, ele bebericava o chope calmamente. Enquanto risos escorriam sabores arrumados cuidadosamente sobre a rica toalha enfeitada, ele observava o movimento do pessoal. “Se trinta anos atrás, seguisse minha vontade e, não a vontade alheia, como teria sido a minha vida?” Como poderia saber? No intimo não havia espaço para arrependimento, sempre soubera disso. Não se arrependia de nada, talvez o que pudesse lhe dar uma sensação de arrependimento seria por algo que ainda não fez. O sono deixava seus olhos pesados. Procurou disfarçar num bocejo percorrendo um a um as pessoas ali reunidas. “Será que eles estavam ou tinham feito tudo a sua maneira, isto é, como queriam fazer? Será que alguém ali se submeteu a vontade alheia?” Perguntas sem repostas, disse para sim mesmo.
Não era expansivo.
Preferia ficar no seu canto a percorrer a mesa cumprimentando um a um.
Transformar o pensamento em ação inibia seus músculos, os braços ficavam
pesados, o movimento do sangue nas veias congelava, tornava-se pedra, todo o
corpo tornava-se uma pedra impedindo-o.
A conclusão que
tinham passado a ele era de que tinha um destino predestinado. Tinha uma
função, um compromisso a cumprir. Seu destino estava predestinado. Mas a que?
Tivera sempre a impressão que algo importante, talvez até extraordinário fosse
acontecer, quer dizer, talvez não acontecer com ele, ou quem sabe, viesse a
fazer parte desse acontecimento. Desde pequeno tivera essa impressão. E, no
entanto, estava ali, bebericando o seu chope numa noite chuvosa de Natal vendo
a alegria do pessoal.
Estavam ali, sobrinhos, sobrinhos netos, primos, filhos dos primos, namorados e namoradas dos primos, conhecidos, os únicos ausentes eram os tios. Lembrava quase em detalhes o noivado de cada um dos primos e sobrinhos. Quase em detalhes vinha em sua mente o casamento de cada um. Saudosista, pensou. Não era saudosismo, era uma sensação que não definia os sentimentos. A chave estava aí, ele não sabia e nunca soube definir os seus sentimentos, saber o que estava sentindo, tanto agora como outrora. Nunca soube se amava, se gostava, se o que sentia enquanto bebericava o chope seria um vazio ou sentimento de pena de si mesmo. Eis a questão apocalíptica, disse tristemente.
No telão colocado no canto apertado do galpão minúsculo, a cantora morena de pernas grossas pulava suas carnes que chacoalhava ao ritmo da música irritante. Nisso a imagem foi se dissolvendo, a música aos poucos se dissipou, e o que apareceu, foi um rapaz magro, cabeludo, calça jeans, batendo palmas num portão baixo numa casa quase de esquina. Esperou uns minutos, dali a pouco surgiu uma senhora de cabelos pretos, baixa, meio robusta.
- Bom dia.
Estavam ali, sobrinhos, sobrinhos netos, primos, filhos dos primos, namorados e namoradas dos primos, conhecidos, os únicos ausentes eram os tios. Lembrava quase em detalhes o noivado de cada um dos primos e sobrinhos. Quase em detalhes vinha em sua mente o casamento de cada um. Saudosista, pensou. Não era saudosismo, era uma sensação que não definia os sentimentos. A chave estava aí, ele não sabia e nunca soube definir os seus sentimentos, saber o que estava sentindo, tanto agora como outrora. Nunca soube se amava, se gostava, se o que sentia enquanto bebericava o chope seria um vazio ou sentimento de pena de si mesmo. Eis a questão apocalíptica, disse tristemente.
No telão colocado no canto apertado do galpão minúsculo, a cantora morena de pernas grossas pulava suas carnes que chacoalhava ao ritmo da música irritante. Nisso a imagem foi se dissolvendo, a música aos poucos se dissipou, e o que apareceu, foi um rapaz magro, cabeludo, calça jeans, batendo palmas num portão baixo numa casa quase de esquina. Esperou uns minutos, dali a pouco surgiu uma senhora de cabelos pretos, baixa, meio robusta.
- Bom dia.
- Bom dia.
- O caso é o
seguinte. Queria saber a opinião da senhora.
- Qual opinião, pode
dizer.
- Bom, estou com a
intenção de comprar o anel de noivado e convidar sua filha para almoçar ou
jantar num restaurante e durante o jantar ou almoço dar para ela a aliança. O
que a senhora acha?
- Não, não faça isso. Ela não vai gostar, ela não gosta de surpresa. E depois como vou ficar diante dos parentes. Aqui em casa sempre foi diferente. É preciso avisar os tios, as tias, convidar todos, aí sim você da à aliança.
- Não, não faça isso. Ela não vai gostar, ela não gosta de surpresa. E depois como vou ficar diante dos parentes. Aqui em casa sempre foi diferente. É preciso avisar os tios, as tias, convidar todos, aí sim você da à aliança.
- A senhor quer
dizer, dar uma festa burguesamente, tudo dentro dos conformes, é isso?
- Não sei o que é
burguesamente, mas como sempre foi feito na nossa família.
- Ok, está certo
então.
- Acho melhor.
Nisso sentiu um dedo
cutucar seu ombro.
- Vamos, pai.
- Vamos.
- O que foi?
- Nada.
- Está como uma cara
de quem comeu e não gostou.
- Não é nada não.
Deixe ver a aliança. Bonita. Gostou?
- Sim, gostei.
- Está contente?
- Claro.
- Jóia.
- Vamos embora?
- Vamos.
Seguindo a filha,
olhou para o telão. Lá estava novamente a cantora de coxas grossas pulando suas
carnes ao ritmo da música irritante.
pastorelli
pastorelli

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