sexta-feira, 12 de março de 2021

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CLARICE

Antes do coração o sangue corre sem ritmo, num jorro de vida audível com auxílio do instrumento médico, cada batimento é um cavalo selvagem, dentro do peito, peito ocultado pelo ventre-abrigo da sua mãe, o coração nasce depois da vida, minha filha!

O que as outras espécies aprendem dentro do útero, nós precisamos botar a cara pra fora do conforto uterino para conhecermos e aprendermos, só depois, de uma maneira idiota, tentamos catalogar tudo em palavras e sentimentos.

Para cada coisa há um nome, mas o mais importante é nomear o que sentimos, lemos os nossos pensamentos quando aprendemos a ouvir as nossas próprias vozes. 

A gente nasce e se  torna o mundo, pra depois descobrir a distância entre nós e ele. De dentro do escuro eu vi emergir o seu rosto, a maquina de ultrassom faz a nossa primeira fotografia.

O caminho que conduz ao primeiro passo, retira as nossas mãos do sentir da terra, nos impõe a arrogância que é botar os olhos nas lonjuras, não se envaideça, minha filha, um número incontável de pessoas já caminhou sobre dentro deste planeta, quando fui escrever este palavra, escrevi problema.

Falar talvez seja resgatar o movimento inicial do sangue, domar o vento em consoantes e vogais.

 


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