...–Vitória...
...Eu pensava onde estou que dia é hoje que lugar é esse que horas são?
tão sem pausas quanto um texto sem vírgulas...
...Então lembrei do quarto de empregada e lembrei da segunda de manhã e,
olhando o relógio, lembrei das dez horas de uma segunda de manhã no quarto de
empregada da minha casa grande demais. O que me fez lembrar da minha casa, que
era grande demais, porque eu tinha um emprego que pagava um salário alto
demais...
...E só então lembrei do meu emprego bom demais pra alguém como eu (como
costumavam dizer as pessoas da família que eu preferia manter escondida no
subúrbio escondido de onde eu vim). Lembrei do meu emprego bom demais e do meu
horário cedo demais de chegar ao emprego...
...E lembrei que eu estava atrasada. Demais...
...Mas lembrei, com alívio, que a época de bater ponto já tinha passado
havia tempo demais. E que eu fazia o meu horário, como a chefe terrível demais
que eu tinha me tornado pros empregados, que me odiavam demais. Porque eu tinha
empregados demais. E eles me odiavam tanto que eu nunca tinha percebido isso,
porque eram tantos na sua coletividade que pensar nos indivíduos os fazia
insignificantes demais...
...O gosto de vinho na boca. De novo. E a lembrança da noite anterior.
Bar de novo, vinho de novo, cigarros de novo, gente estranha pra esconder a
minha solidão de gente sem amor. De novo. Eu sempre saía pra beber vinho em
bares desconhecidos com gente estranha pra quem eu pagava drinques e com quem
eu dividia a minha mediocridade de pessoa sozinha que ninguém ama. Eu procurava
as lembranças embriagadas de mais um ontem de porre na minha cabeça rica,
sozinha e frívola demais Até aquele dia. O dia em que eu passaria a diante a
minha maldição...
...E eu pensava em tudo isso tão sem pausas como um texto sem vírgulas.
Até que eu ouvi a voz dela responder:...
...–Vitória... Meu nome é Vitória...
...–Quem?...
...–Vitória...
...–Isso não me diz nada! Quem é você? Como chegou aqui? – e eu sentia um
retorno da parte mais estúpida de mim, aquela que aflorava todos os dias assim
que eu acabava de acordar, como agora. Eu era a grande-maior-parte-de-mim na
minha imensa estupidez de quem não admite nada além do que não está além de si.
Tudo deveria ser pra mim, como todas as coisas não deveriam ser além do que são
pra mim. – Como? Explica. Quem foi o idiota que te trouxe aqui e te deixou
entrar na minha casa? – e eu pensava no empregado imprestável que tinha feito
aquela mendiga (sim, certamente uma mendiga) sentar ali e manchar de sangue a
minha poltrona velha (um idiota o empregado, eu pensava, sem nem mesmo perceber
a sujeira maior, maior que o sangue, a sujeira dos anos vazios, passados, que
tinham se acumulado em poeira sobre a minha poltrona velha, porque ninguém
nunca sentava ali)...
...–Você... Você me trouxe aqui e me deixou entrar...
...Como?, eu pensava abismada. E só então notei que os olhos dela estavam
limpos, sem hematomas e sem sangue, e eram verdes, muito verdes, em contraste
com o meu azul quase branco e sem cor. Ela era jovem, ela era muito magra, ela
era bonita, ela era tão bonita, e tinha aqueles olhos fundos, sem alma, verdes
como um abismo marinho. Eu sentia inveja da beleza dela tão soterrada de
feridas e ainda maior do que a minha. Ela não era uma mendiga...
...Concluí isso no mesmo instante em que me lembrei. Ela tinha passado
correndo na frente do meu carro, foi perto da rodoviária, e eu tinha batido de
lado numa das pilastras do viaduto, Gentileza gera gentileza e amorrr, pra não
atropelar aquela mulher burra que atravessava assim a rua de madrugada. Eu
estava bêbada e queria só voltar pra casa e dormir, ao som de música, de Bach,
Wagner, Queen, Dream Theater, ou qualquer outra coisa. Então, vi que ela estava
caída no asfalto ainda acordada. E o carro vermelho já longe demais...
