quarta-feira, 17 de abril de 2013

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O poema mudo

Olá Rafael de Salles Levy, Tudo bem? Desculpe-me de antemão por escrever sobre os meus anseios e expectativas sem ainda nos conhecermos pessoalmente. Eu gosto muito de literatura, especialmente da brasileira contemporânea, que acompanho já há algum tempo. Sou engenheiro e trabalho aqui no centro do Rio; faz oito meses que me mudei do interior de SP para Niterói em busca de oportunidade melhor. A minha vida é corrida, tenho meus Filhos e Namorada no interior de SP, viajo quase todos os finais de semana para encontrar-me com Eles. Além disso, adquiri esse hábito maldito de escrever, sempre que ideias estranhas me sopram a cabeça. Isso consome bastante tempo e energia. Mas é uma atividade que me traz, sobretudo, alguma satisfação quando consigo um resultado estético interessante, após múltiplas agitações e as diluições sucessivas: enfim, a Arte. Daí os três monstros de papel vieram: uns quatrocentos exemplares de cada um de meus livros, que dividem comigo o apartamento em Niterói, sem pagar o aluguel. A gente escolhe muito cedo o que faz da vida, acho que se fosse começar de novo faria psicologia, para tentar me entender. Enfim, de tanto pensar, não cheguei à conclusão alguma. Acumulei material para outro volume, mas ando com pena das árvores, de suas folhas; elas também têm o direito à vida, e o meu apartamento não suporta outro desses monstros. Tenho dúvidas se o mundo os absorveria, também se este seria um comportamento sustentável, livre da emissão de carbono. Não entendo muito da dinâmica do mercado literário. Tenho apenas observado de longe: percebo que os Escritores nacionais contemporâneos são um bocado corporativos e existe uma tendência às reverências recíprocas, circulares – afinal são seres humanos – e o Rio dá as cartas em termos daquilo que deve ou não ser consumido (numa análise fria dos dados, o lado engenheiro aflorando). Isso tem o seu lado 80m e também o seu lado perverso. De uns anos para cá ficou fácil publicar livros, e algumas pequenas editoras alimentam-se das ilusões de pretensos escritores e poetas. É preciso peneirar o joio do trigo. Mas acho que não existe um filtro realmente eficaz (senão o tempo): enquanto parte da substância fica às margens desse processo, ainda há muito conteúdo de baixa qualidade sendo escoado pelo mercado. Perdem-se leitores e os escritores; além de uns dos outros. Acho interessante o trabalho que Você vem fazendo como curador ou responsável pela obra do Rodrigo. Por isso decidi escrever; gostaria de saber se Você poderia ajudar-me de alguma forma? Mesmo que para detonar de vez o projétil contra o céu de minha boca (tipo: o pior cego é aquele que não quer ver). Abraços and keep on moving, Jorge.



ps: “Por isso digo que não vivo. Sou um sobrevivente.” Esse livro é mesmo de uma lucidez estupefaciente!







3 comentários

Tânia Du Bois

Oi Xerxes,

também penso que tem muito livro de baixa qualidade e não há "filtro" para novos escritores, e sim "apadrinhamento" e, nesse caso, os escritores de alguma forma tornam-se prisioneiros do tempo.
abraçaos,
Tânia.

Mariela Mei

Gostei dessa carta-depoimento /ficção-confessional, Jorge! Meu eu-lírico mais real compartilha das mesmas ideias. Beijo grande!

Jandira Zanchi

Legal tua sinceridade e espontaniedade. Tem coisa boa sendo publicada, mas, tem aquele lance de grupo, um saco. E tem os péssimos escritores que não desistem do eterno colar de textos e poemas na pg da gente do face. Oculto e daí acompanho os números dos adicionados diminuindo. E tb tem, não se iluda, os caras da academia que patrulham, sabem da gente, mas não fazem esforço. É um meio difícil.