quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

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DEPOSTO SOBRE O ABISMO - 11



Era um domingo bonito de fevereiro, com sol e um calor úmido de verão, quando acordei em paz, sabendo que veria novamente Isabel. Era paz ou eu queria que fosse, não lembro, mas era bom.
Tomei um banho demorado de água bem quente, porque eu não gostava de água fria. Me lembrava banho de mar na juventude. No dia anterior eu não tinha tomado banho, esqueci, quase tanto quanto tinha esquecido da noite anterior ao dia anterior. Demorei no chuveiro, depois me vesti com as poucas roupas limpas que eu tinha, porque eu nunca lembrava de lavar roupas, louças ou limpar a casa. Escolhi um colete preto sem mangas com vários bolsos, coloquei-o sobre a camiseta branca. Num dos bolsos, encaixei um mp3 velho de tanto cair no chão, arranhado e já sem pintura, que eu tinha comprado na Uruguaiana anos antes. Olhei pela janela e me deu vontade de fugir. Lembrei que não tinha emprego, que nada mais me prendia. E decidi que ia mesmo fugir. Ou quis decidir assim, mas não me lembro se tive coragem.
Coloquei os fones no ouvido e liguei o aparelho. Aleatoriamente, começou a tocar A change of seasons. Acabou dando praia, pensei. E saí.
A casa era grande, a casa da Isabel. Dois andares na Tijuca, numa rua pouco habitada, calma, bu-có-li-ca. Em redor, um quintal de árvores com flores amarelas que, como o Rio de Janeiro parece não seguir estação alguma, estavam caindo como no outono, mesmo sendo verão.
A calçada e o jardim da casa estavam cobertos de flores amarelas e, por um momento, pensei que, quando éramos jovens, eu e Isabel gostávamos de flamboyants, flores muito vermelhas, caídas pelas ruas de Paraty. Quando as flores vermelhas caem, pintam de sangue o chão. Mas as flores eram amarelas. O chão estava pintado de luz, raios de sol, brilhantes como a felicidade que Isabel devia ter conquistado. E eu não.
Só por um momento lembrei disso. Todo o resto só refleti agora. Porque, sem que eu sequer me movesse, sem que eu tocasse a campainha, batesse palmas, gritasse ô de casa como era costume no interior de onde eu vim, uma voz lá de dentro respondeu ao chamado nunca feito:
–Já vai!
Era Isabel. Devia estar me esperando, como fazia antes, quando eu prometia visitá-la na juventude, e essa empolgação em me rever me deu alegria, me inflou o ego e me esperançou. Ela apareceu daí a poucos segundos, com as chaves da casa na mão pra me abrir a porta.
A alegria se assustou e fugiu, a esperança saiu pela esquerda. E o ego inflou. Mais.
Isabel vinha ainda manca, as pernas tortas, apoiada nas muletas costumeiras. Na mão direita, carregava a chave que meteu na fechadura pra me permitir penetrar seu jardim pingado de flores de sol. Na outra, a aliança de casamento, arranhada e sem brilho. Ela estava muito gorda, uns noventa quilos talvez, e era ainda mais baixa e encurvada do que eu me lembrava. Suas pernas à mostra estavam riscadas de altas veias verdes, seu vestido era simples, de um tecido grosseiro de algodão, e uma estampa cafona de flores vermelhas. De flamboyants, pensei. Pintando Isabel.
Com empolgação e alguma dificuldade, ela me abraçou. Quis sentir alegria ao abraçá-la, mas senti um pouco de dó, muito horror e um orgulho do caralho. Eu tinha envelhecido, não dá pra resetar o save game (dá no máximo pra tentar pegar todos os continues até a hora derradeira do fatality), mas eu ainda tinha a beleza que havia feito de mim uma mulher cobiçada na juventude e ainda ali, aos trinta e cinco e nenhuma conquista na vida. Só depois pensei que era justamente por isso que eu era desgraçada, miserável. Porque tudo que eu tinha era algo fadado a acabar. Lentamente, o que é ainda mais doloroso.
Isabel foi me guiando até a sala por um caminho de árvores amarelas com flores caídas. Da casa ao lado, uma música muito alta e distorcida me fez acreditar que os vizinhos de Isabel tinham um estúdio com uma banda de rock em horário de ensaio, tocando com perfeição algo que me pareceu Deep Purple. Can you remember? Remember my name?, uma voz conhecida cantava.
O caminho até a sala era longo e amarelo, como o fundo de tela do meu computador quando comecei a trabalhar no meu último emprego, aquele que eu já não tinha. Mas eu logo havia trocado o caminho amarelo por um dragão verde e lilás sobre algumas rochas. Agora que eu não tinha mais emprego, nem computador do emprego, meu dragão já não morava mais comigo, devaneei. Quando despertei, estava acomodada no sofá da sala de Isabel. E senti, como numa inversão muito irônica, que eu queria a vida dela.
