quinta-feira, 4 de abril de 2013

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System failure


Meu amigo partiu. Diogo tinha adquirido o seu celular dual chip fazia duas semanas. Foi um acidente de percurso. Deu com a cabeça numa quina frágil do meio-fio. Pedra recoberta de liquens, até o concreto da cidade apreende a vida, ao seu tempo. Por engano ligou para o seu número, de um chip para outro, o celular explodiu. Assim ficou registrado na causa mortis. O impacto da cabeça contra a rigidez da via, esbagaçando em vermelho os seus miolos. Ao final do mês as contas de ambas as operadoras atestavam a ligação derradeira – contra si mesmo.

 

É triste saber das ideias que se encontravam antes aninhadas num mesmo fardo esparramarem-se amorfas. Dizem ser esta a matéria-prima que move as funerárias, os papa-defuntos, os traficantes de órgãos e os coveiros. Bom para eles. Sentirei falta de meu amigo Diogo.

 

Agora o resto é objeto de disputa entre anjos e demônios. Não é certo que tenha um ou outro direito sobre a sua alma por completo. Este é o senso comum, mas quanto a isso não existem provas irrefutáveis ou mesmo evidências científicas. E não sei de ninguém que tenha retornado do purgatório com respostas.

 

É consenso que Diogo não era bom nem mau e habitavam-lhe certas incongruências de caráter, como acontece com a toda a gente.

 

Penso se a questão não seria digna da instauração de uma CPI, mas rapidamente refuto a hipótese: Diogo era de natureza simples, ignara, praticamente um matuto transmudado à cidade.

 

Ele foi engolido pela terra. A travessa e o calçamento varridos pelas chuvas. Noutro dia o sol irrompeu o firmamento. E na manhã seguinte também.

 

Guardo comigo minhas cismas e achismos.

 

Resignado, aguardo minha vez.


 

 *    *    *

 

Caminho a margem de extenso muro, os tijolos expostos como células, colados na velha argamassa de cimento, recoberta de liquens, até ao concreto o tempo dá vida. Escura e úmida a bruma, seguem os mistérios junto a mim. A segurança de poucos passos, em desafio a pretensa razão, são sendas desse destino vacilante, circunscrito ao brilho de uma tênue lamparina, ermo ao vagar. As rajadas de vento figuram tormentas de meter medo e as sombras na parede aludem às bizarras criaturas; porém estas não passam de fantasmas a habitar minha mente. Nada disso me abate ou desanima por inteiro, meu São Jorge me proteja, enquanto o muro está à margem, dos labirintos dessa vida, o fio da meada, ou a porta de saída, eu ainda acho um dia.

 

 
 


 

3 comentários

Mariela Mei

Muito bom, Jorge!! Adorei!

Jorge Xerxes

Super-Grato, Mariela!!

Márcio Ibiapina

“até ao concreto o tempo dá vida”
Jorge, mais um belo texto construído com a argamassa competente de tua escrita!
Parabéns!