sexta-feira, 3 de abril de 2020

0

ENTREVISTA COM EMERSON ALCADE


Emerson Alcade nasceu no outono de 1982 no bairro da Penha, subdistrito de Cangaíba, passou a infância em Itaquaquecetuba, hoje vive na Cohab 1. Se formou no curso superior de Teatro e em dramaturgia. Poeta-performer, co-fundador do Slam da Guilhermina, ganhou a medalha de prata na copa do mundo de Slam de Paris em 2014. Ele é autor dos livros: (A) Massa (2011) e " O Vendedor de Travesseiros (2015). Emerson participou de diversas antologias marginais-periféricas? Já vale se apresentou na Venezuela, Trinidad e Tobago, Canadá e França. A nossa entrevista-bate-papo tem como foco principal o livro "Diário Bolivariano".

Emerson, embora não pareça a intenção primeira do livro, se é que há alguma numa obra de arte, ao longo da narrativa são expostos alguns fatos históricos. Com a popularização da História, principalmente por meio das obras do jornalista Laurentino Gomes. "Diário Bolivariano" contribui de alguma maneira com a recepção e reflexão dos fatos históricos?

Creio que sim. Não encontramos muitas informações da independência da Venezuela e sua história até os anos 90. Tive que buscar informações em espanhol, ou seja, em fontes internacionais para descrever certos fatos históricos. Em vários capítulos situo o leitor entre o lugar e a história que o envolve. Acredito que as pessoas possam conhecer um pouquinho mais sobre o nosso país vizinho. 

A faceta mais conhecida do seu fazer artístico é a poesia performada do slam, esta possui temas da realidade do cidadão periférico. Em seu livro a base  da narrativa é viagem que realizou até a Venezuela, um fato real. Estamos sem paciência e/ou sem espaço para a fantasia na literatura?

No slam, de um modo geral, as poesias são discursivas e respondem ao momento. Mas percebo que os poetas slammers querem desenvolver outras narrativas mesmo dentro do gênero lírico vejo muitas experimentações, porém poucas dentro do slam. O Slam vem crescendo e o público quer escutar e ver um poema de ataque, de enfrentamento contra os racistas, machistas, fascistas. Ok devemos lutar sim, mas também amamos e imaginamos outros mundos da fantasia. Decidi ir pro romance pra ter este respiro e buscar novos leitores e até mesmo mostrar pra este público que outras narrativas também são necessárias e relevantes.  

No dia 26 de Outubro, de 2019, em uma fala realizada na Casa Amarela, você revelou que a personagem Dimas é fictícia. Como aconteceu o processo de criação desta personagem e qual é a sua função dentro da narrativa?

Eu realizei a viagem sozinho e decidi criar um outro personagem para poder narrar alguns fatos reais e fictícios. E só de ter outra pessoa na história já sugere mais acontecimentos. E o Dimas seria o personagem que iria contextualizar historicamente trazendo informações para o leitor enquanto o Jackson viveria a aventura com poucas noções sociológicas.  


Você é ator e dramaturgo, O diário possui excelente material para um roteiro cinematográfico. Já ocorreu algum diàlogo  para que isso se materializasse? 

Ainda não. Algumas pessoas comentam, mas não recebi nenhuma proposta. 

O que há no chavismo de ficção que afirmamos como real? 

Não sei se entendi a pergunta. Mas vou tentar responder. Inseri informações do chavismo pelo ponto de vista de chavistas, pois a opinião contrária já recebemos diariamente pelos grandes meios de comunicação. Busquei mostrar o outro lado do chavismo. Isto pode ser esclarecedor pra que o leitor entenda o que leva milhões de pessoas a apoiar um governo e o que sustenta o governo no poder com tanta gente contra, aliás, com o mundo contra.  

Em algumas das vezes que abri o seu livro para prosseguir com a leitura, estava no transporte público, onde me ocorreu um pensamento que jamais tinha experienciado: O receio de uma abordagem violenta de um cidadão de direita? Qual é o papel da sua obra dentro deste delicado momento histórico?

Quando eu iniciei a escrita deste livro o mundo era outro. O Chávez e a Dilma estavam no poder. E a economia de ambos os países estavam bem. Depois da reviravolta eu oscilei em continuar ou não a desenvolver o livro. Depois vi que o livro poderia ser um material essencial para a luta contra o fascismo no Brasil. O mundo se polarizou e as pessoas mostraram a sua cara e nós ficamos expostos aos odiadores da direita sujeito ao confronto físico a qualquer momento em qualquer lugar. Neste tempo acredito que temos que nos posicionarmos fomos obrigado a escolher um lado, na verdade, nos coloraram do lado que muitos recusaram que é a esquerda. 

"Diário Bolivariano" recebeu incentivo público em seu caminho editorial por meio do Proac SP. Como você percebe as consequências do enfraquecimento das políticas de apoio a cultura? Quais serão as consequências desse fato em nossa sociedade?

Serão tempo difíceis. A cultura, educação e a ciência não tem espaço em um governo de direita. Tratam estas áreas pelo viés tecnicista, logo, reducionista. Teremos que buscar recursos em outros campos como na aérea privada e em instituições estrangeiras. Porém isto não nos anulam na luta pela garantia do direito ao acesso a cultura. Temos que torcer e lutar para que nas instâncias municipais e estaduais sejam progressistas, caso contrário o cenário será de guerra. Tenho esperança que aqui em São Paulo daremos um recado muito forte ao governo federal resistindo e reagindo ao retrocesso denunciando ao mundo o desmonte nas instituições sociais e democráticas brasileira.  

A sua obra possui um sofisticado trabalho gráfico. Como ele foi concebido e qual a sua função na recepção do leitor?

O projeto gráfico foi construído pelos parceiro da Yan Comunicação que nos aproximamos através do Slam da Guilhermina e Slam Resistência e na intenção de fazer um livro de poesia acabamos fazendo vários e nesta altura de criar o projeto gráfico do Diário Bolivariano estavam muito próximos e já tínhamos testados várias possibilidades gráficas. Eu enviei as minhas passagens, passaporte, fotos, vídeos da minha viagem. E eles me conhecendo e sabendo das minhas preferências politicas e artísticas conceberam um projeto com as cores vermelhas e ligadas ao Hip-Hop com traços gráficos geométricos. A foto da capa fui eu que tirei. Eu não dava a mínima pra ela, mas quando o diagramador viu já separou para trabalhar em cima. Pra este processo também foi fundamental a colaboração do consultor literário do Ermi Panzo que conseguiu traduzir o conceito do livro a equipe da diagramação enfatizando o caráter de diário de viagem. E concretização das ideias só foi possível porque eu tinha o subsidio do edital do PROAC prosa da Secretaria Estadual de Cultura de SP que me possibilitou pagar todo mundo e a impressão dos exemplares.  

 Por que ler Emerson Alcade?

Porque ele traduz para a prosa e para a poesia as problemáticas da periferia em uma linguagem elaborada, porém de acesso a todos. 














Seja o primeiro a comentar: