quinta-feira, 19 de agosto de 2010

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Clarissa - Décimo Segundo Capítulo

XII



Na manhã seguinte o telefone tocou. Era Valéria, a nova professorinha de letras que conhecera naquela noite fatídica.

- Bom dia Clarissa!

- Bom dia Valéria!

- Liguei para ver se você quer vir a um almoço em casa de uns amigos. Estarão vários de nossos colegas professores lá.

- Não sei Valéria! Estou sem vontade de sair.

- Ora! Vamos lá! Se quiser eu ou a Neuza passaremos para pegá-la.

Clarissa pensou que poderia ser agradável, além do que seria de graça.

- Está bem. A que horas vem me buscar?

- Passo aí dentro de uma ora, ok?

- Está bem. Esperarei lá embaixo.

Em uma hora estava pronta e esperando a amiga como prometera. Até estava feliz!

Chegaram ao local e havia muita gente. Era uma grande reunião de muitos amigos. A festa estava animada. Aqui jogavam baralho aos gritos, ali jogavam futebol em um campo improvisado, mais adiante havia uma churrasqueira com grande quantidade de carne assando, e uma legião de improvisados assadores a dar palpites. Homens e mulheres, a maioria deles professores graduados, divertindo-se com suas famílias e amigos. ‘Que bom’- pensou Clarissa - acertei em vir’. Após ter cumprimentado todos os conhecidos e tendo sido apresentada aos que não conhecia, ela sentou-se a um canto e ficou bebericando um suco gelado. Ainda estava convalescente da reclusão a que se propusera voluntariamente.

- Olá! Você é Clarissa?

Era uma simpática e bonita moça morena, de evidente ascendência africana.

- Sim! Muito prazer! – Clarissa estendeu a mão para a moça que fingiu não perceber. Meio sem jeito recolheu a mão estendida.

A moça continuou:

- Meu nome é Ruth, sou professora na faculdade de direito onde você lecionava.

O nome da moça fez o peito de Clarissa voltar a doer muito. Sua cabeça começou a latejar novamente como há dias já não fazia. Ficou sem fala e deve ter empalidecido porque sentiu a pele gelar e suar frio. A moça não obtendo resposta de Clarissa continuou:

- Conheci seu marido! De uma hora para outra ele sumiu como se o sol o houvesse derretido. Nunca mais ouvi falar dele.

A voz de Clarissa recuperou-se magicamente.

- É! Eu sei! Também nunca mais tive notícias dele.

- Gostaria de saber com um isqueiro de minha propriedade foi parar nas mãos da polícia. Você sabe me esclarecer?

- Isqueiro?

Clarissa estava pensando rápido. Era ela então a Ruth amante de seu marido. Era ela a dona do isqueiro que usara para queimar os sacos plásticos pretos, invólucros solidários de um corpo muito amado.

- É! A polícia apareceu em minha casa com ele nas mãos, perguntando se era meu. Precisei confirmar porque meu nome estava gravado nele. Era de ouro. Presente de seu marido.

A maldade era evidente na voz dela.

- E posso saber por que está me contando essas coisas? Afinal você sabe que ele saiu de casa faz tempo, e não sei onde ele anda.

- Não sei! Às vezes acho que os policiais têm razão. Essa história está mal contada. Mas não por mim. Mas por você. Falei isso a eles. Mas infelizmente eles estão no meu pé por causa do isqueiro.

A essa altura a dor estava intensa. Mas Clarissa ficou calma.

- Ok! Vou ver se como algo por aí! Então o isqueiro era de ouro! Meu marido era um homem generoso!

Levantou e saiu para o pátio onde as crianças brincavam de pega-pega. Enquanto ela fazia economias em casa para a tal viagem prometida, Maurício dava isqueiros de ouro à amante. Que ódio!

Ruth a alcançou e falou:

- Como é mesmo? Seu marido "era" um homem generoso? Não é mais?

Clarissa olhou para ela e viu que colocara o verbo no tempo errado. Essa moça é professora de direito, é um perigo falar com ela. Todo advogado tem muito de detetive.

- Sim! Ele não é mais meu marido desde a noite em que disse que estava com você e que eu o toquei de casa. Para mim ele já era. E para você? Ele ainda é?

Ruth saiu de sua frente com o olhar de uma raposa que lhe foram tiradas as uvas.

Clarissa ficou mais um pouco de tempo por ali, e viu quando Ruth saiu da casa bem antes do almoço ser servido. Ela almoçou e depois se despediu dizendo que estava cansada. Todos entenderam a decisão dela. Afinal ainda era convalescente da perda de um marido safado.

