Para Daniel e seu romance “A
delicadeza dos hipopótamos”
Você
ainda é jovem, talvez viva o suficiente para ver como obras terminadas regridem
ao estágio de rascunho, gente que se torna invisível, parte da paisagem, pela
qual muitos passam sem notar. Vê aqueles três homens sentados ali na viela?
O
mais alto deles, há 15 anos, quando chegou aqui no bairro, era bancário, o
melhor partido da região, ele fala duas línguas, dirigia seu carrinho, morava
com pai, mãe e duas irmãs, estudava numa faculdade boa.
Hoje
vocês o chamam de pé de boi, fora os palavrões, as humilhações que dedicam a
ele. Os donos de boteco não deixam nem o cara entrar mais pra beber no balcão, eles
servem o coitado na calçada.
Lauro,
aquele de camiseta vermelha, jura que um dia acordou de um porre, olhou para o
lado e viu Orlando, é este o nome de batismo dele, sendo currado pelo Valdemir
o de boné marrom, mas esta turma vive fora da estação faz tempo, não dá pra
saber o que acontece no mundo e o que acontece só dentro da cabeça deles.
Mesmo
na miséria existe beleza, tem tanta gente isolada com a cara metida dentro das
telas desses celulares, aqueles três homens estão sempre em comunhão. Acordo
cedo para comprar pão, eles estão na pracinha, sentados no banco, com uma
garrafinha de pinga que passa de mão em mão, de boca em boca.
Os
bem-sucedidos comemoram suas conquistas de maneira solitária, possuem um EU
gigante, mas os fracassados formam uma irmandade que se desejasse poder, seria
maior do que a maçonaria.
Minha
pele está cada dia mais seca, como as folhas das árvores que caem no outono.
Semana passada, fui ao banco para fazer prova de vida, a coisa não está fácil,
a gente passa por tanta provação, tem que suportar com coragem e parece errado
sobreviver, suportar, estão querendo cortar gasto, se pudessem nos matariam
diretamente, mas como não podem, vão cravando a faca devagarinho no coração da
gente, na esperança, com a ponta da caneta que escreve estas leis. O que vai
ser de jovens como você, meu filho.
Cinco
anos atrás, eles eram quatro, Osni morreu, era o mais velho deles, estava com a
cara toda inchado, o pé grande, parecendo pata de bicho, uma ferida que não
fechou, ficou aberta por dois anos, o homem fedia vivo, os vermes não esperaram
caixão e terra, adiantaram o relógio e começaram a comê-lo nas vistas do sol.
Nos
dois últimos dois meses de vida, ele chorava de dor, a gente ouvia, mas não
fazia nada, eu não sei o que acontece, para dar conta do nosso caminho,
ignoramos o sofrimento alheio. A agente de saúde trazia médico e enfermeira,
mas não adiantava, ele tinha que beber para sarar a dor e o que doía nele, é o
mesmo que dói nos outros, é o lado de dentro. Levaram para o hospital de onde
só saiu para o cemitério.
Me
lembro do Orlando feliz, roupa social, aliança no dedo, cara de apaixonado, ele
estava de casamento marcado, estava finalizando a obra de um apartamento,
quando um dia passou na futura casa para ver como andava o ritmo dos trabalhos,
flagrou a noiva com o pedreiro, os gemidos e os dentes mordendo o próprio lábio,
quando sóbrio, ele diz que nunca vai esquecer este som e esta imagem. A vida muda rápido, garoto, a gente não presta
atenção!
Ontem,
eu vi Orlando com uma tesourinha velha, sentado no cantinho do asfalto,
cortando a unha do pé do Valdemir, enquanto ele dormia na calçada, em frente à
igreja, no final é isso: é encontrar um jeito de cuidar um pouquinho uns dos
outros e seguir, não tem receita, a gente não sabe o que a vida vai fazer dos nossos
dias aqui na Terra.
Até
mais, garoto!

3 comentários
Orgulho de estagiar ao lado deste homem. Ótimo conto!
Sentimento que a gente recolhe tanto que até acha comum...mas não é, é simples, não comum. E simples, como já disseram por aí, tem sua entranha de genialidade.
Desde o seu primeiro livro, acho que você escreve como um fotógrafo.Lendo o conto parece que a gente vai vendo um álbum de fotografias. Vamos trocando ideias! Abraço e valeu pela dedicatória.
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