...Autoestrada, muitas pistas e nenhum carro àquela hora tardia. Eu sabia
que, se passasse algum carro ali, seria numa velocidade absurda de
quem-quer-chegar-logo-em-casa-porque-essa-é-a-madrugada-do-Rio-de-Janeiro. E,
então, eu seria atropelada se resolvesse me aproximar daquela mulher. Eu, eu só
penso em mim. Eu queria viver e insistir nessa mórbida farsa de dinheiro,
muitos cigarros e uma adega cheia pra eu ter o prazer de esvaziar. Eu não
queria ser atropelada...
...Mas saí do carro e andei até ela. Como se tivesse sido escrito
assim...
...Ela estava acordada e me disse...
...–Você me trouxe aqui e me deixou entrar. – eu voltei à realidade. – Me
sentou aqui sem dizer nada, deitou na cama e dormiu até agora. Eu tentei
esperar, e perguntar seu nome ou porque me ajudou... Mas dormi também...
...–Vitória... – eu analisava o nome. Irônico. – Vitória... Tô lembrada
sim... – que que eu ia fazer com aquela mulher toda machucada, caramba? Eu não
tinha ideia. Mandá-la embora! Era o melhor. E perguntei: – Quer que eu pague um
táxi até a sua casa? Ligue pra sua família? Mande o motorista te levar ao
hospital?...
...–Não tenho casa... Não tenho família... É inútil ir pra um hospital.
Que a maior dor é a de dentro...
...–Mas você tá toda machucada, garota. – me pareceu o melhor jeito de
chamar alguém tão mais novo do que eu. Teria quinze? Teria dezesseis?
Vitória... E tão bonita ela era. Tão bonita. Que eu tinha raiva de mim por já
não ser tão bonita...
...–Eu sei... Mas, pra alguém que não sabe quem é, isso não importa...
...–Como não sabe quem é? Você é Vitória, acabou de me dizer isso... –
garota estranha, eu começava a achar. Devia querer me roubar. Estava sim,
estava querendo me roubar, me disse meu lado Euricão... E eu era só o que tinha
e isso não era nada...
...–Eu sou Vitória. E isso não te diz nada. Você mesma disse. E não me
diz nada também. Meu nome é Vitória. E isso é tudo o que eu sei, isso é tudo o
que eu tenho. Eu não sei quem eu sou, o que eu quero, a que lugar eu pertenço.
Porque não importa o quanto eu me busque, eu nunca me encontro. E você acha que
o seu nome, seu endereço, profissão, número de telefone te dizem quem você é?
Eu não sou nada além de Vitória e isso não é nada... É tão pouco que eu nem sei
o que eu espero da minha vida!...
...–E o que você espera da sua vida?...
...Perguntei apressada, mesmo ela tendo acabado de dizer que não sabia.
Abateu-se sobre nós um silêncio ensurdecedor, paradoxalmente clichê, pesado,
difícil de romper. Lembrei daquele silêncio entrecortado de carros ao longe
voando na avenida Brasil. Lembrei de vê-la me olhar fundo, com aqueles olhos
verdes e fundos, como se me lesse por dentro, um olhar incômodo. Lembrei-me de
vê-la caída sobre o asfalto, porque só eu tinha desviado. O carro vermelho fugiu
e eu (por que eu? Algum dia eu viria a saber? Talvez porque eu estivesse
completamente bêbada) fui socorrê-la. Sorrindo débil, ferida, e ainda tão, tão
bonita, ela me disse...
...Faz um pedido que eu atendo...
Despertei daquele flash de lembrança, um daqueles que nunca parecem reais
depois de a sobriedade voltar. Estávamos frente a frente, ela ferida,
ensanguentada e fraca, sentada na minha cadeira velha. Nós duas e o silêncio,
incômodo, clichê. As palavras rasgando as gargantas e morrendo sem saírem.
Talvez por isso ela, tonta, quase a desmaiar, pra quebrar o incômodo, tenha
perguntado, sem interesse:...
...–E quem é você?...
...Mas não pude responder. Ele já tinha aberto a
porta...

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