Não aceitou a carona oferecida por Neuza. Preferia ir a pé até um ponto de ônibus, ou quem sabe até sua casa. Era bem longe, mas uma boa caminhada lhe faria bem. Absorta em seus pensamentos não percebeu que alguém a seguia em um carro. O carro parava e a deixava ir adiante. Logo depois se aproximava devagar, depois parava novamente. Se ela estivesse atenta ao que acontecia não seria difícil ver que o carro a seguia de perto. Andou muito tempo. Cansou e então procurou um ponto de ônibus. Afinal estava desacostumada para uma caminhada tão grande, sem contar os saltos altos. Chegou ao ponto de ônibus e esperou até ver um que a levava até próximo a sua casa. Quando desceu do ônibus, o carro que a seguia antes estava parado atrás. Destramente a pessoa ao volante procurou uma vaga para estacionar. Como era domingo foi fácil. Lentamente ela estava indo pela rua em direção a seu prédio que ficava duas quadras do ponto de ônibus. O homem que descera do carro a alcançou rapidamente.

- Olá moça! Lembra de mim?

Clarissa absorta em seus pensamentos assustou-se com a abordagem. Mas sempre fora educada então respondeu com calma:

- Olá!

Olhou para o homem, mas sinceramente não se lembrava dele.

- Desculpe abordá-la assim.

- Sem problemas. Em que posso ajudá-lo?

Achou que fosse um turista perdido pelos arredores. Havia muitos deles por ali que se perdiam e não conseguiam voltar a seus respectivos hotéis.

- Você se chama Clara? Esteve em meu iate junto com um amigo comum, o Marcos.

Clarissa lembrou então. Era o dono do iate. Vira-o só aquele dia e nunca mais, depois Marcos a escondia de todos, não pretendia que ninguém soubesse de suas aventuras com ela.

- Ah! Sim! Lembro agora. E o seu amigo o Marcos está bem?

- Para falar a verdade, nunca mais o vi e ninguém sabe para onde foi. Você o viu alguma vez depois daquele dia?

- Não! Nunca! Até gostaria porque ele é bem divertido.

E dizendo isso fez um trejeito matreiro que todos os homens gostavam.

- Que pena! Achei que você fosse a causa do desaparecimento dele. Sabe como é. Homem de certa idade quando se apaixona por uma moça linda como você, pode deixar tudo para viver escondido com seu amor.

Clarissa riu alto e com gosto.

- Senhor! Nem por sonhos seu amigo se apaixonou por mim. Aquela foi a única vez que saímos e nunca fizemos sexo, se quer saber. Não haveria como ele ou eu apaixonar-se um pelo outro. Sou só.

- Está bem! A família está sem saber o que dizer. Ele simplesmente sumiu.

- E faz tempo isso?

- Que a família deu por conta faz dois meses. Até aí todo mundo achava que ele estava viajando. Mas agora tudo leva a crer que ele pode ter feito outra viagem, aquela que todos fazemos um dia.

- Como assim?

- Morrer amiga. Morrer!

A essa altura haviam chegado ao prédio onde Clarissa morava.

- Moro aqui.

- Que pena! Estava boa a conversa.

- Pois é, mas preciso entrar. Seria bom que a família de Marcos procurasse ajuda profissional, não acha?

- Você quer dizer a polícia?

- É! Não seria o caminho normal a tomar?

- Pois é! Eles estão fazendo isso!

- Que bom! Então não se preocupe que tudo se resolverá.

Clarissa estendeu a mão ao homem que a tomou delicadamente e desceu a rua de volta ao carro, enquanto Clarissa entrava no prédio.

Então agora a polícia está envolvida com o desaparecimento de Marcos também. Era para se pensar! Lembrou da poupança que estavam fazendo para a tão falada viagem. Nem se lembrava dela mais. Quanto teria?

Voltou sobre seus passos e foi até um caixa eletrônico próximo à Avenida da Praia. Seria fácil verificar o montante, afinal ela possuía a conta e a senha, pois a conta era conjunta. Nunca fora verificar, era sempre Maurício que o fazia. E ela andava praticamente sem grana. Sem trabalho suas economias estavam se esgotando.

No caixa eletrônico àquela hora do domingo era um fervor. A fila era imensa! Resignadamente postou-se à espera que a fila andasse. Alguns segundos e logo atrás já havia mais uma dezena de pessoas. Pareciam brotar do chão. A sorte que aquele posto de atendimento tinha uma dúzia de caixas funcionando. A fila andava depressa. Quando chegou sua vez ficou feliz. Iria ver quanto dinheiro possuía. Fez os trâmites de conta e senha e puxou o saldo. Mesmo o marido tendo surrupiado dinheiro para dar um isqueiro de ouro para a outra, o saldo era razoável. Que bom! Agora poderia ficar tranqüila e faria uma viagem até a casa de sua mãe no interior. Precisava de um colo, e era o melhor colo do mundo que iria procurar.

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