segunda-feira, 16 de setembro de 2013

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AFETO SEM O FILTRO DA LINGUAGEM

Eu, um feto, que mesmo depois de muito tempo de sobrevivência, não conseguiu se desenvolver, tudo me é estranho: As paisagens, a fauna, a flora e as pessoas, com as quais eu deveria formar um nó.
Mas num dia, numa sala branca, uma máquina me pegou no colo e me pôs para ninar. Os primeiros sons que eu ouvia pareciam distorções, freqüências sonoras, ora cadenciadas, ora uma orquestra descompassada, solavancos no espaço. Aos poucos os sons me abraçaram, comunicando não por junção de fonemas, mas diretamente com o corpo.
As palavras que eu tinha aprendido até então perderam o sentido que nunca tiveram, já que o silêncio é a mãe de todas as línguas e a língua transformada em linguagem só produz barulho sem significação.
As ações silenciosas que eu carregava dentro da existência, para as quais o sistema gramatical insistia em dar o nome de verbo, estavam para além das definições possíveis, ainda não tinham sido interpretadas.
 Acabara de descobrir que só numa batalha corpo a corpo, o som poderá ser expulso, o primeiro ruído que será capaz de reorganizar o cosmos. Dando-lhe a força necessária para adentrar no Devir.

Não, eu não cheguei a esta conclusão só, foi Hal 9000, a máquina espírito do tempo que emanou esta cantiga de si para mim, enquanto eu dormia, ela me dava o afeto frio e sincero que só os da sua espécie são capazes de oferecer e receber.

4 comentários

Bia Bernardi

Legal Fernando!
parabens!

Roseli Pedroso

Excelente texto Fernando. Parabéns!

pianistaboxeador21

Atacando na ficção científica. Um baita conto. Tb usei essa imagem do feto que não cresce, que não se liberta do útero no meu A delicadeza dos hipopótamos. Acertou.

Gl@uber Soares

"língua transformada em linguagem só produz barulho sem significação", taí, é isso mesmo. Gostei da viagem.