E então eu danço. O movimento é
meu. Me movimento ali. No interstício do
desejo, na indignação do músculo que não.
Danço com o olho. Órbita alucinada. Olho
de devorar.
O movimento é meu. Do coração que salta.
Do estômago que retorce. Das dores todas da barriga que em movimento demarca
seu poder e território.
Danço. Com todos os meus cabelos e pêlos
que se eriçam. Espinhos e espaços que se
definem.
E no ar salto e rodopio. Clássico. Com
mil pernas da minha cabeça, com mil braços do meu cansaço. E dobro o corpo com
firmeza, treino e audácia. Não o de carne de osso de pele. Mas o outro que
crio, desenho, escrevo e desfaço.
E então danço. Com todos os outros. Danço nesse impossível do músculo que se
recusa. Danço nesse espaço de foto. Estático.
Minha língua sim é dançarina. Dança meu
medo e pavor. Dança os brancos que me invadem. Dança o meu não conseguir
dizer-dizendo. Ordinária. Insinua-se pelas minhas dúvidas proclamando certezas.
Tolas. Morderia a língua. Mas ela dança inevitável. E em movimentos
pré-definidos, gestos-alfabéticos, vai resumindo, recortando e delimitando o
que penso. E pensar é dançar para além da língua. Minha língua que é nossa.
Mas os joelhos também. Companheiros.
Dançam no ritmo do coração. Trepidam e ameaçam toda a estrutura. Em falso.
Valso.
E a música e o ritmo?
Que toquem pois. Minhas tripas dançam. E
me enforcam. Meu sangue dança e borbulha e meus olhos sorriem... ou se
constrangem. Mas dançam.
Meu pé desgraçado e rebelde. Bate e
rebate o ritmo, o impossível do corpo.
Criatura independente o pé. Autônomo nas
questões de dança.
Mas meu ouvido dança. Com o que vibra e
lhe alcança. Até com o outro corpo que ali. Também dança.



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