Para a Rosa Pena.
Como é difícil colocar no papel luminoso da telinha as palavras-imagens! Estou
com umas encravadas na cachola que não sei como me livrar delas.
Já escrevi assim e
assado, de traz para frente, de frente para traz, de revés, em círculo para
direita, em círculo para a esquerda, reto, oblíquo, em retângulo, na vertical,
na horizontal, em triângulo, espaçado, curto, largo, estreito enfim, de todas
as maneiras.
Não consigo. Quer dizer, conseguir até que consigo, mas sai um texto frouxo,
sem conteúdo, rebuscado, pior que rococó, não se entende, um texto pesado,
cansativo, indecifrável, incompreensível.
Foi então que pensei numa coisa maluca. Pensei cá com os meus botões.
Colocar-me no lugar da Rosa Pena. É! Da Rosinha, grande escritora, excelente
cronista e escrever como ela! Não, nada de trocar de corpo, que isso! Chegar
até ela e captar toda a essência literária dela, catalisar o humor, as
palavras. Não, nada de escrever a La Rosinha, nada disso. Talvez me influenciar
de Rosinha sem que venha com isso prejudicá-la. Coisa de louco, não é? Pois é.
Receber dela umas orientações de como consegue fazer com que as palavras venham
até ela, e, não ela ter que ir até as palavras, como acontece comigo. Tem-se a
impressão que a um gesto dos seus maravilhosos dedos, sem tocar no teclado, as
palavras surgem espontaneamente, sem precisar escarafunchar os neurônios a
procura de palavras, sem precisar ir até as profundezas da mente buscando as
fujonas, sem que se precise amarrá-las fixando-as com ferro quente no papel
telinha.
Como fazer isso? Tem
explicação alguma? Não, não tem. Pois é!
O que tenho são imagens que se avolumam na mente. Passar para o papel em
palavras é que são elas. Por exemplo.
Vejo um grupo de homens
conversando, falando alto, gesticulando, vociferando como touros em arena de
rodeio. Aí você pensa: estão discutindo problemas da firma, discutindo
problemas graves, de difíceis soluções. Mas ao chegar perto, ledo engano. Estão
discutindo é futebol nada mais. Então pensei: esses caras são capazes de ao
verem a mãe ou filha se afogando, não deixam a discussão para socorrê-las. Foi
nesse momento que surgiu em minha mente a cena:
Três ou quatros homens
discutindo futebol. Nisso ouve-se uma voz infantil gritar:
- Socorro!
E o pai, que é um dos
quatros, vira-se para filha se afogando e retruca:
- Filha, você tinha que se afogar justo agora?
- Socorro, papai!
- Olha filha, papai te
ama, mas agora não posso de ajudar. Não vê que eles estão difamando o timão!
Papai te ama, viu, mas preciso defender a honra do timão, certo? Então espere
um pouco que já vou te socorrer.
Bom, é isso. Vamos
discutir futebol que a vida é uma só e, danem-se os problemas fundamentais, o
que eu quero é viver.
Beijos e abraços.

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