domingo, 3 de março de 2019

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ENGRENAGENS: Jandira Zanchi

Ilustração: Jackson Pollock


Calmaria, sem suor, na madrugada lisa que avança, quase esquecida, com pequenos  sustenidos - brandos e mancos –
documentados  e arranjados  
nos passantes  de feira e beira
assados e criados no sol dos dias céleres e vivos
rodopiando vidas horários engrenagens
cá e lá um sorriso e namorados se esquentando no parque e na praça nos bancos de vadiagem

quase sem olhos entre margens e fados   
deixando pequenas conchas de favores
 - nem sequer pedidos -  aos ares e fumaças
do correr do dia vida e rotina ventos e tenazes, enquanto, na fila dos desempregados, mãos estreitavam cabeças e alguns olhos
– aí sim – expressivos para latentes súplicas
perdidas ardidas temidas encolhidas submetidas
sem a lira leve frouxa dos desatinados que colhiam
 - às 13:00 desse sábado -  as sobras distribuídas
das frutas e favas da feira no átrio

desejos e palavras e vantagens de alguns sonhos que mirei, se ainda fosse possível colher
novidades e milagres

mas, parece que é bento e suave o nascimento
e se vertigem é a alma e a necessidade  e
o perfil e o estado e correm pétalas e o líquido
e alguma santidade.


Jandira Zanchi (O Vapor da Noite, inédito)

2 comentários

Pedro Du Bois

Otimo! Abraços.

Jandira Zanchi

Gracias, Pedro, abraço!