domingo, 3 de março de 2019

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o lado de dentro das coisas

          
quando eu era um bebê não era assim. 
eu imaginava que era parte do todo que era a minha mãe. 
e isso, por si só, era mais do que eu imaginei por muito tempo. 
(mas não mais do que eu imagino agora.) 
depois eu cresci e passei a me identificar comigo mesmo; 
e ao outro, e ao mundo, como diferente de mim. 
os cinco sentidos são assim: 
portais para as trocas com o mundo externo. 
e não foi só comigo, isso foi acontecendo com cada um de nós, 
quando nos demos conta, já estávamos pensando, refletindo, 
cada qual criou identidade própria, única, pessoal 
 - ao mesmo tempo miraculosa e assustadora.  
quando a razão se instalou em mim 
eu passei a viver na superfície das coisas. 
nesse campo de batalha que é a morada da matéria, 
do manifesto, da diferenciação e da impermanência. 
porque você há de concordar comigo que aqui 
tudo é cíclico, insustentável, e, no limite, 
nunca nos entenderemos. 
a lei da entropia garante: 
cada um de nós retornará, a seu tempo, 
ao estado de mínima energia. 
ou você é água, ou você é fogo, 
ou você é ar, ou você é terra: 
e a razão pede que eu tome partido. 
(mas se é verdade que há um liame 
ao lado de dentro das coisas) 
na planície há um lago onde sopra a brisa ao sol 
que sempre será. 
e se com uma lupa eu ampliar o seu cérebro 
não restará nem vestígio da ideia 
de tão separados os neurônios como 
as estrelas do céu. 
(mas se é verdade que há um liame 
ao lado de dentro das coisas) 
há uma convergência das linhas do tempo 
para esse lugar. 
o big bang das ideias está espalhado 
mas é possível juntar os cacos dentro.  
a todo momento que você for capaz 
de submergir. 
(existe esse lugar de integridade) 
nada do que aparenta ser obtuso 
é de fato irreconciliável 
(na simples mudança de dimensão:  
espaço íntimo do ser). 
            

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