Era eu, sentada naquele sofá tão macio, sem rasgos, sem cheiro de mofo pelos cantos daquela sala, o piso frio vermelho bonito, um tapete persa que devia ser mesmo persa, móveis de madeira de lei, um cômodo grande, abajures e bibelôs talvez de porcelana sobre mesas com tampo de vidro, quadros quem sabe se caros pendurados pelas paredes, uma cristaleira com copos de cristal, um relógio de parede com inscrição de Hamburgo, era eu, olhando tudo aquilo, que queria que aquela casa fosse minha, com um lugar tão macio como aquele sofá pra me sentar. Eu não tinha mesmo porra nenhuma na vida. E eu não tinha ninguém, concluí. Porque Isabel já não saberia mais fazer parte do meu universo.
Entrou uma empregada e foi até a patroa. Disse que ele tinha mandado perguntar se amanhã à noite ela podia. Isabel sorriu com aquele olhar deslumbrado só dela e disse que ia. A mulher saiu.
Isabel me disse que tinha uma surpresa pra mim. Abriu a enorme porta com duas grandes folhas de madeira de lei do cômodo ao lado. Pela porta entreaberta, pude ver um piano de cauda, um lustre de contas de cristal muito grande pendendo do teto e algumas janelas com vitrais coloridos que davam pro que acreditei ser uma piscina nos fundos do terreno, porque um reflexo no teto parecia de água ao sol.
Logo ela voltou, trazendo algo nas mãos, que ela tentava esconder atrás das costas. Fechou a porta atrás de si, explicando que aquele era o escritório do marido dela, pianista alemão de sucesso ou coisa do tipo, que não me lembro mais, e que ele não gostava de deixá-lo aberto quando tinha visita na casa. Sem habilidade pra segurar o objeto que trazia, fechar a porta e se apoiar nas muletas ao mesmo tempo, Isabel acabou me deixando ver que o objeto era o meu LP do Queen ao vivo em Wembley. Três LPs com encartes temáticos do estádio, uma raridade. Como eu tinha desejado ter de volta uma das minhas poucas coisas raras. Só então recordei que tinha esquecido de levar pra ela O pequeno príncipe.
Ah, tudo bem, ela disse, com umas vogais arrastadas que me irritavam. Se eu desse o meu endereço, ela ia lá qualquer dia pra pegar o livro. Confessa, ela falava, você esqueceu só pra eu ter pretexto pra ir à sua casa, não foi? Quis dizer que não, eu não gostava de visitas, minha casa era muito feia, e por isso mesmo relutei pra dar a ela o meu endereço, mas não hesitei o suficiente e acabei escrevendo rua do Riachuelo número tal centro num papel rasgado, talvez porque eu gostasse da ideia de tê-la dividindo comigo a minha mediocridade, de ter alguém novamente pra dividir a minha mediocridade. Talvez porque eu quisesse que esse alguém fosse novamente ela. E Perfect Strangers entrava com força pelas portas e janelas da casa grande de dois andares na Tijuca, que era de Isabel e do marido alemão pianista dela.
–E o que você pensa em fazer da vida?, ela me perguntou, sem se sentar. Tive que olhar pra cima pra falar com ela. Achei que ela fazia isso de propósito. Hoje tenho certeza.
–Perdi o emprego! – Eu tinha dito isso com a esperança de me sentir ainda confortável em contar a ela tudo. Mas sentada ali, olhando pra cima, naquela casa grande e rica de uma vida grande e rica que era dela e não minha, percebi que estava me sentindo humilhada em ter contado da minha demissão.
–Mas você consegue outro. Você é tão inteligente! Aposto até que se formou.
Eu ia dizer fiz mestrado, fiz o meio do doutorado até ser cantada pelo meu orientador, socar a cara dele e finalmente admitir que eu achava a academia um saco. Mas não disse. Porque eu já começava achar aquela visita um saco.
–Acho que vou dar um tempo fora do Rio, foi o que respondi.
–E pra onde você vai?
–Não sei, não pensei... Pra um lugar limpo, longe. – O Canadá, quis dizer, vou fugir pro Canadá, como eu sempre quis. Mas continuei a frase de antes, porque era mais fácil. – Procurar uma resposta, talvez, alguma coisa que me dê vontade de continuar vivendo.
Senti que Isabel, que olhou pra parede de trás, não quis me deixar perceber que seu lábio tremia. Mas eu já tinha percebido. Ou tinha preferido imaginar assim.
Acho que foi pra mudar de assunto que ela quis me levar pra conhecer a casa toda, mas não pôde. O bebê tinha começado a chorar e uma empregada entrou na sala, carregando uma criança de uns seis meses. Isabel, contrariada, segurou uma menina daquelas que a gente acha que só tem em comercial de fralda, levou a garota ao peito como se fosse obrigada. E acho que era. A empregada me olhou de cima abaixo antes de me abrir um sorriso e dizer que a pequena Vitória gostava do colo da mamãe, que a mamãe tinha muito leite e outras coisas que eu já não ouvia:
–Vitória?, eu perguntei.
Isabel sorriu pra mim, meio torto. Pela primeira vez desde que tinha segurado o bebê. E me disse:
–Você atendeu o meu pedido afinal.

1 Comentário

Andréa

Olá querida!
Um belo texto, cheio de boas lembranças, muito bom!

Beijos